Conferncias introdutrias sobre psicanlise
(Parte III)


















VOLUME XVI
(1916-1917)













Dr. Sigmund Freud





PARTE III - TEORIA GERAL DAS NEUROSES (1917 [1916-17])
         
         CONFERNCIA XVI 
         PSICANLISE E PSIQUIATRIA
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Alegra-me v-los novamente, no incio do novo ano acadmico, para uma retomada de nossas discusses. No ano passado, falei-lhes de como a psicanlise aborda 
as parapraxias e os sonhos. Este ano, gostaria de conduzi-los  compreenso dos fenmenos da neurose, que, conforme logo verificaro, tm muitas coisas em comum 
com ambos. Devo, porm, adverti-los, antecipadamente, de que no poderei oferecer-lhes, este ano, em relao a mim, a mesma situao do ano passado. Naquela poca, 
fiz questo de jamais dar um passo sem estar de acordo com o julgamento dos senhores; foram muitas as coisas que debati com os senhores, e dei acolhida s suas objees 
- de fato, reconheci-os e ao seu 'senso comum' como fator decisivo. Isto, contudo, no  mais possvel, e por uma razo simples. As parapraxias e os sonhos no so 
fenmenos desconhecidos dos senhores; poderamos dizer que os senhores tinham, ou facilmente podiam obter, tanta experincia acerca dos mesmos quanto eu. Entretanto, 
a rea dos fenmenos da neurose lhes  desconhecida; de vez que os senhores no so mdicos, tm qualquer acesso a eles que no seja por intermdio daquilo que tenho 
a dizer-lhes; e de que serve o melhor raciocnio, se este no est acompanhado da familiaridade com o contedo daquilo de que se ajuza?
         Os senhores no devem, porm, tomar esse advertncia minha no sentido de que eu proponha dar-lhes conferncias dogmticas e insista em seu crdito irrestrito. 
Um equvoco desses far-me-ia grave injustia. No desejo suscitar convico; desejo estimular o pensamento e derrubar preconceitos. Se, em decorrncia da falta de 
conhecimento do material, os senhores no esto em condies de emitir um julgamento, no deveriam nem acreditar, nem rejeitar. Deveriam ouvir atentamente e permitir 
que atue nos senhores aquilo que lhes digo. No  to fcil adquirir convices; ou, se estas so alcanadas facilmente, logo se revelam sem valor e incapazes de 
resistncia. A nica pessoa que tem o direito de possuir uma convico  algum que, como eu, tenha trabalhado, por muitos anos, o mesmo material e que, assim agindo, 
tenha tido, por si prprio, as mesmas e surpreendentes experincias. De que servem ento, na esfera do intelecto, essas convices sbitas, essas converses-relmpago, 
essas rejeies instantneas? No est claro que o 'coup de foudre', amor  primeira vista, deriva de esfera bem diferente, da esfera das emoes? Nem mesmo dos 
nossos pacientes exigimos que devem convencer-se da verdade da psicanlise, no tratamento, ou aderir a ela. Tal atitude freqentemente levanta nossas suspeitas. 
A atitude que neles achamos mais desejvel  a de um benvolo ceticismo. Assim, tambm os senhores devem esforar-se por deixar que os pontos de vista psicanalticos 
amaduream tranqilamente nos senhores, junto com a viso popular ou psiquitrica, at surgir a oportunidade de ambas se influenciarem reciprocamente, de uma competir 
com a outra e de se aliarem no rumo de uma concluso.
         Por outro lado, no devem, de modo algum, supor que aquilo que lhes apresento como conceito psicanaltico seja um sistema especulativo. Pelo contrrio, 
 emprico - seja uma expresso direta das observaes, seja um processo consistente em trabalh-las exaustivamente. Se esse trabalho exaustivo foi executado de 
uma maneira adequada e fundamentada, isto se ver no decorrer de futuros progressos da cincia, e realmente posso afirmar, sem jactncia, aps um perodo de quase 
vinte e cinco anos e tendo atingido uma idade razoavelmente avanada, que essas observaes so o resultado de trabalho especialmente difcil, intensivo e aprofundado. 
Freqentemente tive a impresso de que nossos opositores relutavam em levar em conta essa origem de nossas teses, como se pensassem que se tratava apenas de noes 
determinadas subjetivamente, s quais qualquer um podia opor outras, de sua prpria escolha. Essa conduta dos nossos opositores no me  completamente compreensvel. 
Talvez se deva ao fato de que, como mdico, habitualmente se tem to pouco contacto com pacientes neurticos e se presta to pouca ateno ao que dizem esses pacientes 
que no se pode imaginar a possibilidade de que se possa derivar algo de valioso de suas comunicaes - isto , a possibilidade de efetuar acuradas observaes a 
respeito delas. Valho-me desta oportunidade para assegurar-lhes que, no decorrer destas conferncias, permitirei muito pouca controvrsia, especialmente com algumas 
pessoa, individualmente. Nunca pude convencer-me da verdade da mxima segundo a qual a controvrsia  a me de todas as coisas. Penso que deriva dos sofistas gregos 
e, como eles, peca por supervalorizar a dialtica. Parece-me, ao contrrio, que aquilo que se conhece como controvrsia cientfica , na totalidade, muito improdutivo, 
alm do fato de quase sempre ser conduzido segundo motivos altamente pessoais. At h alguns anos, eu podia gabar-me de apenas uma vez haver-me envolvido numa disputa 
cientfica regular - com um nico pesquisador (Lwenfeld, de Munique). Terminou por nos tornarmos amigos, e o somos at o dia de hoje. No repeti, porm, a experincia, 
por muito tempo, pois no tinha certeza de que o resultado viesse a ser o mesmo.
         Ora, os senhores concluiro, sem dvida, que uma rejeio como esta de todas as discusses por escrito demonstra um elevado grau de inacessibilidade a objees, 
de obstinao, ou, para usar um termo cientfico, coloquial e educado, de apego s idias prprias [Verranntheit]. Gostaria de dizer, em resposta, quem, porquanto, 
aps trabalho to rduo, chegou-se a adquirir uma convico, ao mesmo tempo adquiriu-se um certo direito de manter esta convico com alguma tenacidade. Tambm posso 
declarar que, no transcorrer do meu trabalho, tenho modificado minhas opinies em alguns pontos importantes, tenho-as alterado e substitudo por outras, novas - 
e, em todas essas ocasies, naturalmente, tornei isto pblico. E o resultado dessa sinceridade? Algumas pessoas jamais tomaram conhecimento de quaisquer de minhas 
autocorrees, e continuam, at hoje, a criticar-me por hipteses que, para mim, h muito cessaram de ter o mesmo significado. Outros me reprovam justamente por 
estas modificaes, e, por causa delas, consideram-me indigno de confiana. Naturalmente! uma pessoa que, vez por outra, mudou de opinio, no merece absolutamente 
nenhum crdito, pois tornou tudo to demasiadamente provvel, que as ltimas afirmaes tambm podem ser equivocadas; mas uma pessoa que inflexivelmente manteve 
o que uma vez afirmou, ou que no pode de relance ser persuadida a abandon-lo, deve naturalmente ser aferrada s idias prprias, ou teimosa! Que se pode fazer 
frente a essas objees contraditrias dos crticos, seno permanecer como se , e conduzir-se de acordo com o julgamento prprio? Estou resolvido a agir assim, 
e no me impedirei de modificar ou retirar qualquer uma de minhas teorias sempre que a progresso da experincia possa exigi-lo. Com referncia a descobertas fundamentais, 
at o momento atual, nada tenho a modificar, e espero que isto venha a manter-se verdadeiro no futuro.
         Vou apresentar-lhes, portanto, a viso psicanaltica dos fenmenos da neurose. Para isto, parece que o melhor plano consistiria em comearmos por estabelecer 
uma conexo com os fenmenos de que j tratamos, tanto pela causa da analogia, como do contraste; e comearei expondo uma ao sintomtica [ver em [1] e [2]] que 
vi muitas pessoas executarem durante minhas horas de consulta. Ns, analistas, no podemos fazer muita coisa para conseguir que as pessoas que vm at ns, em nosso 
consultrio, nos exponham, em um quarto de hora, os sofrimentos de toda uma vida. Nosso conhecimento mais profundo nos dificulta dar o tipo de opinio emitida por 
um outro mdico - 'No h problema com o senhor' -  qual se acrescenta o conselho: 'O senhor devia providenciar um tratamento hidroptico brando.' Um de meus colegas, 
quando lhe perguntaram o que fazia com seus pacientes, que vinham consultar, encolheu os ombros e respondeu: 'Eu lhes aplico uma multa, de tantas e tantas Kronen 
por uma intil perda de tempo.' Assim, os senhores no se surpreendero ao ouvir que, mesmo no caso de psicanalistas muito ocupados, suas horas de atendimento no 
costumam ser muito animadas. A porta simples, entre minha sala de espera e a sala de atendimento e a de tratamento, mandei faz-la dupla e revestida de feltro. No 
pode haver dvidas a respeito do propsito desse arranjo. Ora, repetidamente acontece uma pessoa, que estava na sala de espera e que mando entrar, deixar de fechar 
a porta atrs de si e quase sempre deixar ambas as portas abertas. To logo percebo esse fato, insisto com o paciente ou a paciente, num tom mais propriamente inamistoso, 
para que volte e corrija a omisso - ainda que a pessoa questo seja um cavalheiro elegantemente trajado ou uma senhora da alta sociedade. Isto d a impresso de 
rigorismo desnecessrio. s vezes, tambm, tenho-me colocado em situao absurda, fazendo este pedido quando se verifica, depois, tratar-se de uma pessoa que no 
pode por si mesmo tocar na maaneta da porta, e se alivia se algum em sua companhia poupa-a dessa necessidade. Mas, na maioria dos casos, tenho agido com acerto; 
pois todo aquele que se conduz dessa forma e deixa aberta a porta entre a sala de espera e a sala de consulta de um mdico,  mal-educado e merece uma recepo inamistosa. 
No tomem, contudo, partido nesta questo, sem terem ouvido o restante. Pois esse descuido por parte do paciente apenas acontece quando esteve sozinho na sala de 
espera e, portanto, deixou atrs de si uma sala vazia; jamais acontece no caso de outras pessoas, que lhe sejam estranha, terem estado esperando com ele. Nesse ltimo 
caso, sabe muito bem que  de seu interesse que sua conversa com o mdico no seja ouvida secretamente, e nunca deixa de fechar cuidadosamente as duas portas.Assim, 
a omisso do paciente no  determinada pelo acaso ou por falta de propsito; e, na realidade, ela no  destituda de importncia, pois, conforme verificaremos, 
elucida a atitude de recm-chegado para com o mdico. O paciente  mais um da grande multido que tem um desejo insacivel de autoridade mudana, que deseja ser 
ofuscado e intimidado. Ele pode ter perguntado pelo telefone sobre a hora em que mais facilmente poderia conseguir uma entrevista; havia formado para si a imagem 
de uma multido de pessoas procurando ajuda, como a multido do lado de fora de uma das filiais de Julius Meinl. E ento entra em uma sala de espera vazia, e principalmente, 
mobiliada com extrema modstia, e fica chocado. Ele tem de fazer o mdico pagar pelo respeito suprfluo que tencionava oferecer-lhe:  assim que deixa de fechar 
a porta entre a sala de espera e a sala de consulta. O que quer dizer ao mdico, por essa sua conduta, : 'Ah, ento no h ningum, e provavelmente no vir ningum 
enquanto eu estiver aqui.' Ele se conduziria de forma igualmente descorts e desrespeitosa durante a consulta, se sua arrogncia no recebesse uma dura repreenso 
logo no comeo.A anlise dessa pequena ao sintomtica no lhes diz nada que j no soubessem antes: a tese de que ela no  uma ao casual, mas teve um motivo, 
um sentido e uma inteno, que se localiza num contexto mental especfico e que informa, mediante uma pequena indicao, acerca de um processo mental mais importante. 
Mais que tudo, porm, essa ao sintomtica lhes revela que o processo assim indicado era inconsciente para a conscincia da pessoa que executou essa ao, de vez 
que nenhum dos pacientes que deixou as duas portas abertas teria conseguido admitir, por meio dessa omisso, que desejasse demonstrar tal desrespeito. Alguns deles 
provavelmente ter-se-iam apercebido de determinada sensao de desapontamento ao penetrarem na sala de espera vazia; mas a conexo entre esta impresso e a ao 
sintomtica que se seguiu, por certo permaneceu desconhecida de sua conscincia.Aps essa pequena anlise de uma ao sintomtica, passaremos agora  observao 
de uma paciente. Escolhi esta observao porque est vivida em minha memria, e tambm por poder ser relatada em tempo relativamente breve. Determinada quantidade 
de detalhes torna-se imprescindvel num relato desta espcie.Um jovem oficial, de regresso a casa, em perodo de uma breve licena, pediu-me que tomasse em tratamento 
sua sogra, que, embora nas circunstncias mais felizes, estava amargurando sua prpria vida e as vidas de seus parentes, com uma idia absurda. Foi assim que vim 
a conhecer uma senhora bem conservada, cinqenta e trs anos, de natureza amvel e simples, que me narrou sem relutncia a seguinte histria. Ela morava no campo, 
vivia, num casamento feliz, com seu marido, diretor de uma grande fbrica. No tinha seno como elogiar a afetuosa solicitude do marido. H trinta anos se haviam 
casado por amor, e, desde ento, jamais tinha havido qualquer problema, discrdia ou motivo para cimes. Seus dois filhos estavam bem casados; seu marido (e pai 
destes), compenetrado de suas obrigaes, ainda no pensava em aposentar-se. Um ano antes, ela recebera uma carta annima, acusando seu excelente marido de um caso 
amoroso com uma jovem. E o resultado incrvel - e, para ela, ininteligvel - foi que ela imediatamente acreditou na carta, e desde ento sua felicidade foi destruda. 
O curso dos acontecimentos, em maiores detalhes,  mais ou menos este. Ela tinha uma empregada domstica com quem costumava, talvez com freqncia excessiva, ter 
conversas ntimas. Esta moa perseguia uma outra, com certa hostilidade positivamente maldosa, porque esta outra havia progredido muito mais na vida, embora no 
fosse de origem mais elevada. Em vez de dedicar-se ao servio domstico, esta moa tinha conseguido concluir um curso comercial, ingressado na fbrica e, em conseqncia 
da falta de pessoal, devido ao fato de elementos da organizao fabril serem requisitados para o servio militar, foi promovida a uma boa posio. Agora morava na 
prpria fbrica, mantinha relacionamento social com todos os senhores, e realmente tratavam-na por 'Frulein.' A moa que tivera menos sucesso na vida naturalmente 
estava pronta a repetir todos os tipos de maldades para com a antiga colega de escola. Certo dia, essa senhora teve um dilogo com a empregada a respeito de um cavalheiro 
que tinha estado com elas, que se sabia no estar vivendo com a esposa e estar tendo um caso amoroso com outra mulher. Ela no sabia como foi que aconteceu, mas 
de repente disse: 'A coisa mais terrvel que poderia acontecer-me era eu saber que meu querido esposo tambm estivesse tendo um caso.' No dia seguinte, recebia uma 
carta annima, pelo correio, a qual, como que por mgica, dava-lhe justamente esta informao, escrita com letra disfarada. Concluiu, provavelmente com acerto, 
que a carta era obra de empregada maldosa, de vez que apontava como amante do marido a jovem a quem a servial perseguia com seu dio. Embora imediatamente compreendesse 
a intriga e tivesse visto, em muitos casos ocorridos no lugar onde vivia, quo pouco crdito merecem tais denncias covardes, o que aconteceu, todavia, foi que a 
carta abateu-a instantaneamente. Ficou terrivelmente excitada, mandou chamar prontamente seu marido e acusou-o violentamente. Seu marido no fez caso da acusao 
e agiu da melhor forma possvel. Chamou o mdico da famlia (que era tambm o mdico da fbrica), que se esforou por apaziguar a infeliz senhora. A conduta subseqente 
de ambos foi inteiramente sensata. A domstica foi despedida, mas a suposta rival, no. Desde ento a paciente se havia tranqilizado por perodos, repetidamente, 
a ponto de no acreditar mais no contedo da carta annima, porm nunca completamente, nunca definitivamente. Bastava-lhe ouvir mencionarem o nome da jovem senhora 
ou encontr-la na rua, para nela desencadear um novo ataque de desconfiana, dor e acusaes.Este , pois, o caso clnico dessa excelente senhora. No se requeria 
muita experincia psiquitrica para compreender que, em contraste com outros neurticos, ela estava dando uma descrio por demais atenuada de seu caso - que ela 
estava, por assim dizer, dissimulando - e que, realmente, jamais deixara de acreditar na acusao contida na carta annima.Que atitude, portanto, um psiquiatra adotar 
em um caso de doena como este? J sabemos como ele se conduziria frente  ao sintomtica do paciente que deixa de fechar a porta da sala de consulta. Ele declara 
que se trata de evento casual, sem interesse psicolgico, com o qual no tem a maior preocupao. Este procedimento, contudo, no pode ser mantido no caso da doena 
dessa mulher ciumenta. A ao sintomtica parece ser uma questo irrelevante; mas o sintoma se impe  nossa ateno como questo importante. Acompanha-se de intenso 
sofrimento subjetivo e, como fato objetivo, ameaa a vida em comum de uma famlia; constitui, pois, um assunto de inegvel interesse psiquitrico. O psiquiatra comear 
por procurar caracterizar o sintoma por meio de algum aspecto essencial. A idia com que a mulher se atormenta no pode ser, em si, chamada de absurda; de fato, 
ocorre senhores casados de certa idade terem casos amorosos com mocinhas. Existe, porm, algo mais, a este respeito, que  absurdo e difcil de entender. A paciente 
no possua absolutamente nenhum outro motivo para acreditar que seu marido afetuoso e leal pertencesse a essa outra classe, alis nada rara, de maridos, a no ser 
o que se afirmava na carta annima. Ela sabia que esse documento no tinha qualquer valor de prova, e podia dar uma explicao satisfatria sobre a origem da mesma. 
Portanto, devia ser capaz de dizer a si mesma que no tinha qualquer fundamento para seu cime, e ela realmente o fez. Apesar disso, sofria tanto, contudo, como 
se julgasse esse cime totalmente justificado. Idias desse tipo, inacessveis a argumentos lgicos baseados na realidade, so, segundo o consenso geral, descritas 
como delrios. A boa senhora, portanto, estava sofrendo de delrios de cime. Este , sem dvida, o aspecto essencial deste caso mrbido.Depois de estabelecido este 
primeiro ponto, nosso interesse psiquitrico se torna at mais vvido. Se no se pode eliminar um delrio mediante uma referncia  realidade, ento sem dvida ele 
no se originou da realidade. De onde mais ter-se-ia originado? Existem delrios dos mais variados contedos: por que, neste nosso caso, se trata justamente do delrio 
de cime? Em que tipo de pessoas atuam os delrios e, especialmente, os delrios de cime? Gostaramos de ouvir o que o psiquiatra tem a dizer a este respeito; mas, 
neste ponto, ele nos deixa em apuros. Considera apenas uma das nossas perguntas. Investigar a histria familiar da mulher e, talvez, nos dar sua resposta: 'Os 
delrios aparecem em pessoas em cujas famlias tenham ocorrido, repetidamente, outros distrbios psquicos semelhantes.' Em outros termos, se essa mulher desenvolveu 
um delrio, estava predisposta a ele por transmisso hereditria. Sem dvida, isso j  alguma coisa; mas,  tudo que queremos saber? Foi isso a nica coisa que 
contribuiu para a causao da doena? Devemos contentar-nos com supor tratar-se de algo sem importncia, indiferente, ou de um capricho; ou que no se pode explicar 
se o delrio de cime aparece de preferncia a algum outro tipo? E deveramos entender a assertiva da predominncia da influncia hereditria tambm num sentido 
negativo - que, no importa quais experincias a mente dessa mulher tivesse encontrado, ela estaria destinada, mais cedo ou mais tarde, a vir a apresentar um delrio? 
Os senhores desejaro saber por que razo a psiquiatria cientfica no nos dar outras informaes. Minha resposta aos senhores, contudo, : 'ele  um trapaceiro 
que d mais do que tem.' O psiquiatra no sabe como lanar mais luz sobre um caso como este. Ele deve contentar-se com um diagnstico e um prognstico - incertos, 
apesar de uma grande quantidade de experincia -, e com sua evoluo futura.Pode a psicanlise, porm, ir alm, em um caso destes? Sim, ela realmente pode. Espero 
conseguir mostrar-lhes que, mesmo num caso assim, to difcil de abordar, ela pode descobrir algo que possibilite uma primeira compreenso. E, antes de mais nada, 
eu atrairia a ateno dos senhores para o detalhe notrio de que a prpria paciente positivamente provocou a carta annima, tendo, agora, dado apoio a seu delrio, 
ao informar  empregada intrigante, no dia anterior, que lhe causaria a maior infelicidade se seu marido tivesse um caso amoroso com uma jovem. Assim, primeiro ela 
incute na empregada a idia de enviar a carta annima. O delrio, ento, adquire certa independncia da carta; j estivera presente na paciente sob a forma de medo 
- ou era um desejo? Acrescentemos a isto as outras pequenas indicaes obtidas em apenas duas sesses analticas. A paciente, na realidade, conduziu-se de maneira 
bastante no-cooperativa quando, aps haver contado sua histria, perguntei-lhe por seus outros pensamentos, idias e lembranas. Disse que no lhe ocorria nada 
 mente, que j me havia dito tudo; e, depois de duas sesses, a tentativa de tratamento comigo realmente teve de ser interrompida pois declarou que j se sentia 
bem e estava segura de que a idia patolgica no retornaria. Naturalmente, ela disse isto apenas devido  sua resistncia e ao receio da continuao da anlise. 
No obstante, durante essas duas sesses, fez algumas observaes que permitiram, e realmente exigiram, uma interpretao especial; e essa interpretao lanou viva 
luz sobre a gnese de seu delrio de cime. Ela prpria estava intensamente apaixonada por um homem jovem, pelo mesmo genro que a persuadira a procurar-me na qualidade 
de paciente. Ela mesma nada sabia, ou, talvez, sabia muito pouco dessa paixo; no relacionamento famlia que existia entre ambos, era fcil essa afeio apaixonada 
disfarar-se como afeio inocente. Depois de todas as nossas experincias em outras situaes, no nos  difcil tatear os caminhos da vida mental dessa honrada 
esposa e digna me de cinqenta e trs anos. Estando apaixonada dessa maneira, uma coisa assim to monstruosa e impossvel no podia tornar-se consciente; permaneceu, 
porm, existindo, e, ainda que continuasse inconsciente, exercia grande presso. Algo havia de acontecer, um alvio tinha de ser buscado, e a mitigao mais fcil 
surgiu, sem dvida, atravs do mecanismo do deslocamento, que desempenhou seu papel de modo to regular na produo do cime delirante. Se ao menos no somente ela, 
a senhora idosa, estivesse apaixonada por um homem jovem, mas tambm seu idoso marido estivesse mantendo um caso amoroso com uma jovem, ento sua conscincia se 
aliviaria do peso de sua infidelidade. A fantasia da infidelidade de seu esposo agiu assim como uma compressa fria em sua ferida ardente. O amor que ela prpria 
obrigava no se lhe tornara consciente; porm, seu reflexo especular, que lhe deu tal vantagem, agora se tornou consciente como uma obsesso e um delrio. Naturalmente 
nenhum argumento em contrrio podia surtir qualquer efeito, pois o argumento era dirigido contra a imagem especular, e no contra a imagem original que deu  outra 
sua fora e que permanecia oculta, inviolvel, no inconsciente.Vamos reunir agora aquilo que esta tentativa de psicanlise, curta e detida como foi, trouxe  luz 
para uma compreenso deste caso - supondo, naturalmente, que nossas investigaes tenham sido efetuadas corretamente, o que no posso, aqui, submeter ao julgamento 
dos senhores. Em primeiro lugar, o delrio deixou de ser absurdo ou ininteligvel; tinha um sentido, tinha motivos fundamentados, e ajustou-se ao contexto de uma 
experincia emocional da paciente. Em segundo lugar, o delrio era necessrio como reao a um processo mental inconsciente que inferimos de outras indicaes, e 
foi justamente a esta conexo que deveu seu carter delirante e sua resistncia a todo ataque lgico e realista. Esse delrio era, em si, de certa maneira desejado, 
uma espcie de consolao. Em terceiro lugar, o fato de o delrio vir a ser precisamente o delrio de cime, e no de outro tipo, estava inequivocamente determinado 
pela experincia que est por trs da doena. Naturalmente, os senhores se recordaro de que, no dia anterior, ela havia dito  empregada intrigante que a coisa 
mais terrvel que lhe podia acontecer seria a infidelidade do marido. E os senhores no deixaro de perceber as duas importantes analogias entre este caso e a ao 
sintomtica que analisamos - a explicao do seu sentido ou inteno e sua relao com algo inconsciente, envolvido na situao.Por certo, isto no responde a todas 
as perguntas que poderamos fazer em relao a este caso. Pelo contrrio, o caso suscita outros problemas - alguns, em geral, ainda no se tornaram solveis, e outros 
no poderiam ser solucionados devido a existirem circunstncias especiais desfavorveis. Por exemplo, por que essa mulher, que estava vivendo um casamento feliz, 
apaixonou-se por seu genro? E por que o alvio, que teria sido possvel de outras maneiras, tomou a forma dessa imagem especular, dessa projeo de seu estado em 
seu marido? Os senhores no devem pensar que  ocioso ou intil levantar tais questes. J possumos algum material  nossa disposio, que possivelmente poderia 
servir para respond-las. A senhora estava em uma idade crtica, na qual as necessidades sexuais da mulher sofrem um aumento sbito e indesejado; isto, por si s, 
poderia responder pelo evento. Ou ainda pode ter ocorrido que seu excelente e fiel esposo h alguns anos no estivesse mais gozando da capacidade sexual que essa 
mulher bem conservada requeria para sua satisfao. A experincia nos demonstrou que so precisamente homens numa situao assim, cuja fidelidade pode, conseqentemente, 
ser tida como certa, que se distinguem por tratarem suas esposas com ternura incomum, e por mostrarem especial pacincia para com os problemas nervosos delas. Ou 
ainda, no pode deixar de ter significao o fato de o objeto de seu amor patognico ser justamente o jovem marido de uma de suas filhas. Um poderoso vnculo ertico 
com uma filha, que remonta aos primrdios da constituio sexual da me, s vezes encontra a forma de sobreviver numa transformao dessa ordem. Com referncia a 
isto, posso, talvez, recordar-lhes que a relao entre sogra e genro tem sido considerada, desde as pocas mais remotas da raa humana, como relao particularmente 
embaraosa e que, entre tribos primitivas, deu origem a regulamentaes e 'evitaes' tabu muito poderosas. A relao, amide,  extravagante, pelos padres civilizados, 
tanto em sentido positivo como negativo. Qual desses trs fatores tornou-se atuante, no caso em questo, ou se dois deles, ou se, talvez, todos os trs vieram juntos, 
verdadeiramente no lhes posso dizer; isso, contudo,  s porque no me foi possvel continuar a anlise do caso alm de duas sesses.Verifico agora, senhores, que 
lhes venho falando de muitas coisas, e os senhores no esto preparados para entend-las. Assim procedi para fazer a comparao entre psiquiatria e psicanlise. 
Existe, porm, uma coisa que posso perguntar-lhes, agora. Observaram algum sinal de contradio entre elas? A psiquiatria no emprega os mtodos tcnicos da psicanlise; 
toca superficialmente qualquer inferncia acerca do contedo do delrio, e, ao apontar para a hereditariedade, d-nos uma etiologia geral e remota, em vez de indicar, 
primeiro, as causas mais especiais e prximas. Mas existe uma contradio, uma oposio nisso? No  o caso de uma suplementar a outra? O fator hereditrio contradiz 
a importncia da experincia? Ambas as coisas no se combinam da maneira mais efetiva? 
         Os senhores asseguraro no existir nada na natureza do trabalho psiquitrico que possa opor-se  investigao psicanaltica. O que se ope  psicanlise 
no  a psiquiatria, mas os psiquiatras. A psicanlise relaciona-se com a psiquiatria aproximadamente como a histologia se relaciona com a anatomia: uma estuda as 
formas externas dos rgos, a outra estuda sua estruturao em tecidos e clulas. No  fcil imaginar uma contradio entre essas duas espcies de estudo, sendo 
um a continuao do outro. Atualmente, como sabem, a anatomia  considerada por ns como fundamento da medicina cientfica. Houve, todavia, poca em que era to 
proibido dissecar um cadver humano, a fim de descobrir a estrutura interna do corpo, como hoje parece ser o exerccio da psicanlise, esclarecer acerca do mecanismo 
interno da mente.  de se esperar que, em futuro no muito distante, perceber-se- que uma psiquiatria cientificamente fundamentada no ser possvel sem um slido 
conhecimento dos processos inconscientes profundos da vida mental.
         Talvez a psicanlise, sempre to atacada, tenha, porm, entre os senhores, amigos que se regozijaro se ela puder legitimar-se num outro sentido - no aspecto 
teraputico. Como sabem, nossa terapia psiquitrica, at o momento atual, no  capaz de influenciar os delrios. Ser possvel, talvez, que a psicanlise possa 
faz-lo, graas  sua compreenso profunda do mecanismo desses sintomas? No, senhores, no pode. Ela  to impotente (pelo menos por enquanto) contra esses males, 
quanto qualquer outra forma de terapia. Ns podemos compreender, na verdade, o que ocorreu na paciente; no entanto, no temos meios de fazer com que a paciente mesma 
o compreenda. Os senhores ouviram como fui incapaz de prosseguir com a anlise desse delrio alm de um simples comeo. Estariam os senhores dispostos a afirmar, 
por isso, que uma anlise de tais casos deve ser rejeitada porque  infrutfera? Penso que no. Temos o direito, ou melhor, a obrigao, de efetuar nossa pesquisa 
sem considerar qualquer efeito benfico imediato. No fim - no sabemos dizer onde nem quando - cada pequena parcela de conhecimento se transformar em poder, e tambm 
em poder teraputico. Ainda que a psicanlise se mostrasse to ineficaz em qualquer outra forma de doena nervosa e psquica, como se mostra ineficaz nos delrios, 
estaria plenamente justificada como insubstituvel instrumento de investigao cientfica.  verdade que, nesse caso, no estaramos em condies de exerc-la. O 
material humano, com o qual procuramos aprender, que vive, tem sua vontade prpria e precisa ter motivos para cooperar em nosso trabalho, se afastaria de ns. Portanto, 
permitam-me finalizar meus comentrios de hoje informando-lhes que existem extensos grupos de distrbios nervosos nos quais a transformao do nosso melhor entendimento 
em poder teraputico realmente se efetivou, e que nessas doenas, s quais  difcil o acesso por outros meios, obtemos, sob condies favorveis, xitos que no 
so superados por nenhum outro meio, na rea da medicina interna.
         
         CONFERNCIA XVII
         O SENTIDO DOS SINTOMAS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Na ltima conferncia, expliquei-lhes que a psiquiatria clnica atenta pouco para a forma externa do contedo dos sintomas individualmente considerados, 
que a psicanlise, entretanto, valoriza precisamente este ponto e estabeleceu, em primeiro lugar, que os sintomas tm um sentido e se relacionam com as experincias 
do paciente. O sentido dos sintomas neurticos foi descoberto, em primeira mo, por Josef Breuer, em seu estudo e cura bem sucedida (entre 1880 e 1882) de um caso 
de histeria, que desde ento se tornou famoso.  verdade que Pierre Janet apresentou as mesmas provas, independentemente; com efeito, o pesquisador francs pode 
alegar prioridade de publicao, pois foi s uma dcada depois (em 1893 e 1895), quando estava colaborando comigo, que Breuer publicou suas observaes. Em todo 
caso, pode parecer questo de somenos importncia saber quem fez a descoberta, de vez que, como sabem, toda descoberta  feita mais de uma vez, e nenhuma se faz 
de uma s vez. Ademais disso, nem sempre o sucesso acompanha o mrito: no foi de Colombo que a Amrica recebeu seu nome. O grande psiquiatra Leuret opinou, antes 
de Breuer e Janete, que mesmo nas idias delirantes do insano se poderia encontrar um sentido, bastaria que compreendssemos a maneira de traduzi-las. Devo admitir 
que, durante longo tempo, estive disposto a dar bastante crdito a Janet por elucidar os sintomas neurticos, porque ele os considerava expresso de ides inconscientes 
que dominavam os pacientes. Depois disso, porm, ele se tem expressado com exagerada reserva, como se quisesse admitir que o inconsciente, para ele, no tivesse 
sido nada mais que uma frmula verbal, um expediente, une faon de parler - que ele, com isso, no quis significar nada de real.Desde ento, deixei de compreender 
os escritos de Janet; penso, no entanto, que ele, desnecessariamente, perdeu muito crdito.Os sintomas neurticos tm, portanto, um sentido, como as parapraxias 
e os sonhos, e, como estes, tm uma conexo com a vida de quem os produz.
         Por ora, gostaria de tornar esta importante descoberta mais compreensvel para os senhores, atravs de alguns exemplos. Realmente, posso apenas afirmar, 
no posso provar, que  assim, sempre, e em todos os casos. Todo aquele que procura por si mesmo essas experincias, encontrar provas convincentes. Por determinadas 
razes, contudo, escolherei estes exemplos a partir de casos, no de histeria, mas sim de uma outra neurose muito extraordinria, que  fundamentalmente muito semelhante 
quela e a cujo respeito tenho alguns comentrios preliminares a fazer:
         Essa neurose, conhecida como neurose obsessiva, no  to comum como a universalmente conhecida histeria. No , se assim posso expressar-me, to indiscretamente 
ruidosa; comporta-se mais como assunto particular do paciente, prescinde quase que completamente dos fenmenos somticos e cria todos os sintomas da esfera mental. 
A neurose obsessiva e a histeria so as formas de doenas neurticas em cujo estudo baseou-se inicialmente a psicanlise, e em cujo tratamento, tambm, nossa terapia 
realiza seus triunfos. Mas a neurose obsessiva, na qual o enigmtico salto do mental para o fsico no desempenha nenhum papel, se nos tornou, atravs dos esforos 
da psicanlise, realmente mais compreensvel e conhecida do que a histeria, e temos constatado que ela apresenta muito mais flagrantemente determinadas caractersticas 
extremas da natureza da neurose.
         A neurose obsessiva manifesta-se no fato de o paciente se ocupar de pensamentos em que realmente no est interessado, de estar cnscio de impulsos dentro 
de si mesmo que lhe parecem muito estranhos, e de ser compelido a aes cuja realizao no lhe d satisfao alguma, mas lhe  totalmente impossvel omitir. Os 
pensamentos (obsesses) podem ser, em si, carentes de significao, ou simplesmente assunto sem importncia para o paciente; freqentemente, so de todo absurdos 
e, invariavelmente, constituem o ponto de partida de intensa atividade mental que exaure o paciente e  qual ele somente se entrega muito contra sua vontade. Obriga-se, 
contra sua vontade, a remoer pensamentos e a especular, como se se tratasse dos seus mais importantes problemas vitais. Os impulsos, dos quais o paciente se apercebe 
em si prprio, tambm podem causar uma impresso de puerilidade e falta de sentido; via de regra, porm, tm um contedo da mais assustadora categoria, tentando-o, 
por exemplo, a cometer graves crimes, de modo que no s os rechaa como alheios a si, mas deles foge com horror e se resguarda de execut-los recorrendo a proibies, 
renncias e restries em sua liberdade. Ao mesmo tempo, esses impulsos nunca - literalmente nunca - foram seu caminho no rumo da realizao; o resultado  que 
sempre obtm vitria a fuga e as precaues. Aquilo que o paciente realmente efetua - os denominados atos obsessivos - so coisas muito inofensivas e certamente 
banais, na sua maior parte repetio ou elaboraes rituais das atividades da vida corrente. Essas atividades obrigatrias (tais como ir deitar, lavar-se, vestir-se 
ou andar a p) se tornam, contudo, tarefas extremamente fatigantes e quase insolveis. Nos diferentes casos e formas de neurose obsessiva, as idias, os impulsos 
e as aes patolgicas no se combinam em propores iguais; via de regra, um ou outro desses fatores domina o quadro e d seu nome  doena, mas o elemento comum 
em todas essas formas  suficientemente inconfundvel.
         Certamente, esta  uma doena louca. A imaginao psiquitrica mais extravagante no teria conseguido, segundo penso, construir nada semelhante; e s mesmo 
vendo-a diante de si a cada dia,  que se  levado a acreditar nela. No entanto, no suponham que ajudaro o paciente, nem de longe, admoestando-o para que adote 
uma nova conduta, deixe de ocupar-se com esses pensamentos absurdos e faa algo sensato em lugar de suas extravagncias infantis. Ele prprio gostaria de faz-lo, 
pois est perfeitamente lcido, compartilha da opinio dos senhores acerca de seus sintomas neurticos, e at mesmo expressa-a espontaneamente aos senhores. S que 
ele prprio no consegue ajudar-se a si mesmo. O que  posto em ao, em uma neurose obsessiva,  sustentado por uma energia com a qual provavelmente no encontramos 
nada comparvel na vida mental normal. Existe uma coisa apenas, que ele pode fazer: realizar deslocamentos, trocas, pode substituir uma idia absurda por outra um 
pouco mais atenuada, em vez de um cerimonial pode realizar um outro. Pode deslocar a obsesso, mas no remov-la. A possibilidade de deslocar qualquer sintoma para 
algo muito distante de sua conformao original  uma das principais caractersticas desta doena. Ademais, surpreende que, nesta condio, as contradies (polaridades), 
com as quais a vida mental est entretecida [ver em [1], adiante], emergem de maneira especialmente ntida, diferenciada. Alm das obsesses, de contedo positivo 
e negativo, a dvida se faz notar na rea intelectual, e lentamente comea a corroer at mesmo aquilo que geralmente  tido como muito certo. A situao inteira 
termina em um grau sempre crescente de indeciso, perda da energia e restrio da liberdade. Ao mesmo tempo, o neurtico obsessivo inicia seus empreendimentos com 
uma disposio de grande energia, freqentemente  muito voluntarioso e, via de regra, tem dotes intelectuais acima da mdia. Geralmente atingiu um nvel de desenvolvimento 
tico satisfatoriamente elevado; mostra-se superconsciencioso, e tem uma correo fora do comum em seu comportamento. Os senhores podem imaginar que no  pouco 
o trabalho que se requer para se poder penetrar, por pouco que seja, nessa miscelnea de traos de carter e de sintomas. E, de incio, no pretendemos nada mais 
do que compreender alguns desses sintomas e conseguir interpret-los.
         Talvez os senhores desejassem conhecer, antes disso, e tendo em mente nossos contatos anteriores, que atitude a psiquiatria contempornea adota em relao 
aos problemas da neurose obsessiva. Est a um captulo rido. A psiquiatria d nomes s diferentes obsesses, mas no diz nada mais acerca das mesmas. Por outro 
lado, insiste em que so 'degenerados' aqueles que sofrem desses sintomas. Isto proporciona pouca satisfao; de fato,  um julgamento de valores - uma condenao, 
em vez de uma explicao. Supe-se acharmos que todas a possveis espcies de excentricidade conseguem ocorrer em degenerados. Pois bem,  verdade que devemos considerar 
aqueles que desenvolvem tais sintomas como sendo algo diferentes, em sua natureza, de outras pessoas. Podemos, no entanto, perguntar: So eles mais 'degenerados' 
do que outros neurticos - do que os pacientes histricos, por exemplo, ou aqueles que adoecem de uma psicose? Tambm aqui, a caracterizao , evidentemente, muito 
genrica. Com efeito, cabe-nos a dvida quanto a saber se existe absolutamente qualquer justificativa para essa generalizao, quando sabemos que esses sintomas 
ocorrem tambm em pessoas, renomadas, de capacidade especialmente elevada, de capacidade importante para o mundo em geral.  verdade que, graas  sua prpria discrio 
e s falsificaes de seus bigrafos, pouco sabemos dos aspectos ntimos dos grandes homens que so nossos modelos; no obstante, tambm sucede um deles, como mile 
Zola, poder ser um fantico da verdade, e, assim, ficamos conhecendo seus muitos e estranhos hbitos obsessivos, dos quais foi vtima a vida inteira.A psiquiatria 
inventou uma maneira de falar em 'dgnrs suprieurs'. Muito bonito. Mas, na psicanlise, constatamos que  possvel eliminar permanentemente esses estranhos sintomas 
obsessivos, assim como outras queixas, e, tambm, em pessoas no degeneradas. Eu prprio logrei repetidos xitos neste ponto.Apresentar-lhes-ei apenas dois exemplos 
da anlise de um sintoma obsessivo: um deles, uma antiga observao, e no posso encontrar outra melhor que a substitua, e um outro exemplo, encontrei-o recentemente. 
Limito-me a este pequeno nmero, de vez que  impossvel, nestes relatos, evitar ser muito dispersivo e entrar em todos os detalhes.
         Uma senhora, com cerca de trinta anos de idade, que sofria das mais graves manifestaes obsessivas, e que eu talvez pudesse ter ajudado, se uma eventualidade 
desfavorvel no tivesse transformado em nada o meu trabalho - posso ser capaz de contar-lhes mais a respeito disso, futuramente - executava, entre outros, os seguintes 
e notveis atos obsessivos, muitas vezes por dia. Ela corria desde seu quarto at um outro quarto contguo, assumia determinada posio ali, ao lado de uma mesa 
colocada no meio do aposento, soava a campainha chamando a empregada, dava-lhe algum recado ou dispensava-a sem maiores explicaes, e, depois, corria de volta para 
seu quarto. Este no era certamente um sintoma muito desagradvel, mas assim mesmo, no podia deixar de causar curiosidade. A explicao foi obtida da maneira mais 
inequvoca e irrefutvel, isenta de qualquer contribuio por parte do mdico. No consigo ver como eu poderia, talvez, ter formado alguma idia do sentido desse 
ato obsessivo, ou dado qualquer sugesto acerca do modo como devia ser interpretado. Sempre que eu perguntava  paciente "Por que faz isto? qual o sentido disto?' 
ela respondia: 'No sei.' Um dia, porm, aps eu haver conseguido invalidar uma de suas dvidas, uma dvida importante, fundamental, ela subitamente soube a resposta, 
e contou-me o que  que estava em conexo com o ato obsessivo. Mais de dez anos antes, casara-se com um homem de muito mais idade do que ela, e, na noite de npcias, 
ele ficou impotente. Amide, durante a noite, ele viera correndo de seu quarto para o dela, a fim de tentar mais uma vez, porm sempre sem xito. Na manh seguinte, 
ele disse com tristeza: 'Eu devia sentir-me envergonhado perante a empregada, quando ela arrumar a cama', pegou de uma garrafa de tinta vermelha que casualmente 
havia no quarto e derramou seu contedo sobre o lenol, mas no no exato lugar em que uma mancha viria a calhar. Num primeiro momento, no pude atinar com a relao 
entre esta lembrana e o ato obsessivo em exame; a nica semelhana que pude encontrar foi no ato de correr de um quarto para o outro e, talvez, na vinda da empregada. 
Minha paciente ento levou-me at a mesa, no segundo quarto, e mostrou-me uma grande mancha na toalha. Depois, explicou que assumia sua posio em relao  mesa 
de maneira tal que a empregada, ao ser dispensada de sua presena, no podia deixar de ver a mancha. J no podia mais haver qualquer dvida sobre a ntima conexo 
entre a cena de sua noite de npcias e o ato obsessivo atual, embora ficassem por ser esclarecidas muitas outras coisas.
         Estava claro, em primeiro lugar, que a paciente se identificava com seu marido; ela estava executando o papel dele, imitando sua corridas de um quarto a 
outro. Alm disso, prosseguindo com a analogia, devemos concordar em que a cama e o lenol foram substitudos pela mesa e pela toalha. Isto poderia parecer casual, 
mas por certo no foi sem finalidade que estudamos o simbolismo onrico. Tambm nos sonhos, freqentemente encontramos uma mesa que deve ser interpretada como uma 
cama. Mesa e cama, juntas, representam o casamento, e, assim, uma pode facilmente tomar o lugar da outra.Parece j estar provado que o ato obsessivo tinha um sentido; 
parece ter sido uma representao, uma repetio daquela cena importante. Mas no devemos parar aqui. Se examinarmos a relao entre as duas cenas mais detidamente, 
provavelmente obteremos informaes acerca de algo que vai alm - acerca da inteno do ato obsessivo. Sua essncia consistia, obviamente, em chamar a empregada, 
e,  vista desta, mostrar a mancha, em contraste com o comentrio do marido, de que se sentiria envergonhado perante a empregada. Assim sendo, ele, cujo papel ela 
estava desempenhando, no se sentia envergonhado perante a empregada; portanto, a mancha estava no lugar certo. Vemos, portanto, que ela no estava simplesmente 
repetindo a cena, ela estava continuando e, ao mesmo tempo corrigindo-a; ela estava consertando-a. No entanto, com isso, ela tambm estava corrigindo uma outra coisa, 
que fora to desagradvel, aquela noite, e que tornou necessrio o expediente com a tinta vermelha - a impotncia dele. De modo que o ato obsessivo estava dizendo: 
'No, no  verdade. Ele no tinha por que sentir-se envergonhado perante a empregada; ele no ficou impotente.' Representava este desejo,  maneira de um sonho, 
como sendo satisfeito numa ao da poca atual; servia ao propsito de fazer seu marido superar a desventura passada.Tudo quanto eu poderia lhes dizer a respeito 
dessa mulher ajusta-se ao fato. Ou, mais corretamente falando, tudo o mais que sabemos a respeito do caso abre o caminho, mediante esta interpretao ininteligvel. 
A mulher estivera separada de seu marido, durante anos, e estava debatendo-se com a inteno de obter divrcio legal. Contudo, no havia como livrar-se dele; ela 
era forada a permanecer fiel a ele; retirou-se do mundo para no ser tentada; em sua imaginao, desculpava-o e engrandecia as qualidades dele. Na verdade, o mais 
profundo segredo de sua doena consistia em que, atravs desta doena, protegia seu marido de comentrios maldosos, justificava-se por estar separada dele e possibilitava-lhe 
levar uma vida separada cmoda. Assim, a anlise de um ato obsessivo incuo conduziu ao mais ntimo mago de uma doena; mas, ao mesmo tempo, revelou-nos uma parte 
no pequena do segredo da neurose obsessiva em geral. Estou satisfeito por faz-los deterem-se um pouco neste exemplo, porque rene condies que no se poderia 
esperar encontrar facilmente em todos os casos. Aqui, a interpretao do sintoma foi descoberta pela prpria paciente, de um s golpe, sem qualquer influncia ou 
interveno por parte do analista; e resultou de uma conexo com um acontecimento que (como geralmente  o caso) no pertencia a um perodo esquecido da infncia, 
mas que ocorre na vida adulta da paciente e permaneceu vivo em sua memria. Todas as objees que a crtica normalmente costumava levantar contra nossa interpretao 
dos sintomas, caem por terra, neste caso particular. No podemos esperar ter sempre tanta sorte.E mais uma coisa. Os senhores no ficaram surpresos pela forma como 
o discreto ato obsessivo nos conduziu at a intimidade da paciente? Uma mulher no pode ter nada mais ntimo para contar do que a histria de sua noite de npcias. 
Foi por acaso e sem maior significao que chegamos justamente  intimidade da vida sexual? Sem dvida, poderia ser o resultado da escolha que fiz, nessa ocasio. 
No sejamos apressados demais em formar nosso julgamento, e passemos ao meu segundo exemplo, que  de tipo bem diferente - uma amostra de uma espcie muito comum, 
um ritual de dormir.Uma jovem de dezenove anos de idade, bem desenvolvida e bem dotada, era filha nica de pais que superava em instruo e vivacidade intelectual. 
Em criana, havia sido alegre e decidida, e no decorrer dos ltimos anos, havia se transformado, sem qualquer causa visvel, em neurtica. Era muito irritvel, especialmente 
para com a me, sempre insatisfeita e deprimida, com tendncia  indeciso e  dvida; finalmente, verificou que no conseguia mais caminhar livremente por graas 
ou ruas relativamente largas. No nos ocuparemos muito de sua complexa doena, que se enquadrava em pelo menos dois diagnsticos: agorafobia e neurose obsessiva; 
deter-nos-emos apenas no fato de que ela tambm desenvolveu um ritual de dormir, com o qual atormentava seus pais. Em certo sentido, pode-se dizer que toda pessoa 
normal tem seu ritual de dormir, ou que estabeleceu determinadas condies necessrias, cujo no-preenchimento interfere com o adormecer; toda pessoa se impe determinadas 
formalidades na transio do estado de viglia ao de sono, e repete-as da mesma maneira, todas as noites. Tudo aquilo que uma pessoa sadia exige como condio necessria 
para dormir, pode, contudo, ser compreendido racionalmente e, no caso de circunstncias externas exigirem uma mudana, a pessoa cede com facilidade, sem perda de 
tempo. Um ritual patolgico, porm,  inflexvel, e insiste em ser levado a cabo, mesmo  custa de grandes sacrifcios; tambm se oculta atrs de uma fundamentao 
racional e, a um exame superficial, parece divergir do normal apenas por uma exagerada meticulosidade. Entretanto, a um exame mais acurado, podemos ver que o disfarce 
 insuficiente, que o ritual compreende certas especificaes que avanam muito alm de sua base racional, e outras, que positivamente a contradizem. Essa paciente, 
de que estamos falando, alegou, como pretexto de suas precaues noturnas, que necessitava de silncio para dormir e devia abolir qualquer fonte de rudo. Com este 
fim em vista, fazia dois tipos de coisas. Parava o grande relgio em seu quarto, todos os outros relgios eram removidos do quarto e sequer permitia que seu minsculo 
relgio de pulso ficasse dentro de sua mesinha-de-cabeceira. Vasos de flores e outros vasos eram agrupados na escrivaninha de modo que no pudessem cair e quebrar-se 
durante a noite e perturbar-lhe o sono. Ela se apercebia de que estas medidas s podiam encontrar uma justificativa ostensiva na observncia da regra do silncio; 
o tique-taque de seu pequenino relgio de pulso no poderia ter sido audvel, ainda que fosse deixado na mesa-de-cabeceira, e todos temos experincia do fato de 
que o tique-taque regular de um relgio de pndulo nunca perturba o sono, mas age, isto sim como soporfero. Admitiu tambm que seu medo de que os vasos de flores 
e outros vasos, se deixados em seu lugares, pudessem cair e quebrar-se por si mesmos, carecia de qualquer fundamento. No caso de outras especificaes feitas pelo 
ritual, abandonava-se o pretexto da necessidade de haver silncio. Na verdade, a exigncia de que a porta entre seu quarto e o quarto dos pais devesse permanecer 
entreaberta - exigncia que ela satisfazia colocando diversos objetos no vo da porta - parecia, pelo contrrio, agir como fonte de rudos perturbadores. as especificaes 
mais importantes referiam-se, todavia,  cama propriamente dita. O travesseiro, na parte superior da cama, no devia tocar o encosto de madeira da cabeceira. O travesseiro 
pequeno devia repousar sobre o travesseiro grande, somente numa posio especfica - ou seja, de modo a configurar a forma de um diamante. A cabea devia repousar, 
ento, exatamente no sentido do dimetro maior do diamante. O edredom (ou 'Duchent', como o chamamos na ustria) tinha de ser, antes de colocado sobre a cama, sacudido 
de tal maneira, que a parte inferior ficasse muito volumosa; depois, no entanto, ela jamais deixava de aplainar esse acmulo de penas, comprimindo-o para os lados.Com 
a permisso dos senhores, desprezarei os demais detalhes, muito banais, do ritual; no nos ensinariam nada de novo e nos levariam para bem longe de nossos objetivos. 
Os senhores no devem, contudo, negligenciar o fato de que tudo isso no se fazia sem dificuldades. Havia sempre apreenso de que as coisas no tivessem sido feitas 
corretamente. Tudo tinha de ser verificado e repetido, dvidas assaltavam ora uma, outra outra das medidas de segurana, e o resultado era que se gastavam nisso 
duas ou trs horas, durante as quais a jovem no podia dormir, e tambm no haveria de permitir que dormissem os seus atemorizados pais.A anlise destes tormentos 
no se faz to simplesmente assim, como a anlise do ato obsessivo de nossa paciente anterior. Fui obrigado a apresentar  jovem paciente determinadas aluses e 
propor interpretaes, as quais sempre eram rejeitadas com um decidido 'no' ou aceitas com dvidas desdenhosas. Passada essa primeira reao ou rejeio, seguiu-se, 
porm, uma poca durante a qual ela se ocupava com as possibilidades que se lhe apresentavam, juntava associaes s mesmas, referia recordaes e estabelecia conexes, 
at que, por seu prprio esforo, passou a aceitar todas as interpretaes.  medida que isso aconteceu, ela abrandou a execuo de suas medidas obsessivas, e, antes 
mesmo do fim do tratamento, havia abandonado por completo o ritual. Os senhores devem entender tambm que o trabalho analtico, tal como o efetuamos hoje em dia, 
praticamente exclui o tratamento sistemtico de qualquer sintoma isolado at ser inteiramente elucidado. Pelo contrrio, vemo-nos obrigados a abandonar repetidamente 
um determinado tema, na expectativa certa de retornar a ele novamente, em outros contextos. A interpretao de seus sintomas, que estou por mostrar-lhes, , em consonncia 
com isto, uma sntese de achados que foram surgindo, interrompidos por outro trabalho, durante um perodo de semanas e meses.Nossa paciente gradualmente veio a constatar 
que era devido  sua qualidade de smbolos dos genitais femininos que os relgios eram retirados do meio de seus objetos de uso  noite. Os relgios - embora em 
outra parte tenhamos encontrado outras interpretaes simblicas para os mesmos - assumiram a significao genital devido  sua relao com processos peridicos 
e intervalos de tempo iguais. Uma mulher pode gabar-se de que sua menstruao funciona com a regularidade de um relgio. A ansiedade de nossa paciente, porm, estava 
voltada em especial contra a possibilidade de ela ter o seu sono perturbado pelo tique-taque de um relgio. O tique-taque do relgio pode ser comparado com a pulsao 
ou latejamento do clitris durante a excitao sexual. Realmente ela havia, repetidas vezes, acordado durante a noite com essa sensao, que agora se lhe tinha tornado 
desagradvel; e expressou esse medo de uma ereo atravs da regra de que todos os relgios em funcionamento deviam ser removidos de perto de si, durante a noite. 
Vasos de flores, assim como todos os vasos [ver em [1]], tambm so smbolos sexuais. Tomar precaues para que no cassem e no se quebrassem durante a noite, 
portanto, no deixava de ter seu correto sentido. Conhecemos o costume to difundido de quebrar um vaso ou um prato nas cerimnias dos esponsais. Cada um dos homens 
presentes apanha um dos fragmentos, e podemos considerar isto como sendo um sinal de sua renncia  pretenso que tinha em relao  noiva, em virtude de uma lei 
nupcial que remonta a uma poca anterior ao estabelecimento da monogamia. Com relao a esta parte de seu ritual, a jovem referiu uma lembrana e diversas associaes. 
Certa vez, quando era criana, sofreu uma queda no momento em que tinha nas mos um vaso de vidro ou porcelana, resultando-lhe um corte em um dedo e sangramento 
profuso. Quando cresceu e tomou conhecimento dos fatos referentes ao ato sexual, desenvolveu uma angustiante idia de que, na sua noite de npcias, ela no iria 
ter perda de sangue, e assim deixaria de mostrar que era virgem. Suas precaues com a possibilidade de os vasos se quebrarem significavam, pois, um repdio a todo 
o complexo referente  virgindade e ao sangramento no primeiro coito - igualmente um repdio ao medo de sangrar e, ao contrrio, medo de no  
         sangrar. Estas precaues, que ela subordinava  evitao do rudo, tinham apenas remota conexo com tal complexo.Ela atinou, um dia, com a significao 
central de seu ritual, quando, subitamente, compreendeu a significao da regra segundo a qual o travesseiro no devia tocar no encosto da cabeceira da cama. O travesseiro, 
disse, sempre havia sido, para ela, uma mulher, e o encosto de madeira, ereto, um homem. Assim, desejava - por meios mgicos, podemos acrescentar - manter homem 
e mulher separados - isto , separar seus pais um do outro, no lhes permitindo terem relao sexual. Anos antes, em poca anterior ao estabelecimento do ritual, 
havia procurado atingir o mesmo objetivo, de maneira mais direta. Havia simulado medo (ou explorara uma tendncia ao medo que j se encontrava presente), a fim de 
que as portas comunicantes entre o quarto dos pais e seu quarto de criana no ficassem fechadas. Esta regra, com efeito, tinha sido mantida em seu ritual atual. 
Dessa forma, deu-se a si mesma a oportunidade de ficar escutando seus pais; entretanto, ao utiliz-la, desenvolveu um insnia que durou meses. No satisfeita com 
perturbar os pais por este meio, conseguiu que lhe permitissem dormir, de tempos em tempos na cama dos pais, entre eles. O travesseiro e o encosto de madeira, assim, 
no conseguiram aproximar-se. Por fim, quando j era to grande que se tornou fisicamente desconfortvel para ela encontrar lugar, na cama, entre seus pais, conseguiu, 
por uma consciente simulao de ansiedade, combinar com sua me uma troca de lugares com esta,  noite; a me, ento, cedia-lhe o lugar, de modo que a paciente conseguia 
dormir ao lado do pai. Sem dvida, essa situao transformou-se no ponto de partida de fantasias, cujo efeito secundrio se podia constatar no ritual.Se um travesseiro 
era uma mulher, ento o sacudir o edredom at todas as penas se localizarem na parte inferior e causarem um abaulamento, tambm tinha um sentido. Significava um 
mulher ficar grvida; ela, contudo, nunca deixava de desfazer novamente essa gravidez, pois durante anos temera que o coito de seus pais resultasse em mais um filho 
e, desta forma, presenteassem-na com um rival. Por outro lado, se o travesseiro grande era uma mulher, a me, o travesseiro menor somente podia representar a filha. 
Por que este travesseiro tinha de ser colocado na forma de um diamante e a cabea situar-se justamente ao longo da linha central? Foi fcil recordar-lhe que essa 
forma de diamante  a figura desenhada em todos os muros para representar os genitais femininos abertos. Sendo assim, ela prpria estava representando o homem e 
substituindo o rgo masculino por sua cabea. (Cf. o simbolismo da decapitao como smbolo de castrao.)
         Pensamentos muito dissolutos, diro os senhores, para estarem passando na cabea de uma jovem solteira. Admito que sim. Mas, no devem esquecer-se de que 
no criei essas coisas, apenas interpretei-as. Um ritual de dormir igual a esse tambm  algo estranho, e os senhores no deixaro de constatar como o ritual corresponde 
s fantasias reveladas pela interpretao. Atribuo, todavia, maior importncia ao fato de notarem que, no ritual, o que se verificou no foi o resultado de uma nica 
fantasia, mas de diversas, embora tivessem um ponto nodal em alguma parte, e, ademais, que as regras estabelecidas pelo ritual reproduziam os desejos sexuais da 
paciente, num ponto positivamente, e noutro, negativamente - em parte representavam esses desejos e em parte derivam de defesa contra os mesmos.Poder-se-ia tambm 
obter mais alguma coisa da anlise desse ritual, se este pudesse ser adequadamente vinculado aos demais sintomas da presente. Nossa investigao, contudo, no segue 
esta direo. Os senhores devem contentar-se com um indcio de que a jovem estava dominada por uma ligao ertica com seu pai, ligao cujos comeos remontavam 
 sua infncia. Talvez fosse por isso que ela se portava de forma to inamistosa com sua me [ver em [1]]. E no podemos deixar de atentar para o fato de que a anlise 
deste sintoma nos levou de volta, mais uma vez,  vida sexual de uma paciente. Talvez nos surpreendssemos menos com isso,  medida que mais freqentemente compreendemos 
o sentido e a inteno dos sintomas neurticos.Mostrei-lhes, portanto, como base em dois exemplos escolhidos, que os sintomas neurticos, como as parapraxias e os 
sonhos, possuem um sentido e tm ntima conexo com as experincias do paciente. Posso esperar que acreditaro nesta tese extremamente importante, com as provas 
do dois exemplos? No. Entretanto, podem os senhores exigir que eu continue a dar-lhes outros exemplos, at que se declarem satisfeitos? Novamente, no. Pois, tendo 
em vista a maneira detalhada como abordo cada caso isoladamente, teria de dedicar um ciclo de conferncia de cinco horas ao estabelecimento de apenas este ponto 
da teoria das neuroses. Devo, assim, contentar-me com ter-lhes dado um prova experimental de minha assero e, quanto ao restante, remeto-os aos relatos que a bibliografia 
oferece sobre o assunto - s clssicas interpretaes de sintomas do primeiro caso (de histeria), de Breuer,  vvida luz lanada sobre os mais obscuros sintomas 
daquilo que se conhece como dementia praecox, por C. G. Jung [1907], numa poca em que ele era apenas psicanalista e ainda no aspirava a ser profeta; e a todos 
os trabalhos que desde ento tm enchido os nossos peridicos. No faltavam investigaes, justamente sobre esses assuntos. A anlise, interpretao e traduo de 
sintomas psiconeurticos provaram ser to atraentes para os psicanalistas, que estes, por um tempo, negligenciaram os demais problemas da neurose.Se algum dos senhores 
empreender exerccios desta natureza, certamente ter uma poderosa impresso da quantidade de provas documentais. Mas tambm se defrontar com uma dificuldade. O 
sentido de um sintoma, conforme verificamos, possui determinada conexo com a experincia do paciente. Quanto mais individual for a forma dos sintomas, mais motivos 
teremos para esperar que seremos capazes de estabelecer esta conexo. A tarefa, ento, consiste simplesmente em descobrir, com relao a uma idia sem sentido e 
uma ao despropositada, a situao passada em que a idia se justificou e a ao serviu a um propsito. O ato obsessivo de nossa paciente, que corria para a mesa 
e tocava a campainha para chamar a empregada,  um modelo perfeito dessa espcie de sintomas. Existem, contudo - e so muito freqentes - sintomas de tipo bem diferente. 
Devem ser descritos como sintomas 'tpicos' de uma doena; so quase os mesmos em todos os casos, as distines individuais neles desaparecem, ou pelo menos diminuem, 
de tal forma, que  difcil p-los em conexo com a experincia individual dos pacientes e relacion-los a situaes particulares que vivenciaram. Voltemo-nos, mais 
uma vez, para a neurose obsessiva. O ritual de dormir de nossa segunda paciente j tem, neste consenso, muitos aspectos tpicos, embora, ao mesmo tempo, tenha muitos 
traos individuais, de forma a tornar possvel aquilo que denomino interpretao 'histrica'. Mas todos esses pacientes obsessivos tm uma tendncia a repetir, a 
executar seus atos ritmicamente e a mant-los isolados de outros atos. A maioria deles lava-se em demasia. Pacientes que sofrem de agorafobia (topofobia ou medo 
de espaos), que no consideramos mais como neurose obsessiva, mas descrevemos como 'histeria de angstia', freqentemente repetem os mesmos aspectos, em seus sintomas, 
com enfadonha monotonia: tm medo de espaos fechados, de amplas praas descampadas, de estradas e ruas longas. Sentem-se protegidos quando acompanhados de um conhecido 
ou seguidos por um veculo, e assim por diante. Com um background semelhante, diferentes pacientes, no obstante, exibem suas exigncias individuais - manhas, como 
se costuma dizer - que, em alguns casos, se contradizem abertamente umas s outras. Um paciente evita apenas ruas estreitas, e um outro, somente ruas largas; um 
consegue sair somente se houver poucas pessoas na rua, ao passo que um outro apenas sai se existem muitas. Da mesma forma, a histeria, apesar da quantidade de traos 
individuais, possui em exagero sintomas comuns, tpicos, que parecem opor-se a qualquer derivao histrica fcil. E no devemos esquecer que so estes sintomas 
tpicos, na verdade, que nos do a orientao com que fazemos nosso diagnstico. Suponhamos que, num caso de histeria, tenhamos realmente constatado um sintoma tpico 
remontar a uma experincia ou a uma seqncia de experincias semelhantes - um caso de vmito histrico, por exemplo, relativo a uma srie de recordaes desagradveis 
-; ento ficamos na incerteza quando a anlise de um caso semelhante de vmitos revela uma srie de experincias obviamente verdadeiras, de natureza muito diferente. 
parece, pois, como se, por motivos desconhecidos, os pacientes histricos no pudessem deixar de ter os vmitos, e como se as causas histricas precipitantes reveladas 
pela anlise fossem apenas pretextos que, no caso de se comprovarem, so explorados por essa necessidade interna.
         Assim sendo, defrontamo-nos agora com a desanimadora descoberta de que, embora tenhamos a capacidade de fornecer uma explicao satisfatria dos sintomas 
neurticos individuais, mediante sua conexo com as vivncias, essa nossa capacidade deixa-nos na incerteza quando chegamos aos sintomas tpicos, muito mais freqentes. 
Ademais disso, estou longe de ter-lhes apontado todas as dificuldades que surgem ao intentarmos a srio efetuar a interpretao histrica dos sintomas. E nem pretendo 
faz-lo; pois, embora seja minha inteno no lhes explicar todas as coisas segundo uma perspectiva favorvel, ou ocult-las, no posso atir-los na perplexidade 
e na confuso justamente no incio de nossos estudos em conjunto.  verdade que apenas estamos no incio de nossos esforos de compreender a significao dos sintomas; 
ater-nos-emos, porm, quilo que conseguimos e seguiremos nosso caminho, passo a passo, at obtermos o domnio daquilo que ainda no compreendemos. Portanto, tentarei 
consol-los com o pensamento de que mal se pode pensar que haja qualquer distino fundamental entre um tipo de sintoma e outro. Se os sintomas, isoladamente, so 
to inequivocamente dependentes das experincias pessoais do paciente, resta a possibilidade de os sintomas psquicos remontarem a uma experincia que  tpica em 
si mesma - comum a todos os seres humanos. Outros aspectos ocorrentes com regularidade nas neuroses podem constituir relaes gerais impostas aos pacientes pela 
natureza de sua modificao patolgica, como as repeties ou as dvidas na neurose obsessiva. Em resumo, no temos motivos para um desespero prematuro; veremos 
o que resta por ser visto.Uma dificuldade semelhante se ergue diante de ns na teoria dos sonhos. No pude abord-la antes, quando discorremos a respeito de sonhos. 
O contedo manifesto dos sonhos possui a maior diversidade e variedade individual, e mostramos detalhadamente o que  que derivamos deste contedo, por meio de uma 
anlise. Alm destes, h, contudo, sonhos que igualmente merecem ser chamados de 'tpicos', que acontecem em todas as pessoas, da mesma forma; sonhos de contedo 
uniforme, que oferecem as mesmas dificuldades  interpretao. So sonhos com cair, voar, flutuar, nadar, envergonhar-se, estar nu, e alguns outros sonhos de ansiedade 
- que conduzem, em pessoas diferentes, ora a esta, ora quela interpretao, sem que se possa elucidar sua uniformidade e ocorrncia caractersticas. Mas tambm 
nesses sonhos observamos ser este substrato comum enriquecido por acrscimos que variam de indivduo para indivduo; e  provvel que, com a ampliao de nossos 
conhecimentos, se torne possvel, sem empecilhos, incluir tambm esses sonhos na compreenso da vida onrica, que adquirimos de outros sonhos.
         
         CONFERNCIA XVIII
         FIXAO EM TRAUMAS - O INCONSCIENTE
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Em minha conferncia anterior, expressei o desejo de que nosso trabalho pudesse prosseguir com base no em nossas dvidas, mas sim em nossas descobertas. 
No expusemos ainda nada sobre duas das mais interessantes implicaes decorrentes de nossas duas amostras de anlise.
         Comecemos pela primeira. Ambas as pacientes do-nos a impresso de se terem 'fixado' em uma determinada parte de seu passado, como se no conseguissem libertar-se 
dela, e estivessem, por essa razo, alienadas do presente e do futuro. Assim, elas permaneceram enclausuradas em sua doena, da mesma forma como, em pocas anteriores, 
as pessoas se retiravam para dento de um mosteiro, a fim de ali suportarem a carga de suas vidas desditosas. O que havia lanado esse destino sobre nossa primeira 
paciente era o casamento que ela, na vida real, havia abandonado. Por meio de seus sintomas, continuava a manter seu relacionamento com o marido. Pudemos compreender 
seus anseios que imploravam por ele, que o desculpavam, que o colocavam num pedestal e que lamentavam a perda dele. Embora fosse jovem e desejvel para outro homens, 
havia tomado todas as precaues, reais e imaginrias (mgicas), para permanecer fiel a ele. No se mostrava a estranhos e negligenciava sua aparncia pessoal; ademais, 
sempre que se sentava numa cadeira, era incapaz de levantar-se rapidamente, recusava-se a assinar o nome e no podia dar nenhum presente, com fundamento na suposio 
de que dela ningum devia receber nada.O mesmo efeito se produzia na vida de nossa segunda paciente, a jovem, por meio de uma ligao ertica com seu pai iniciada 
nos anos anteriores  puberdade. A concluso que ela mesma tirou foi no poder casar-se enquanto estivesse to doente. Entretanto, suspeitamos que ficara assim to 
doente para no ter de casar e para permanecer com o pai.No podemos desprezar a questo de saber por que, de que forma e por qual motivo uma pessoa pode chegar 
a uma atitude assim to estranha perante a vida, uma atitude to pouco prtica - supondo-se que esta atitude seja uma caracterstica geral das neuroses, e no uma 
peculiaridade especial dessas duas pacientes. E, de fato,  um aspecto geral, de grande importncia prtica em toda neurose. A primeira paciente histrica de Breuer 
[ver em [1], anterior], estava, de modo semelhante, fixada no perodo em que cuidava de seu pai gravemente doente. Apesar da recuperao, essa paciente, em certo 
aspecto, permaneceu desligada da vida; permaneceu sadia e eficiente, porm evitou o curso normal da vida de uma mulher. Em cada uma de nossas pacientes, a anlise 
nos mostra que elas foram conduzidas de volta a um determinado perodo de seu passado, atravs dos sintomas de sua doena, ou pelas conseqncias desses sintomas. 
Na maior parte dos casos, com efeito, escolheu-se, para este fim, uma fase muito precoce da vida - um perodo de sua infncia ou, at mesmo, por mais que isto parea 
risvel, um perodo de sua existncia como criana de peito.A mais ntima analogia com essa conduta de nossos neurticos apresenta-se nas doenas que se esto produzindo 
com especial freqncia precisamente na poca atual, por intermdio da guerra - o que se descreve como neuroses traumticas. Naturalmente, casos semelhantes aparecem 
tambm antes da guerra, aps colises de trens e outros acidentes alarmantes envolvendo riscos fatais. As neuroses traumticas no so, em sua essncia, a mesma 
coisa que as neuroses espontneas que estamos acostumados a investigar e tratar pela anlise; at agora, no conseguimos harmoniz-las com nossos pontos de vista, 
e espero, em algum poca, poder explicar-lhes a razo desta limitao. No entanto, num aspecto devemos insistir em que existe completo acordo entre elas. As neuroses 
traumticas do uma indicao precisa de que em sua raiz se situa uma fixao no momento do acidente traumtico. Esses pacientes repetem com regularidade a situao 
traumtica, em seus sonhos, onde correm ataques histeriformes que admitam uma anlise, verificamos que o ataque corresponde a uma completa transportao do paciente 
para a situao traumtica.  como se esses pacientes no tivessem findado com a situao traumtica, como se ainda tivessem enfrentando-a como tarefa imediata ainda 
no executada; e levamos muito a srio esta impresso. Mostra-nos o caminho daquilo que podemos denominar de aspecto econmico dos processos mentais. Realmente, 
o termo 'traumtico' no tem outro sentido seno o sentido econmico. Aplicando-o a uma experincia que, em curto perodo de tempo, aporta  mente um acrscimo de 
estmulo excessivamente poderoso para ser manejado ou elaborado de maneira normal, e isto s pode resultar em perturbaes permanentes da forma em que essa energia 
opera.Esta analogia nos compele a descrever como traumticas tambm aquelas experincias nas quais nossos pacientes neurticos parecem se haver fixado. Isto nos 
proporia uma causa nica para o incio da neurose. Assim, a neurose poderia equivaler a uma doena traumtica, e apareceria em virtude da incapacidade de lidar com 
uma experincia cujo tom afetivo fosse excessivamente intenso. Na verdade, foi esta realmente a primeira frmula pela qual (em 1893 e 1895) Breuer e eu explicamos 
teoricamente nossas observaes. Um caso como aquele da primeira de minhas duas pacientes, em minha conferncia anterior - a jovem mulher casada separada de seu 
marido - ajusta-se muito bem a esta opinio. Ela no tinha superado o fracasso de seu casamento e permanecia ligada ao trauma. Mas nosso segundo caso - o da jovem 
com uma fixao em seu pai - j nos mostra que a frmula no proporciona compreenso suficiente. Por um lado, uma menininha estar de tal forma apaixonada por seu 
pai  algo to comum e to freqentemente superado, que o termo 'traumtico', aplicado a este fato, perderia todo o seu significado; e, por outro lado, a histria 
da paciente demonstrou-nos que, numa primeira instncia, sua fixao ertica parecia haver-se dissipado sem causar qualquer dano, e foi somente alguns anos mais 
tarde que reapareceu nos sintomas da neurose obsessiva. Aqui, pois, antevemos complicaes, uma maior quantidade de causas para o comeo da doena; tambm podemos, 
contudo, suspeitar que no h por que abandonar a linha de abordagem traumtica como se fosse errnea; deve ser possvel faz-la adequar-se a isto e inclu-la em 
algum outro lugar.
         Aqui, pois, mais uma vez devemos interromper o trajeto que iniciamos. Por agora, no conduz a nada mais, e teremos de nos instruir com outras coisas, antes 
de podermos encontrar sua correta continuao. Quanto ao tema da fixao numa determinada fase do passado, podemos, porm, acrescentar que tal conduta  muito mais 
difundida do que a neurose. Toda neurose inclui uma fixao desse tipo, mas nem toda fixao conduz a uma neurose, coincide com uma neurose ou surge devido a uma 
neurose. Um perfeito modelo de fixao afetiva em algo que  passado,  o que se nos apresenta no luto, que realmente envolve a mais completa alienao do presente 
e do futuro. Mesmo o julgamento de um leigo, contudo, distinguir com nitidez entre luto e neurose. Existem, por outro lado, neuroses que podem ser descritas como 
forma patolgica de luto.Tambm pode acontecer que uma pessoa seja levada a uma parada to completa, devido a um acontecimento traumtico que estremece os alicerces 
de sua vida, a ponto de abandonar todo o interesse pelo presente e pelo futuro e manter-se permanentemente absorvida na concentrao mental no passado. Uma pessoa 
assim desafortunada, porm, no se torna, por isso, necessariamente neurtica. No atribuiremos, portanto, demasiado valor a este nico aspecto ao caracterizar a 
neurose, embora ele esteja regularmente presente e possa ser geralmente importante.Voltemo-nos agora para a segunda das descobertas que resultaram de nossas anlises; 
e neste caso no precisamos temer a necessidade de fazer uma subseqente limitao em nossos pontos de vista. Descrevi-lhes como nossa primeira paciente executava 
um ato obsessivo carente de sentido e como referiu uma recordao ntima de sua vida passada que tinha alguma conexo com ela: e como, a seguir, examinei a conexo 
entre esse ato e a lembrana, e descobri a inteno do ato obsessivo a partir de sua relao com a lembrana. Existe, porm, um fator que omiti completamente, embora 
merea nossa mais completa ateno. Por mais que a paciente repetisse seu ato obsessivo, no sabia que este derivava da experincia por que havia passado. A conexo 
entre o ato e a experincia estava oculta para ela; apenas podia, muito fielmente, responder que no conhecia aquilo que a fazia executar seu ato. Ento, subitamente, 
um dia, sob a influncia do tratamento, conseguiu descobrir a significao e a referiu a mim. No entanto, ela ainda nada sabia da inteno com que executava o ato 
obsessivo - a inteno de retificar uma parte desagradvel do passado e colocar seu adorado esposo em melhor situao. Levou um tempo consideravelmente longo e foi 
necessrio muito trabalho, antes que compreendesse e admitisse para mim que apenas tal motivo poderia ter sido a fora determinada de seu ato obsessivo.
         O elo entre a cena aps sua infeliz noite de npcias e o motivo afetuoso da paciente constituram, tomados em conjunto, o que temos chamado de 'sentido' 
do ato obsessivo. Mas, enquanto executava o ato obsessivo, este sentido lhe tinha sido desconhecido em ambas as direes - tanto o por qu como o para qu. [ver 
em [1] e [2], adiante.] Os processos mentais, portanto, tinham estado em operao dentro dela e o ato obsessivo era o efeito deles; ela se apercebia deste efeito 
num estado mental normal, porm nenhum dos predeterminantes deste efeito vieram ao conhecimento de sua conscincia. Conduzia-se exatamente da mesma forma que uma 
pessoa hipnotizada que houvesse recebido de Bernheim a ordem de abrir um guarda-chuva, na enfermaria do hospital, cinco minutos aps haver despertado. O homem executava 
esta ordem quando estava acordado, mas no podia referir o motivo de sua ao.  uma situao semelhante que temos diante de nossos olhos quando falamos na existncia 
de processos mentais inconscientes. Podemos desafiar a quem quer que seja, no mundo, que faa uma descrio cientfica mais correta desta situao e, se o fizer, 
de bom grado renunciaremos  nossa hiptese de processos mentais inconscientes. Enquanto tal no acontecer, porm, nos aferraremos  hiptese; e se algum levantar 
a objeo de que aqui o inconsciente no constitui nada de real, num sentido cientfico, que  um artifcio, une faon de parler, podemos apenas sacudir os ombros 
resignadamente, e no levar em conta o que diz, por ininteligvel. Algo no real, que produz efeitos de uma realidade to tangvel como um ato obsessivo!E encontramos 
na segunda paciente aquilo que, em essncia,  a mesma coisa. Ela estabelecera a regra de que o travesseiro no devia tocar o encosto da cabeceira da cama, e tinha 
de obedecer a essa regra, ainda que no soubesse de onde esta se originava, o que significava, ou a que motivos devia seu poder. A paciente considerar a regra como 
algo indiferente, ou lutar contra a mesma, ou irritar-se com ela, ou decidir transgredi-la - nada disso determinava qualquer modificao na sua execuo. Tinha de 
ser obedecida, e ela se perguntava em vo, por qu. Devemos reconhecer, entretanto, que esses sintomas de neurose obsessiva, essas idias e impulsos que emergem 
no se sabe de onde, que provam ser resistentes a toda influncia de uma mente sob outros aspectos normal, que do ao paciente a impresso de se tratar de convidados 
todo-poderosos de um outro mundo, seres imortais imiscuindo-se no turbilho da vida mortal - esses sintomas oferecem a mais clara indicao de que existe uma regio 
da mente, por completo isolada do resto. Conduzem, por uma via que no se pode perder, a uma convico da existncia do inconsciente na mente; e  precisamente por 
esta razo que a psiquiatria clnica, que est familiarizada apenas com uma psicologia da conscincia, no consegue abordar esses sintomas de nenhuma outra forma 
que no seja qualificando-os como sinais de um tipo especial de degenerao. Idias obsessivas e impulsos obsessivos naturalmente no so, em si mesmos, inconscientes, 
algo mais do que a realizao de atos obsessivos escapa  percepo consciente. No se teriam tornado sintomas, se no tivessem forado o caminho at  conscincia. 
Mas seus motivos predeterminantes, que inferimos por meio da anlise, as conexes em que os inserimos, pela interpretao, so inconscientes, pelo menos enquanto 
no os tivermos tornado conscientes para o paciente, atravs do trabalho da anlise.
         Ora, se os senhores considerarem mais atentamente que a situao que estabelecemos em nossos dois casos se confirma em relao a todos os sintomas de toda 
doena neurtica - que sempre e em toda parte o sentido dos sintomas  desconhecido para o paciente, e que a anlise regularmente demonstra que esses sintomas constituem 
derivados de processos inconscientes, contudo podendo, sujeitos a variadas circunstncias favorveis, fazer-se conscientes - se considerarem isto, os senhores compreendero 
que, na psicanlise, no podemos prescindir daquilo que , ao mesmo tempo, inconsciente e mental, e que estamos habituados a operar com esse algo, como se se tratasse 
de alguma coisa perceptvel pelos sentidos. Os senhores, porm, tambm entendero, talvez, quo incapazes de formar um julgamento desta questo so todas essas outras 
pessoas familiarizadas apenas com o inconsciente enquanto conceito, que jamais efetuaram uma anlise e jamais interpretaram sonhos, ou encontraram sentido e inteno 
nos sintomas neurticos. Vale anunciar, mais uma vez, para nossos fins: a possibilidade de conferir um sentido aos sintomas neurticos, mediante interpretao analtica, 
 uma prova inarredvel da existncia - ou, se preferem, da necessidade de manter a hiptese ... de processos mentais inconscientes.
         Isto no  tudo, porm. Graas a uma segunda descoberta de Breuer, que a mim parece mais significativa ainda do que a outra [ver em [1]], a que ele empreendeu 
sozinho, aprendemos ainda mais acerca da conexo entre os sintomas neurticos e o inconsciente. No apenas o sentido dos sintomas , com regularidade, inconsciente, 
mas tambm existe uma relao inseparvel entre este fato de os sintomas serem inconscientes e a possibilidade de eles existirem. Logo os senhores me compreendero. 
Estou de acordo com Breuer ao afirmar que sempre ao encontrarmos um sintoma, poderemos concluir existirem determinados processos mentais definidos, no paciente, 
os quais contm o sentido do sintoma. Mas, tambm  necessrio que este sentido seja inconsciente, para que o sintoma possa surgir. Jamais se constroem sintomas 
a partir de processos conscientes; to logo os processos inconscientes pertinentes se tenham tornado conscientes, o sintoma deve desaparecer. Aqui os senhores prontamente 
percebem um meio de se chegar  terapia, uma forma de fazer os sintomas desaparecerem. E, dessa maneira, Breuer realmente recuperou sua paciente histrica - isto 
, libertou-a de seus sintomas; encontrou uma tcnica de trazer  conscincia os processos mentais inconscientes que continham o sentido dos sintomas, e os sintomas 
desapareceram.
         Essa descoberta de Breuer no foi resultado de especulao, mas sim uma feliz observao que se tornou possvel pela cooperao da paciente. E nem devem 
os senhores atormentar-se com tentativas de compreender essa descoberta atribuindo-a a algo anteriormente conhecido; devem reconhecer nela um fato fundamental novo, 
com cujo auxlio muita coisa se tornar explicvel. Permitam-me, portanto, repetir-lhes a mesma coisa, de outro modo.A construo de um sintoma  o substituto de 
alguma outra coisa que no aconteceu. Determinados processos mentais normalmente deveriam ter evoludo at um ponto em que a conscincia recebesse informaes deles. 
Isto, porm, no se realizou, e, em seu lugar - a partir dos processos interrompidos, que de alguma forma foram perturbados e obrigados a permanecer inconscientes 
- o sintoma emergiu. Assim, passou-se algo semelhante a uma troca; se isso puder ser invertido, o tratamento dos sintomas neurticos ter atingido seus objetivos.A 
descoberta de Breuer ainda  o alicerce da terapia psicanaltica. A tese, segundo a qual os sintomas desaparecem quando se fazem conscientes seus motivos predeterminantes 
inconscientes, tem sido confirmada por todas as pesquisas subseqentes, embora nos defrontemos com as mais estranhas e inesperadas complicaes ao tentarmos p-la 
em prtica. Nossa terapia age transformando aquilo que  inconsciente em consciente, e age apenas na medida em que tem condies de efetuar essa transformao.Devo 
fazer agora, rapidamente, uma breve digresso, a fim de evitar o risco de os senhores imaginarem que este trabalho teraputico seja realizado com muita facilidade. 
Daquilo que lhes disse at aqui, uma neurose poderia resultar de uma espcie de ignorncia - um no-saber acerca de acontecimentos mentais de que se deveria saber. 
Isto seria uma aproximao mais efetiva a algumas conhecidas doutrinas socrticas, segundo as quais at mesmo os vcios se baseiam na ignorncia. Ora, via de regra 
seria muito fcil, para um mdico experiente em anlise, compreender que impulsos mentais tivessem permanecido inconscientes em determinado paciente. Ento no lhe 
seria muito difcil, tambm, recuperar o paciente, comunicado seu conhecimento a este e assim remediando a ignorncia de seu paciente. Pelo menos parte do sentido 
inconsciente do sintoma poderia ser abordada desta maneira, embora seja verdade que o mdico no pode adivinhar muito a respeito da outra parte - a conexo entre 
os sintomas e as experincias do paciente - de vez que o mdico desconhece essas experincias e deve esperar at que o paciente as recorde e narre. Mesmo para isso, 
contudo, pode-se, em alguns casos, encontrar um sucedneo. Pode-se indagar acerca dessas experincias junto aos parentes do paciente, e estes amides conseguiro 
reconhecer qual delas teve um efeito traumtico, podendo at mesmo, vez e outra, referir experincias de que o prprio paciente nada conhece, porque ocorreram em 
uma poca muito do incio de sua vida. Combinando, ento, estes dois mtodos, deveramos ganhar a perspectiva de aliviar o paciente de sua ignorncia patognica, 
com pouco dispndio de tempo e de trabalho.Oxal as coisas se passassem desta maneira! Chegaramos a descobertas, com relao a este tema, para as quais, de incio, 
estvamos despreparados. Saber nem sempre  a mesma coisa que saber: existem diferentes formas de saber, que esto longe de serem psicologicamente equivalentes. 
'Il y a fagots et fagots', como disse Molire. O conhecimento do mdico no  o mesmo que o do paciente, e no pode causar os mesmos efeitos. Se o mdico transferir 
seu conhecimento para o paciente, na forma de informao, no se produz nenhum resultado. No, seria incorreto dizer isso. No resulta em remoo do sintoma, mas 
tem um outro resultado - o de pr em movimento a anlise, do que um dos primeiros sinais, freqentemente, so as expresses de rechao. O paciente sabe, depois disso 
aquilo que antes no sabia - o sentido de seus sintomas; porm, sabe tanto quanto sabia. Com isso, aprendemos que existe mais de uma espcie de ignorncia. Necessitaremos 
ter uma compreenso mais profunda da psicologia, para que esta nos mostre em que consistem essas diferenas. Malgrado isso, continua, porm, verdadeira a nossa tese 
segundo a qual os sintomas desaparecem quando seu sentido se torna conhecido. Tudo quanto nos resta acrescentar  que o conhecimento deve basear-se numa modificao 
interna no paciente, e esta s pode efetuar-se atravs de uma parcela de trabalho psicolgico orientado para um objetivo determinado. Aqui deparamos com problemas 
que, presentemente, sero agrupados na dinmica da construo dos sintomas.Agora devo perguntar; senhores, se isto que estou dizendo no  demasiado obscuro e complicado. 
No estaria eu confundindo-os ao retomar, com tanta freqncia, coisas que j disse ou fazendo ressalvas s mesmas - ao iniciar seqncias de idias e depois abandon-las? 
Lamentaria se isto acontecesse. Porm, desagrada-me muito simplificar as coisas s custas da veridicidade. No tenho o que objetar contra o fato de os senhores receberem 
todo o impacto da multiplicidade e complexidade de nosso tema; e tambm penso que no lhes causo prejuzo se em cada ponto lhes transmito mais do que os senhores 
podem utilizar. Afinal, estou consciente de que todo ouvinte ou leitor, em sua mente, ordena, resume e simplifica tudo o que lhe  apresentado, e de tudo isto seleciona 
o que gostaria de reter. At certo ponto, sem dvida, procede o fato de que, quanto mais se tem  disposio, mais pode ser usufrudo. Permitam-se esperar que, apesar 
de todos os aspectos secundrios, os senhores tenham apreendido nitidamente a parte essencial daquilo que lhes comuniquei - a respeito do sentido dos sintomas, a 
respeito do inconsciente e a respeito da relao entre ambos. Sem dvida, tambm tero percebido que nossos esforos subseqentes nos conduziro em duas direes: 
primeiro, nos levaro a descobrir a maneira pela qual as pessoas adoecem e como podem vir a adotar a atitude neurtica em relao  vida - o que  um problema clnico; 
e, em segundo lugar, far-nos-o entender como os sintomas patolgicos se desenvolvem a partir das causas da neurose - o que constitui um problema de dinmica mental. 
Ademais disso, deve haver algures um ponto em que os dois problemas convergem.
         Por hoje, no prosseguirei mais nesse tpico. No entanto, como ainda temos algum tempo disponvel, gostaria de chamar sua ateno para um outra caracterstica 
de nossas duas anlises, que s ser possvel apreciar novamente, de modo completo, mais adiante - para as lacunas nas recordaes do paciente, suas amnsias. Conforme 
j ouviram falar [ver em [1]], a tarefa do tratamento psicanaltico pode ser expressa nesta frmula: sua tarefa consiste em tornar consciente tudo o que  patogenicamente 
inconsciente. Os senhores talvez se surpreendero ao constatar, ento, que esta frmula pode ser substituda por uma outra: sua tarefa consiste em preencher todas 
as lacunas da memria do paciente, em remover as amnsias [ver em [1]]. O que corresponderia  mesma coisa. Com isso queremos dizer que as amnsias dos pacientes 
neurticos possuem importante conexo com a origem de seus sintomas. No entanto, se os senhores considerarem o caso de nossa primeira anlise, no encontraro justificativa 
para esse conceito de amnsia. A paciente no havia esquecido a cena da qual se derivava seu ato obsessivo; pelo contrrio, tinha ntida recordao da mesma e nenhuma 
outra coisa esquecida desempenhou qualquer papel na origem do sintoma. A situao no caso de nossa segunda paciente (a jovem com o ritual obsessivo), embora menos 
clara, era, em seu conjunto, anloga. No se havia realmente esquecido de sua conduta de anos anteriores de sua vida - o fato de haver insistido em que a porta entre 
o quarto de seus pais e seu quarto fosse mantida aberta, e de haver expulsado sua me do lugar que ocupava na cama dos pais; recordava-se disto muito bem, embora 
com hesitao e contra a vontade. A nica coisa que podemos considerar surpreendente  que a primeira paciente, ao realizar seu ato obsessivo em inmeras ocasies, 
nem uma vez sequer tenha percebido sua semelhana com a experincia da noite de npcias, e que a lembrana respectiva no lhe ocorresse quando se lhe faziam perguntas 
diretas no sentido de encontrar os motivos de seu ato obsessivo. E o mesmo se aplica  adolescente cujo ritual e suas causas estavam em conexo principalmente com 
uma situao que se repetia, de forma idntica, todas as noites. Em ambos estes casos, no havia amnsia verdadeira, no havia perda de memria; mas rompera-se uma 
conexo que devia ter acarretado a reproduo ou a reemergncia da lembrana.
         Para a neurose obsessiva, basta uma perturbao da memria deste tipo; na histeria, porm, o caos  diferente. Via de regra, esta neurose  marcada por 
amnsia em escala realmente grande. Ao analisar cada sintoma histrico isoladamente, descobre-se, geralmente, toda uma seqncia de impresso de eventos que, quando 
tornam a emergir, so descritos explicitamente pelo paciente como tendo sido esquecidos at ento. Por outro lado, essa seqncia remonta aos primeiros anos de vida, 
de forma que a amnsia histrica pode ser reconhecida como continuao imediata da amnsia infantil que, para ns, pessoas normais, ocultou os comeos de nossa vida 
mental. [ver em [1] e seg., acima.] Ao seu lado, constatamos, com assombro, que at mesmo as mais recentes experincias do paciente podem estar sujeitas a esquecimento, 
e que as circunstncias que precipitaram a irrupo da doena ou levaram  sua intensificao, so especialmente invadidas, se no totalmente apagadas, pela amnsia. 
Acontece, com regularidade, que detalhes importantes desaparecem do quadro total de uma recordao recente deste tipo, ou foram substitudos por falsificaes da 
memria. Com efeito, sucede, com regularidade quase igual, que determinadas lembranas de vivncias recentes apenas emergem um pouco antes do final de uma anlise 
- lembranas que haviam sido retidas at esse momento tardio, e deixado lacunas perceptveis na continuidade do caso.
         Essas limitaes da capacidade da memria, conforme j disse, so caractersticas da histeria, na qual, de fato, determinados estados tambm surgem como 
sintomas - os ataques histricos -, que no deixam atrs de si qualquer vestgio na memria. Se as coisas se passam diferentemente na neurose obsessiva, os senhores 
podem concluir que nessas amnsias estamos lidando com uma caracterstica psicolgica da modificao que ocorre na histeria, e no  um aspecto universal das neuroses 
em geral. A importncia desta distino reduz-se com a seguinte considerao. Temos includo duas coisas como 'sentido' de um sintoma: o seu 'de onde' e seu 'para 
qu' ou sua 'finalidade' [pg. 25] - ou seja, as impresses e experincias das quais surgiu e as intenes a que serve. Assim, o 'de onde' de um sintoma se reduz 
a impresses que vieram do exterior, que uma vez forma necessariamente conscientes e podem, a partir da, ter-se tornado inconscientes atravs do esquecimento. O 
'para qu' de um sintoma, seu propsito, no entanto,  invariavelmente um processo endopsquico, que possivelmente teria sido consciente, no incio, mas pode igualmente 
no ter sido jamais consciente e ter permanecido no inconsciente desde o incio. Por isso, no  de grande importncia se a amnsia influenciou tambm o 'de onde' 
- as experincias em que o sintoma se baseia - como acontece na histeria;  no 'para qu', no propsito do sintoma que pode ter sido inconsciente desde o incio, 
que se baseia sua dependncia do inconsciente - e no menos firmemente na neurose obsessiva do que na histeria.
         Ao enfatizar desta maneira o inconsciente na vida mental, contudo, conjuramos a maior parte dos maus espritos da crtica contrrio  psicanlise. No se 
surpreendam com isso, e no suponham que a resistncia contra ns se baseia to-somente na compreensvel dificuldade que constitui o inconsciente ou na relativa 
inacessibilidade das experincias que proporcionam provas do mesmo. A origem dessa resistncia, segundo penso, situa-se em algo mais profundo. No transcorrer dos 
sculos, o ingnuo amor-prprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela cincia. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra no 
era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema csmico de uma vastido que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexo, em nossas mentes, com 
o nome de Coprnico, embora algo semelhante j tivesse sido afirmado pela cincia de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigao biolgica destruiu 
o lugar supostamente privilegiado do homem na criao, e provou sua descendncia do reino animal e sua inextirpvel natureza animal. Esta nova avaliao foi realizada 
em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora no sem a mais violenta oposio contempornea. Mas a megalomania humana ter sofrido seu terceiro 
golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicolgica da poca atual, que procura provar o ego que ele no  senhor nem mesmo em sua prpria casa, devendo, porm, 
contentar-se com escassas informaes acerca do que acontece inconscientemente em sua mente. Os psicanalistas no foram os primeiros e nem os nicos que fizeram 
essa invocao  introspeco; todavia, parece ser nosso destino conferir-lhe expresso mais vigorosa e apoi-la com material emprico que  encontrado em todas 
as pessoas. Em conseqncia, surge a revolta geral contra nossa cincia, o desrespeito a todas as consideraes de civilidade acadmica e a oposio se desvencilha 
de todas as barreiras da lgica imparcial. Em ademais de tudo isso, perturbamos a paz deste mundo tambm de uma outra forma, conforme em breve os senhores ouviro.
         
         CONFERNCIA XIX 
         RESISTNCIA E REPRESSO
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Antes de empreendemos qualquer outro avano em nossa compreenso das neuroses, necessitamos de algumas observaes novas. Aqui esto duas, ambas muito notveis; 
quando de sua descoberta, causaram muito surpresa. Nossas conferncias realizadas no ano passado certamente os prepararam para ambas.Em primeiro lugar, ento, quando 
assumimos a tarefa de recuperar um paciente para a sade, alivi-lo dos sintomas de sua doena, ele nos enfrenta com uma resistncia intensa e persistente, que se 
prolonga por toda a durao do tratamento. Este  um fato to estranho que no podemos esperar que as pessoas acreditem muito nele. A este respeito  melhor nada 
dizer aos parentes dos pacientes, pois eles, invariavelmente, consideram-no desculpa de nossa parte para o prolongamento ou fracasso de nosso tratamento. O paciente, 
tambm, apresenta todos os fenmenos desta resistncia, sem reconhec-la como tal, e, se pudermos induzi-lo a adotar nossa opinio a respeito dela e a contar com 
a existncia da mesma, isto j se pode considerar como grande xito. Pensem apenas nisto: O paciente, que tanto sofre com os seus sintomas e tanto sofrimento causa 
queles que convivem com ele, que est disposto a enfrentar tantos sacrifcios em tempo, dinheiro, esforo e autodisciplina, a fim de se libertar desses sintomas 
- temos de acreditar que esse mesmo paciente empreende uma luta no interesse da sua doena, contra a pessoa que o est ajudando. Como deve parecer improvvel esta 
afirmao!
         E, no entanto,  verdadeira; e quando sua improbabilidade nos  apontada, podemos somente responder que essa situao tambm tem analogias. Uma pessoa que 
vai ao dentista, por causa de uma dor de dente insuportvel, assim mesmo procurar afastar o dentista quando este se aproxima do dente doente, com um botico.
         A resistncia do paciente apresenta-se sob muitssimos tipos, extremamente sutis e freqentemente difceis de detectar; e mostra mutaes cambiantes nas 
formas em que se manifesta. O mdico deve ser incrdulo e manter-se em guarda contra ela.
         No tratamento psicanaltico, fazemos uso da mesma tcnica que os senhores j conhecem da interpretao de sonhos. Instrumos o paciente para se colocar 
em um estado de auto-observao tranqila, irrefletida, e nos referir quaisquer percepes internas que venha a ter - sentimentos, pensamentos, lembranas - na ordem 
em que lhe ocorrem. Ao mesmo tempo, advertimo-lo expressamente a no deixar que algum motivo leve-o a fazer uma seleo entre essas associaes ou a excluir alguma 
dentre elas, seja porque  muito desagradvel ou muito indiscreta para ser dita, ou porque  muito banal ou irrelevante, ou que  absurda e no necessita ser dita. 
Sempre insistimos com o paciente para seguir apenas a superfcie de sua conscincia e pr de lado toda crtica sobre aquilo que encontrar, qualquer que seja a forma 
que esta crtica possa assumir; e asseguramos-lhe que o sucesso do tratamento, e sobretudo sua durao, depende da conscienciosidade com que ele obedece a esta regra 
tcnica fundamental da anlise. J sabemos, da tcnica da interpretao de sonhos, que aquelas associaes que originam as dvidas e objees, que acabei de enumerar, 
so justamente as que invariavelmente contm o material que leva  descoberta do inconsciente. [Cf. Conferncia VII, ver em [1].]A primeira coisa que conseguimos 
ao estabelecer a regra tcnica fundamental  que ela se transforma no alvo dos ataques da resistncia. O paciente procura, por todos os meios, livrar-se das exigncias 
desta regra. Num momento, declara que no lhe ocorre nenhuma idia; no momento seguinte, que tantos pensamentos se acumulam dentro de si, que no pode apreender 
nenhum. Ora constatamos com desgostosa surpresa que o paciente cedeu primeiro a uma e, depois a mais outra objeo crtica: no-lo revela pelas longas pausas que 
introduz em seus comentrios. E logo depois, admite que existe algo que de fato no pode dizer - ele teria vergonha de dizer; e permite que este motivo prevalea 
sobre sua promessa. Ou diz que lhe ocorreu algo, mas que isto se refere a outra pessoa, e no a ele mesmo, e, em vista disso, no h por que referi-lo. Ou ainda, 
aquilo que agora lhe acudiu  mente  realmente sem importncia, excessivamente tolo e sem sentido: como  que eu poderia imaginar que ele enveredasse por pensamentos 
desse tipo. E assim continua, com inumerveis variaes e apenas se pode replicar que 'dizer tudo' realmente significa 'dizer tudo'.Dificilmente haver-se- de encontrar 
um nico paciente que no faa uma tentativa de reservar uma ou outra regio para si prprio, de modo a evitar que o tratamento tenha acesso a ela. Um homem, que 
s posso descrever como possuidor da mais elevada inteligncia, manteve um silncio deste tipo, durante semanas, por ocasio do trmino de um caso amoroso ntimo, 
e, solicitado a dar as razes de haver rompido a regra estabelecida, defendeu-se com o argumento de que pensava que essa histria especificamente constitua assunto 
particular seu. O tratamento psicanaltico por certo no reconhece tal direito de asilo. Suponham que se fizesse, numa cidade como Viena, a experincia de considerar 
uma praa, como a do Hoher Markt, ou uma igreja, como a de Santo Estvo, lugares em que nenhuma pessoa pudesse ser presa, e suponham que ento precisssemos apanhar 
um determinado criminoso. Poderamos ter bastante certeza de encontr-lo num desses refgios. Certa vez, decidi permitir a um homem, de cuja eficincia muitas coisas 
dependiam no mundo externo, o direito de fazer uma exceo dessa espcie porque ele estava obrigado, por dever de seu ofcio, a no fazer comunicao acerca de determinadas 
coisas a outras pessoas.  verdade que ele ficou satisfeito com o resultado; mas eu no. Resolvi no repetir uma tentativa sob tais condies.
         Os neurticos obsessivos entendem perfeitamente de como tornar a regra tcnica quase intil, aplicando nela sua superconscienciosidade e suas dvidas. Pacientes 
que sofrem de histeria de angstia por vezes conseguem seguir a regra ad absurdum, referindo apenas associaes to distantes daquilo que andamos pesquisando, que 
no contribuem em nada para a anlise. No , porm, minha inteno inici-los no manejo dessas dificuldades tcnicas.  suficiente dizer-lhes que, no fim com resoluo 
e perseverana, conseguimos extorquir  resistncia certo grau de obedincia  regra tcnica fundamental - que, com isso, passa para outra esfera.Por vezes, surge 
como resistncia intelectual, luta com argumentos e explora todas as dificuldades e improbabilidades que um pensar normal, porm no instrudo, encontra nas teorias 
da anlise. Por vezes, somos obrigados a ouvir de uma s pessoa todas as crticas e objees que assaltam nossos ouvidos, em coro, na bibliografia cientfica referente 
ao assunto. E, por essa razo, nenhum desses clamores que nos atingem de fora, nos soam desconhecidos.  uma regular tempestade em copo d'gua. No entanto, o paciente 
est desejoso de argumentar; anseia fazer como que passemos a instru-lo, ministrar-lhe ensinamentos, contradiz-lo, inici-lo na literatura, de modo que possa adquirir 
mais conhecimentos. Est muito disposto a tornar-se um adepto da psicanlise - com a condio de que a anlise poupe a sua pessoa. Mas reconhecemos esta curiosidade 
como sendo resistncia, como manobra tendente a nos desviar de nossas tarefas especficas, e repelimo-la. No caso de um paciente obsessivo, haveremos de esperar 
tticas de resistncias especiais. Freqentemente, permitir que a anlise prossiga sem empecilhos em seu caminho, de modo que ela possa esclarecer, cada vez melhor, 
o enigma de sua doena. Comeamos a nos admirar, por fim, de este aclaramento no se acompanhar de nenhum efeito prtico, nenhuma diminuio dos sintomas. Ento 
conseguimos perceber que a resistncia se refugiou dentro da dvida, que  prpria da neurose obsessiva, e desta posio ela consegue resistir-nos.  como se o paciente 
dissesse: 'Sim, est tudo muito bem, muito interessante, e terei muito satisfao em prosseguir ainda mais. Eu mudaria um bocado minha doena, se tudo isto fosse 
verdade. Mas no acredito, nem um pouco, que seja verdade; e, na medida em que no acredito, no faz qualquer diferena para minha doena.' As coisas podem continuar 
assim por longo tempo, at que finalmente a pessoa enfrenta diretamente essa atitude de reserva, e ento se fere a batalha decisiva.As resistncias intelectuais 
no so as piores: sempre  possvel super-las. O paciente tambm sabe, contudo, como erguer resistncia sem sair de esquema de referncia da anlise, e a superao 
desta situao est entre os problemas tcnicos mais difceis. Em vez de recordar, repete atitudes e impulsos emocionais o incio de sua vida, que podem ser utilizados 
como resistncia contra o mdico e tratamento, atravs do que se conhece como 'transferncia'.Se o paciente  um homem, geralmente extrai este material de sua relao 
com seu pai, em cujo lugar coloca o mdico, e dessa forma constri resistncias que surgem a partir de seu esforo de se tornar independente, em si prprio e em 
sua opinies, a partir de sua ambio, cujo objetivo primeiro consistia em fazer as coisas to bem como seu pai, ou super-lo; ou a partir de sua averso a se endividar, 
pela segunda vez na vida, com uma carga de gratido. Assim, s vezes, tem-se a impresso de que o paciente substitui inteiramente sua melhor inteno de pr um fim 
 sua doena, pela inteno alternativa de negar que o mdico tenha razo, de fazer com que este reconhea sua impotncia e de triunfar sobre ele. As mulheres tm 
um talento de mestre para explorar, na relao com o mdico, uma transferncia afetuosa,com nuances erticas, destinada  resistncia. Se esta ligao atinge determinado 
nvel, desaparece todo o seu interesse pela situao imediata do tratamento e todas as obrigaes que assumiram no incio; seu cime, que nunca est ausente, e sua 
irritao ante a inevitvel rejeio, embora expressos respeitosamente, no podem deixar de ter como efeito um dano na harmonia entre paciente e mdico, e assim 
inativam uma das mais poderosas foras motrizes da anlise.Resistncias deste tipo no devem ser condenadas apressadamente. Incluem tanto material importante do 
passado do paciente e trazem-no  lembrana de forma to convincente, que elas se tornam os melhores suportes da anlise, se uma tcnica habilidosa soube dar-lhes 
o rumo apropriado. No obstante, deve-se observar que esse material est sempre a servio da resistncia, em princpio, e revela uma faade que  hostil ao tratamento. 
Tambm se pode dizer que aquilo que se mobiliza para lutar contra as modificaes que nos esforamos por efetivar, so traos de carter, atitudes do ego. Com referncias 
a este aspecto, descobrimos que esses traos de carter foram formados em conexo com as causas da neurose e como reao contra as exigncias desta; e encontramos 
traos que normalmente no conseguem emergir ou no podem emergir no mesmo grau, e que se poderia descrever como latentes. Ademais, no devem os senhores ficar com 
a impresso de que consideramos o aparecimento dessas resistncias um risco imprevisto para o empreendimento analtico. No; estamos conscientes de que essas resistncias 
esto fadadas a vir  luz; de fato, ficamos insatisfeitos quando no conseguimos faz-las surgir de maneira suficientemente clara e quando somos incapazes de demostr-las 
ao paciente. Na verdade, chegamos a compreender, finalmente, que a superao dessas resistncias constitui a funo essencial da anlise e  a nica parte do nosso 
trabalho que nos d a segurana de havermos conseguido algo com o paciente.Se os senhores refletirem tambm que o paciente transforma todos os eventos casuais, ocorrentes 
durante a anlise, em interferncias no tratamento; que ele utiliza, como motivos para afrouxar seus esforos, todo acontecimento perturbador externo  anlise, 
todo comentrio feito por uma pessoa ou autoridade, em seu ambiente, hostil  psicanlise, toda doena orgnica eventual ou tudo aquilo que complica sua neurose, 
e at mesmo, na verdade, toda melhora em seu estado - se considerarem tudo isto, tero obtido uma imagem aproximada, embora ainda incompleta, das formas e dos mtodos 
da resistncia; e a luta contra esta resistncia faz parte de toda anlise.Abordei este ponto de forma assim to detalhada, porque agora devo informar-lhes que esta 
experincia nossa com a resistncia dos neurticos  remoo de seus sintomas tornou-se a base de nosso ponto de vista dinmico das neuroses. Inicialmente, Breuer 
e eu empreendamos a psicoterapia por meio da hipnose; a primeira paciente de Breuer foi totalmente tratada sob
         influncia hipntica, e, no incio, eu o segui neste procedimento. Admito que, naquela poca, o trabalho avanava mais fcil e satisfatoriamente, e tambm 
em muito menos tempo. Os resultados eram, porm, incertos e no duradouros, e por esse razo finalmente abandonei a hipnose. E ento compreendi que no se tornaria 
possvel a compreenso da dinmica destas doenas enquanto fosse empregada a hipnose. Este estado era justamente capaz de subtrair  percepo do mdico a existncia 
da resistncia. Ele fazia recuar a resistncia, tornando uma determinada rea livre para o trabalho analtico e represava-a nas fronteiras desta rea sob uma tal 
forma, que se tornava impenetrvel, do mesmo modo como a dvida age na neurose obsessiva. Por esse motivo, tenho podido declarar que a psicanlise propriamente dita 
comeou quando dispensei o auxlio da hipnose.Se, entretanto, tornou-se to importante reconhecer a resistncia, faramos bem em deixar lugar para uma cautelosa 
dvida quanto a saber se no estivemos despreocupados demais em nossas suposies sobre a resistncia. Com efeito, talvez haja casos de neurose em que as associaes 
falhem por outros motivos, talvez os argumentos contra nossas hipteses realmente meream que seu contedo seja examinado, e estejamos fazendo uma injustia aos 
pacientes ao catalogar, to convenientemente, suas crticas intelectuais como sendo resistncia. No entanto, senhores, no chegamos a esta concluso levianamente. 
Temos tido oportunidade de observar todos esses pacientes crticos no momento da emergncia de uma resistncia e aps o seu desaparecimento. Pois a resistncia constantemente 
est modificando sua intensidade durante o transcorrer do tratamento, cresce sempre quando nos aproximamos de um novo assunto, alcana sua intensidade mxima quando 
estamos no clmax da abordagem desse assunto, e se dissipa quando o assunto  posto de lado. E no temos por que encontrar, a menos que tenhamos sido culpados de 
alguma incorreo especial em nossa tcnica, a carga total de resistncia de que um paciente  capaz. Portanto, temos tido a possibilidade de nos convencer de que, 
em ocasies incontveis no decurso de sua anlise, a mesma pessoa abandonar sua atitude crtica e depois a reassumir. Se estamos na iminncia de trazer-lhe  conscincia 
uma parcela de material inconsciente especialmente desagradvel, a pessoa se torna extremamente crtica; pode ter empreendido e aceito muitas coisas previamente, 
agora, todavia,  simplesmente como se aquelas aquisies tivessem sido anuladas; em seu esforo de se opor, a todo custo, pode oferecer o quadro completo de um 
imbecil emocional. Se, contudo, conseguimos ajud-la a superar essa nova resistncia, ela recupera sua compreenso interna (insight) e entendimento. Sua faculdade 
crtica no , assim, uma funo independente a ser respeitada como tal,  o instrumento de suas atitudes emocionais e orienta-se segundo sua resistncia. Se existe 
alguma coisa de que no gosta, pode empreender contra esta uma luta ferrenha e parecer extremamente crtica; mas se alguma coisa reza conforme sua cartilha, pode, 
pelo contrrio, mostrar-se muitssimo crdula. Talvez nenhuma de ns seja muito diferente; algum, que est sendo analisado apenas revela esta subordinao do intelecto 
 vida afetiva to claramente, porque na anlise exercemos sobre ele uma presso assim to grande.Como, pois, explicamos nossa observao, segundo a qual o paciente 
luta com tamanha energia contra a remoo de seus sintomas e o estabelecimento de seus processos mentais em um curso normal? Dizemos a ns mesmos que conseguimos 
descobrir, aqui, foras poderosas que se opem a qualquer modificao na condio do paciente; devem ser as mesmas que, no passado, produziram esta condio. Durante 
a formao de seus sintomas, algo deve ter-se passado, que agora podemos reconstituir a partir de nossas experincias durante a resoluo de seus sintomas. J sabemos, 
atravs da observao de Breuer, que h uma precondio para a existncia de um sintoma: algum processo mental deve no ter sido conduzido normalmente at seu objetivo 
normal - que era o objetivo de poder tornar-se consciente. O sintoma  o substituto daquilo que no aconteceu nesse ponto [ver em [1] e [2], acima]. Agora sabemos 
em que ponto devemos localizar a ao da fora que presumimos. Uma violenta oposio deve ter-se iniciado contra o acesso  conscincia do processo mental censurvel, 
e, por este motivo, ele permaneceu inconsciente. Por constituir algo inconsciente, teve o poder de construir um sintoma. Esta mesma oposio, durante o tratamento 
psicanaltico, se insurge, mais uma vez, contra nosso esforo de tornar consciente aquilo que  inconsciente.  isto o que percebemos como resistncia. Propusemos 
dar ao processo patognico, que  demonstrado pela resistncia, o nome de represso.
         Devemos, agora, formar idias mais definidas acerca do processo de represso. Esta  a precondio da formao dos sintomas; tambm , contudo, algo em 
relao ao qual no encontramos nada semelhante. Tomemos como nosso modelo um impulso, um processo mental que tenta transformar-se em ao. Sabemos que pode ser 
repelido por aquilo que denominamos rejeio ou condenao. Quando isto acontece, a energia  sua disposio  retirada dele; o impulso torna-se impotente, ainda 
que possa persistir como lembrana. Todo o processo de chegar a uma deciso referente ao mesmo segue seu curso no mbito do conhecimento do ego. Passa-se algo muito 
diverso quando o mesmo impulso est sujeito  represso. Nesse caso, ele conservaria sua energia e dele no restaria nenhuma recordao; alm disso, o processo de 
represso seria realizado sem ser percebido pelo ego. Esta comparao, portanto, no nos aproxima da natureza essencial da represso.Apresentarei aos senhores as 
nicas idias tericas que revelaram ser de alguma utilidade para dar ao conceito de represso um contorno mais definido. Sobretudo  essencial, para esse propsito, 
que passemos da significao puramente descritiva da palavra "inconsciente'  significao sistemtica da mesma palavra. Isto , decidiremos dizer que o fato de 
um processo psquico ser consciente ou inconsciente  apenas um de seus atributos, e no necessariamente um atributo isento de ambigidade. Se um processo desse 
tipo permaneceu inconsciente, o fato de ser ele mantido afastado da conscincia talvez possa ser apenas uma indicao de alguma vicissitude por que passou, e no 
a vicissitude mesma. A fim de formar uma imagem dessa vicissitude, suponhamos que todo processo mental - devemos admitir uma exceo que mencionaremos numa fase 
posterior  - exista, inicialmente, em um estdio ou fase inconsciente, e que  somente dali que o processo se transporta para a fase consciente, da mesma forma como 
uma imagem fotogrfica comea como negativo e s se torna fotografia aps haver-se transformado em positivo. Nem todo negativo transforma-se, contudo, necessariamente 
em positivo; e no  necessrio que todo processo mental inconsciente venha a se tornar consciente. Isto pode ser vantajosamente expresso com dizermos que um processo 
isoladamente pertence, no incio, ao sistema de inconsciente, podendo, depois, em determinadas circunstncias, passar ao sistema do consciente.A concepo mais aproximada 
desses sistemas, a mais conveniente para ns,  a espacial, Comparemos, portanto, o sistema do inconsciente a um grande salo de entrada, no qual os impulsos mentais 
se empurram uns aos outros, como indivduos separados. Junto a este salo de entrada existe uma segunda sala, menor - uma espcie de sala de recepo - na qual, 
ademais, a conscincia reside. Mas, no limiar entre as duas salas, um guarda desempenha sua funo; examina os diversos impulsos mentais, age como censor, e no 
os admitir na sala de recepo se eles lhe desagradarem. De pronto, os senhores vero que no faz muita diferena se o guarda impede a entrada de determinado impulso 
no prprio limiar ou se ele o faz recuar atravs do limiar, aps o impulso ter entrado na sala de recepo. Isto  apenas uma questo de grau de sua vigilncia e 
de quo prontamente efetua sua ao de reconhecimento. Se mantivermos esta imagem, poderemos ampliar ainda mais nossa terminologia. Os impulsos do inconsciente, 
no salo de entrada do inconsciente, esto fora das vistas do consciente, que est na outra sala; em princpio, devem permanecer inconscientes. Se j se infiltraram 
at o limiar e foram afastados pelo guarda, ento eles so inadmissveis para a conscincia; dizemos que eles so reprimidos. Entretanto, os prprios impulsos que 
o guarda permitiu que cruzassem o limiar, no so, tambm, s por causa disso, necessariamente conscientse; podem vir a s-lo somente se conseguissem chamar a ateno 
da conscincia. Portanto, justifica-se que chamemos a esta segunda sala, de sistema do pr-consciente. Nesse caso, tornar-se consciente mantm seu sentido meramente 
descritivo. Para qualquer impulso, porm, a vicissitude da represso consiste em o guarda no lhe permitir passar do sistema do inconsciente para o do pr-consciente. 
Trata-se do mesmo guarda que vimos a conhecer como resistncia, quando tentamos suprimir a represso por meio do tratamento analtico.Ora, sei que diro que estas 
idias so ao mesmo tempo toscas e fantsticas e bastante inadmissveis em assuntos cientficos. Sei que so toscas; e, mais do que isso, que so incorretas; e, 
se no estou muito equivocado, j tenho algo melhor que tome o lugar delas. Se os senhores tambm as julgaro fantsticas, no sei dizer. So hipteses de trabalho 
preliminares,  semelhana do manequim de Ampre nadando na corrente eltrica, e no devem ser desprezadas, na medida em que so teis para tornar inteligveis nossas 
observaes. Gostaria de afirmar-lhes que essas toscas hipteses das duas salas, do guarda no limiar entre elas e da conscincia como um expectador no fim da segunda 
sala, devem ser, ainda assim, aproximaes de longo alcance dos fatos reais. Ademais, gostaria de ouvir os senhores admitirem que nossos termos inconsciente', 'pr-consciente' 
e 'consciente' prejulgam muito menos as coisas e so muito mais fceis de explicar do que outros termos que foram propostos ou esto em uso, tais como 'subconsciente', 
'paraconsciente', 'intraconsciente' e outros.Assim, ser mais importante para mim admitirem que uma concepo do aparelho mental, conforme esta que aqui proponho 
para explicar os sintomas neurticos, deve necessariamente exigir uma validade geral e dar-nos informaes tambm a respeito do funcionamento normal. Naturalmente, 
nisto os senhores tero toda a razo. No momento, no podemos avanar com esta implicao, mas nosso interesse na psicologia da formao dos sintomas no pode seno 
aumentar em grau extraordinrio, se existir uma perspectiva, atravs do estudo de situaes patolgicas, de se obter acesso aos eventos mentais normais que se ocultam 
to bem.
         Talvez os senhores tambm possam reconhecer qual o elemento que apia nossa hiptese relativa aos dois sistemas, a relao entre estes dois sistemas e a 
relao de ambos com a conscincia. Porque o guarda colocado entre o inconsciente e o pr-consciente no  seno a censura; a esta, conforme sabemos, subordina-se 
a forma que assume o sonho manifesto. [Cf. Conferncia IX, ver em [1], acima.] Os resduos diurnos, que sabemos serem os elementos deflagradores do sonho, foram 
material pr-consciente que, tanto no perodo noturno como no estado de sono, tinha estado sob a influncia de impulsos plenos de desejos, inconsciente e reprimidos; 
tais resduos diurnos, combinando-se com estes impulsos e graas  energia destes, foram capazes de construir o sono latente. Sob o domnio do sistema inconsciente, 
esse material havia sido trabalhado (pela condensao e pelo deslocamento) segundo uma forma que  desconhecida ou apenas excepcionalmente permissvel na vida normal 
- isto , no sistema pr-consciente. Chegamos a considerar que essa diferena na forma de operar  o que caracteriza os dois sistemas: achamos que a relao que 
o pr-consciente tem para com a conscincia  simplesmente uma indicao de que o processo pertence a um ou a outros dos dois sistemas. Os sonhos no so fenmenos 
patolgicos; podem surgir em qualquer pessoa sadia, nas condies do estado de sono. Nossa hiptese referente  estrutura do aparelho mental, que nos permite compreender 
a formao anloga dos sonhos e dos sintomas neurticos, tem o inquestionvel direito de ser aceita como adequada  explicao da vida mental normal, tambm.Isso 
 tudo o que temos a dizer, no momento, a respeito da represso. Ela, contudo,  apenas a precondio da formao dos sintomas. Os sintomas, conforme sabemos, so 
um substituto de algo que foi afastado pela represso. Entretanto, vai uma longa distncia, ainda, dede a represso  compreenso dessa estrutura substitutiva. Quanto 
a este outro aspecto do problema, surgem de nossas observaes sobre a represso as seguintes perguntas: que espcie de impulsos est sujeita  represso? por que 
foras ela se efetua? e por que motivos? At agora, temos somente uma parcela de informao a respeito destes pontos. Ao investigar a resistncia, constatamos que 
ela emana de foras do ego, de traos de carter conhecidos e latente [ver em [1], acima]. So estes, pois, os responsveis pela represso, ou, pelo menos, tm uma 
participao nela. Presentemente, no sabemos de nada mais.Neste ponto, a segunda das duas observaes que lhes mencionei anteriormente [na abertura desta Conferncia] 
vem em nosso auxlio. Quase sempre a anlise faculta-nos compreender a inteno dos sintomas neurticos. Isso tambm no ser novidade alguma para os senhores. J 
lho demonstrei em dois casos de neurose. Mas, afinal, de que lhes valem dois casos? Os senhores tm razo para insistir em que este aspecto lhes seja demonstrado 
em duzentos casos - em inumerveis casos. O nico problema  que no posso faz-lo. Mais uma vez, em lugar disso, o que lhes deve servir  sua experincia prpria, 
ou sua crena, a qual, neste ponto, pode apelar para os relatos unnimes de todos os psicanalistas.
         Os senhores recordar-se-o de que, nos dois casos, cujos sintomas submetemos a uma investigao minuciosa, a anlise nos levou  mais ntima vida sexual 
dessas duas pacientes. No primeiro caso, ademais, reconhecemos com especial clareza a inteno ou o propsito do sintoma em exame; no segundo caso, talvez, este 
aspecto de certa forma foi ocultado por um fator que ser mencionado posteriormente [ver em [1], adiante]. Pois bem, qualquer outro caso que submetssemos  anlise 
nos mostraria a mesma coisa que encontramos nesses dois exemplos. Em cada caso, iramos tomar conhecimento, mediante a anlise, das experincias e desejos sexuais 
do paciente; e, em cada caso, no poderamos deixar de verificar que os sintomas servem  mesma inteno. Verificamos que esta inteno  a satisfao de desejos 
sexuais; os sintomas servem de satisfao sexual do paciente; so um substituto da satisfao sexual, de que os pacientes se privam em suas vidas.
         Pensem no ato obsessivo de nossa primeira paciente. A mulher estava sem seu marido, a quem ela amava intensamente, mas com quem no podia compartilhar sua 
vida devido s deficincias e fraquezas dele. Tinha de permanecer-lhe fiel; no podia colocar nenhuma outra pessoa no lugar dele. O sintoma obsessivo deu-lhe o que 
ela desejava, colocar o marido num pedestal; negou e corrigiu sua fraquezas e, acima de tudo, sua impotncia. Este sintoma era fundamentalmente uma realizao de 
desejo, tal qual um sonho - e, ademais disso, o que nem sempre acontece com um sonho, uma realizao de desejos erticos. No caso de nossa segunda paciente, os senhores 
puderam pelo menos depreender que seu ritual procurava impedir o coito dos pais ou evitar que ele desse origem a um novo beb. Os senhores, provavelmente, tambm 
perceberam que, no fundo, esse ritual procurava coloc-la no lugar de sua me. Mais uma vez, portanto, tratava-se de eliminar algo que interferia na satisfao sexual 
e na realizao dos desejos sexuais da prpria paciente. Em breve, falarei da complicao que mencionei.
         Gostaria de antecipar, senhores, as restries que terei de fazer posteriormente  validade universal destas afirmaes. Portanto, assinalarei aos senhores 
que tudo aquilo que disse aqui sobre represso e a formao e significao dos sintomas derivou de trs formas de neurose - histeria de angstia, histeria de converso 
e neurose obsessiva, e que, numa primeira instncia, s  vlido para estas formas. Este trs distrbios, que estamos acostumados a agrupar conjuntamente como "neuroses 
de transferncia' tambm circunscrevem a regio em que a terapia psicanaltica pode funcionar. As demais neuroses tm sido estudadas de forma muito menos completa 
pela psicanlise; num grupo delas a impossibilidade de influncia teraputica foi uma das razes desse abandono. E os senhores no devem esquecer que a psicanlise 
ainda  uma cincia muito jovem, que preparar-se para ela demanda muita preocupao e tempo, e que absolutamente, no faz muito tempo, vinha sendo praticada por 
uma s pessoa. Apesar disso, estamos, em toda parte, a ponto de penetrar na compreenso dessas outras perturbaes alm das neuroses de transferncia. Espero poder 
mostrar-lhes, posteriormente, o alcance de nossas hipteses e de nossas descobertas que resultam da adaptao a este novo material, e mostrar-lhes que estes outros 
estudos no levaram a contradies, mas ao estabelecimento de uma coerncia ainda maior. Se, pois, tudo o que estou dizendo aqui se aplica s neuroses de transferncia, 
permitam-me que acentue o valor dos sintomas com uma nova informao. Isso porque o estudo comparativo das causas determinantes do adoecer conduz a um resultado 
que pode ser expresso na frmula: essas pessoas adoecem, de uma forma ou de outra, de frustraes, quando a realidade as impede de satisfazer seus desejos sexuais. 
Os senhores verificam com que perfeio estas duas descobertas se harmonizam entre si. Apenas assim  que os sintomas podem ser adequadamente visualizados, como 
satisfaes substitutivas daquilo que se perde na vida.Sem dvida, pode-se ainda levantar toda classe de objees  assero de que os sintomas neurticos so substitutos 
de satisfaes sexuais. Hoje, mencionarei duas dessas objees. Quando os senhores mesmos houverem efetuado estudos analticos de um grande nmero de neurticos, 
os senhores talvez me digam, meneando a cabea, que, em muitos casos, minha assero simplesmente no  verdadeira; os sintomas parecem ter, isto sim, o propsito 
contrrio, o de excluir ou paralisar a satisfao sexual. No discutirei a correo da sua interpretao. Em psicanlise, os fatos costumam ser mais complicados 
do que gostaramos. Se fossem to simples como todos os demais, talvez no fosse necessrio que a psicanlise os esclarecesse. Na verdade, alguns dos aspectos do 
ritual de nossa segunda paciente mostram sinais desse carter asctico, com sua hostilidade voltada contra a satisfao sexual: quando, por exemplo, ela suprimia 
os relgios [ver em [1]], o que tinha a significao de evitar erees durante a noite [ver em [1]], ou quando procurava precaver-se contra a queda e a quebra de 
vasos de flores [ver em [1]], o que equivalia a proteger sua virgindade [ver em [1]]. Em alguns outros casos de rituais da hora de dormir, que pude analisar, esse 
carter negativo era muito mais evidente; o ritual podia consistir exclusivamente em medidas defensivas contra recordaes e tentaes sexuais. Entretanto, j constatamos, 
vezes sem conta, que, em psicanlise, os contrrios no importam em contradio. Poderamos ampliar nossa tese e dizer que os sintomas objetivam ou uma satisfao 
sexual ou o rechao da mesma, e que, na totalidade, o carter positivo de realizao de desejo prevalece na histeria e o negativo, asctico, na neurose obsessiva. 
Se os sintomas podem servir tanto  satisfao sexual como ao seu oposto. Existe uma excelente base para esta bilateralidade ou polaridade numa parte do seu mecanismo, 
que at o momento no pude mencionar. Pois, conforme veremos, elas so o produto de um acordo e surgem da recproca interferncia entre duas correntes opostas; representam 
no s o reprimido, mas tambm a fora repressora que compartilhou de sua origem. Um ou outro lado pode estar representado com mais fora; mas  raro uma das foras 
em jogo estar totalmente ausente. Na histeria, geralmente ambas as intenes conseguem convergir no mesmo sintoma. Na neurose obsessiva, as duas partes freqentemente 
esto separadas; o sintoma ento se torna bifsico [divide-se em dois estdios] e consiste em duas aes, uma depois da outra, as quais se anulam reciprocamente.No 
poderemos desprezar to facilmente uma segunda objeo. Se os senhores observarem uma srie razoavelmente longa de interpretaes de sintomas, provavelmente comearo 
a pensar que nelas o conceito de satisfao sexual substitutiva foi ampliado aos seus limites mximos. No deixaro de assinalar o fato de que tais sintomas no 
oferecem nada de real em termos de satisfao, que eles, muitssimas vezes, limitam-se a reviver uma sensao ou a representao de uma fantasia derivada de um complexo 
sexual. E, ademais, os senhores notaro que estas supostas satisfaes sexuais assumem, s vezes, uma forma pueril e vergonhosa, prxima, talvez, de um ato de masturbao, 
ou relembram formas indecentes de travessuras, que so proibidas at a crianas - hbitos que foram erradicados. E, prosseguindo, os senhores tambm expressaro 
surpresa por estarmos apresentando como satisfao sexual aquilo que seria mais adequado descrever como satisfao de desejos cruis ou horrveis, ou mesmo teriam 
de ser chamados de antinaturais. No chegaremos a um acordo, senhores, quanto a este ltimo ponto, enquanto no houvermos feito uma investigao meticulosa da vida 
sexual dos seres humanos e, com isso, enquanto no tivermos decidido sobre o que justificadamente podemos denominar 'sexual'.
         
         CONFERNCIA XX 
         A VIDA SEXUAL DOS SERES HUMANOS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Certamente supor-se-ia que no pudesse haver dvidas quanto ao que se entende por 'sexual'. Primeiro e acima de tudo, aquilo que  sexual  algo imprprio, 
algo de que no se deve falar. Contaram-me que os alunos de um conceituado psiquiatra certa vez fizeram uma tentativa de convencer seu professor de quo freqentemente 
os sintomas de pacientes histricos representam coisas sexuais. Com este propsito, levaram-no  beira da cama de uma mulher histrica, cujos ataques eram uma inconfundvel 
imitao do processo de parto. Sacudindo a cabea, ele observou: 'Bem, no h nada de sexual com relao ao parto.' Muito certo. O parto no necessita, em todo caso, 
ser algo imprprio.
         Vejo que os senhores se ofendem por eu gracejar com coisas to srias. Isso no  contudo, totalmente, um gracejo. Falando srio, no  fcil delimitar 
aquilo que abrange o conceito de 'sexual'. Talvez a nica definio acertada fosse 'tudo o que se relaciona com a distino entre os dois sexos'. Os senhores acharo, 
no entanto, que esta conceituao  neutra e excessivamente imprecisa. Se tomarem o fato do ato sexual como ponto central, talvez definissem como sexual tudo aquilo 
que, com vistas a obter prazer, diz respeito ao corpo e, em especial, aos rgos sexuais de uma pessoa do sexo oposto, e que, em ltima instncia, visa  unio dos 
genitais e  realizao do ato sexual. Com isto, os senhores no estaro, todavia, muito longe da equao segundo a qual aquilo que  sexual  imprprio, e o parto 
no constituir algo sexual. Se, por outro lado, tomarem a funo de reproduo como ncleo da sexualidade, correm o risco de excluir toda uma srie de coisas que 
no visam  reproduo, mas certamente so sexuais, como a masturbao, e at mesmo o beijo. Mas j estamos preparados para constatar que as tentativas de definio 
sempre conduzem a dificuldades; portanto, renunciemos  idia de pretender algo melhor neste caso particular. Podemos suspeitar que, no transcurso da evoluo do 
conceito de 'sexual', algo aconteceu que resultou naquilo que Silberer apropriadamente chamou de 'erro de superposio'.De modo geral, com efeito, quando pensamos 
neste aspecto, no temos dvidas sobre o que as pessoas chamam de sexual. Algo que rene uma referncia ao contraste entre os sexos,  busca de prazer,  funo 
reprodutora e  caractersticas de algo que  imprprio e deve ser mantido secreto - algumas destas combinaes serviro para todos os fins prticos da vida de todo 
dia. Mas para a cincia, isto no basta. Atravs de cuidadosas investigaes (somente possibilitadas, na verdade, por uma autodisciplina desinteressada), vimos a 
saber de grupos de indivduos cuja 'vida sexual' se desvia, da maneira mais supreendente, do quadro habitual da mdia. Algumas dessas pessoas 'pervertidas', poderamos 
dizer assim, riscaram de seu programa a diferena entre os sexos. Somente pessoas de seu prprio sexo podem excitar seus desejos sexuais; pessoas do outro sexo, 
e especialmente os rgos sexuais destas pessoas absolutamente no constituem para eles objeto sexual e, em casos extremos, so objetos de repulsa. Isto implica, 
naturalmente, que abandonaram qualquer participao na reproduo. Tais pessoas denominamos homossexuais ou invertidas. So homens e mulheres que, freqentemente, 
mas no sempre, conduzindo-se irrepreensivelmente, em outros aspectos, possuindo elevado desenvolvimento intelectual e tico, so vtimas apenas deste nico desvio 
fatdico. Pela boca de seus porta-vozes cientficos, eles se apresentam como variedade especial da espcie humana - um 'terceiro sexo' que tem o direito de se situar 
em p de igualdade com os outros dois. Talvez tenhamos oportunidade de examinar criticamente suas reivindicaes. [ver em [1] e seg., adiante.] Naturalmente, eles 
no so, como tambm gostam de afirmar, uma 'lite' da humanidade; entre eles, h pelo menos tantos indivduos inferiores e inteis como os h entre pessoas de tipo 
sexual diferente.Esta classe de pervertidos, de qualquer modo, se comporta em relao a seus objetos sexuais aproximadamente da mesma forma como as pessoas normais 
o fazem com os seus. Agora, porm, chegamos a uma longa srie de pessoas anormais cuja atividade sexual diverge cada vez mais amplamente daquilo que parece desejvel 
para uma pessoa racional. Na sua mulplicidade e estranheza, somente podem ser comparadas aos monstros grotescos, pintados por Breughel para a tentao de Santo Antnio, 
ou  longa procisso de deuses e crentes desaparecidos, que Flaubert faz desfilar ante os olhos de seu piedoso penitente. Uma tal miscelnea requer algum tipo de 
ordenamento para que no venha a confundir nossos sentidos. Por conseguinte, ns os dividimos naqueles em que, como os homossexuais, o objeto sexual foi modificado, 
e em outros nos quais a finalidade sexual  que foi primariamente modificada. O primeiro grupo inclui aqueles que renunciaram  unio dos dois genitais e que substituem 
os genitais de um dos parceiros envolvidos no ato sexual por alguma outra parte ou regio do corpo; com isto, eles desprezam a falta de dispositivos orgnicos adequados, 
assim como todo impedimento oriundo de sentimentos de repulsa. (Por exemplo, substituem a vulva pela boca ou pelo nus.) Outros h que, realmente, ainda mantm os 
genitais como um objeto - no, porm, por causa da funo destes, mas de outras funes em que o genital desempenha um papel, seja por motivos anatmicos, seja por 
causa de sua proximidade. Neles, constatamos que as funes excretrias, que foram postas de lado como imprprias, durante a educao das crianas, conservam a capacidade 
de atrair a totalidade do interesse sexual. E ainda h outros que abandonaram totalmente o genital como objeto, e tomaram alguma outra parte do corpo como o objeto 
que desejam - um seio de mulher, um p, ou uma trana de cabelos. Depois h outros para os quais as partes do corpo no tm nenhuma importncia, mas todos os seus 
desejos se satisfazem com uma pea de roupa, um sapato, uma pea de roupa ntima - so de fetichistas. Ainda mais atrs, nesse squito, se enfileiram essas pessoas 
que requerem de fato o objeto total, mas fazem a este exigncias muito definidas - estranhas e horrveis exigncias - at mesmo a de que esse objeto devesse tornar-se 
um cadver indefeso e de que, usando de uma violncia criminosa, transformem-no num objeto no qual possam encontrar prazer. Mas basta com essa espcie de horror!O 
segundo grupo  formado por pervertidos que transformaram em finalidade de seus desejos sexuais aquilo que normalmente constitui apenas um ato inicial ou preparatrio. 
So pessoas cujo desejo consiste em olhar outras pessoas, ou palp-las, ou espi-las durante a execuo de atos ntimos, ou pessoas que expem partes do corpo que 
deveriam estar encobertas, na obscura expectativa de poderem ser recompensadas, em troca, por uma ao correspondente. Depois vm os sdicos, essas pessoas enigmticas, 
cujas tendncias carinhosas no tm outro fim seno o de causar sofrimento e tormento a seus objetos, indo desde a humilhao at as leses fsicas graves; e, como 
que para contrabalan-los, seus equivalentes opostos, os masoquistas, cujo nico prazer consiste em sofrer toda espcie de tormentos e humilhaes de seu objeto 
amado, seja simbolicamente, seja na realidade. Ainda existem outros em que diversas dessas precondies anormais esto unidas e entrelaadas; e, por fim, devemos 
nos lembrar de que cada um destes grupos pode ser encontrado sob duas formas: ao lado daqueles que procuram sua satisfao sexual na realidade, esto os que se contentam 
simplesmente com imaginar essa satisfao, que absolutamente no necessitam de um objeto real, mas podem substitu-lo por suas fantasias.
         Ora, no pode haver a menor dvida de que todas essas coisas loucas, excntricas e horrveis realmente constituem a atividade sexual dessas pessoas. No 
s elas prprias consideram essas coisas como tais e esto conscientes de que so substitutas umas das outras, como tambm devemos admitir que, em suas vidas, essas 
coisas desempenham o mesmo papel que, em nossas vidas, desempenha a satisfao sexual normal; tais pessoas fazem por essas coisas os mesmos sacrifcios, s vezes 
excessivos, e podemos, nos detalhes mais visveis assim como nos mais sutis, determinar os pontos em que essas anormalidades se baseiam naquilo que  normal e os 
pontos em que divergem da normalidade. E os senhores no podem deixar de perceber que, aqui, mais uma vez, aquilo que se refere  atividade sexual tem essa caracterstica 
de impropriedade, embora aqui, na sua maior parte, isto se intensifique ao ponto de ser abominvel.
         Pois bem, senhoras e senhores, que atitude adotaremos para com essas formas incomuns de satisfao sexual? Indignao, expresso de nossa repugnncia pessoal 
e garantia de que ns prprios no compartilhamos de semelhantes sensualidades, obviamente no proporcionaro qualquer ajuda. Na realidade, no foi para isso que 
fomos solicitados. Porque, afinal de contas, o que temos de encarar neste assunto  um campo de fenmenos como qualquer outro. Seria fcil refutar algum que negasse 
sua importncia, propondo evasivamente que, afinal, isto so somente raridades e curiosidades. Pelo contrrio, estamos tratando de fenmenos muito comuns e difundidos. 
Se, entretanto, algum argumentar que no temos por que permitir que nossas opinies acerca da vida sexual sejam confundidas por essas anormalidades, porque estas 
no so mais que aberraes e desvios do instinto sexual, ento o que se requer  uma resposta sria. A menos que possamos compreender essas formas patolgicas de 
sexualidade e correlacion-las com a vida sexual normal, no poderemos nem mesmo entender a sexualidade normal. Para resumir, persiste a tarefa inescapvel de darmos 
uma explicao terica completa da maneira como essas perverses ocorrem e da sua conexo com aquilo que se descreve como sexualidade normal.Nessa tarefa, prestar-nos-o 
auxlio uma informao e duas observaes recentes. A primeira, devemo-la a Iwan Bloch [1902-3]. Corrige a opinio de que todas essas perverses so 'sinais de degenerao', 
mostrando que tais aberraes do fim sexual, esses afrouxamentos do nexo com o objeto sexual, ocorreram desde tempos imemoriais, em todas as pocas conhecidas, entre 
todos os povos, os mais primitivos e os mais civilizados, e, em algumas ocasies, foram tolerados e difusamente reconhecidos. As duas observaes derivaram da investigao 
psicanaltica em neurticos; ela necessariamente tm uma decisiva influncia sobre nossa viso das perverses sexuais.Eu disse que os sintomas neurticos so substitutos 
da satisfao sexual [pg. 305] e lhes indiquei que a confirmao desta assertiva pela anlise dos sintomas viria a defrontar-se com numerosas dificuldades. Pois 
somente ser vlida se na 'satisfao sexual' incluirmos a satisfao daquilo que se chama necessidades sexuais pervertidas, de vez que, com freqncia surpreendente, 
se nos impe uma interpretao de sintomas dessa espcie. A reivindicao que fazem os homossexuais ou invertidos de serem uma exceo, desfaz-se imediatamente ao 
constatarmos que os impulsos homossexuais so encontrados invariavelmente em cada um dos neurticos e que numerosos sintomas do expresso a essa inverso latente. 
Aqueles que se proclamam homossexuais so apenas invertidos conscientes e manifestos e seu nmero nada  em comparao com os dos homossexuais latentes. Entretanto, 
somos forados a encarar a escolha de um objeto do mesmo sexo como um desvio na vida ertica, desvio cuja ocorrncia  positivamente freqente, e cada vez aprendemos 
mais sobre isso, atribuindo-lhe importncia particularmente elevada. Sem dvida, isso no elimina as diferenas entre o homossexualismo manifesto e uma atitude normal; 
permanece a importncia prtica dessas diferenas, mas seu valor terico diminui muito. Temos at mesmo verificado que determinada doena, a parania, que no deve 
ser includa entre as neuroses de transferncia, origina-se habitualmente de uma tentativa no sentido de o doente libertar-se de impulsos homossexuais excessivamente 
intensos. Os senhores talvez se recordem de que uma de nossas pacientes (pg. 270), em seu ato obsessivo, comportava-se como homem, como se fora o prprio marido 
de quem se separara; mulheres neurticas muito freqentemente produzem sintomas assim,  feio de um homem. Ainda que isso no se deva considerar homossexualismo, 
relaciona-se muito de perto com as precondies destas.
         Como provavelmente sabem, a neurose histrica pode produzir seus sintomas em qualquer sistema de rgos e, assim, perturbar qualquer funo. A anlise demonstra 
que, desse modo, manifestaram-se todos os chamados impulsos pervertidos, que procuram substituir o rgo genital por algum outro rgo: este rgos, ento, comportam-se 
como genitais substitutivos. Os sintomas da histeria realmente nos levaram a considerar que os rgos corporais, alm do papel funcional que desempenham, devem ser 
reconhecidos como possuidores de uma significao sexual (ergena) e que a execuo da primeira dessas tarefas  perturbada se a segunda fizer exigncias demasiadas. 
Inmeras sensaes e inervaes, que encontramos como sintomas de histeria, em rgos que no possuem conexo evidente com a sexualidade, revelam-se a ns, assim, 
como tendo o carter de realizao de impulsos sexuais pervertidos em relao aos quais outros rgos adquiriram a significao das partes sexuais. Tambm verificamos 
em que graus os rgos destinados  tomada de alimento e  excreo tm particular facilidade de se tornarem veculos de excitao sexual. Aqui, pois, temos a mesma 
coisa que constatamos nas perverses; s que, no caso destas, isto era fcil e inconfundivelmente visvel, ao passo que, na histeria, temos de tomar um caminho indireto, 
atravs da interpretao dos sintomas, e, depois, no atribumos  conscincia da pessoa os impulsos sexuais pervertidos, mas os localizados em seu inconsciente.Entre 
os muitos quadros sintomticos em que aparece a neurose obsessiva, os mais importantes vm a ser aqueles provocados pela presso de impulsos sexuais sdicos excessivamente 
intensos (pervertidos, portanto, quanto ao seu fim). Os sintomas, na verdade, de acordo com a estrutura de uma neurose obsessiva, servem predominantemente como defesa 
contra esses desejos, ou expressam a luta entre a satisfao e a defesa. A satisfao de tais desejos sdicos, contudo, tambm no sai perdendo tanto assim; obtm 
xito, atravs de vias transversas, ao realizar-se na conduta dos pacientes, e se volta preferentemente contra eles mesmos, e os torna auto-atormentadores. Outras 
formas desta neurose, as formas cismticas, correspondem a uma excessiva sexualizao de aes que comumente se efetuam como prvias com vistas  satisfao sexual 
normal - uma excessiva sexualizao do querer olhar, tocar ou explorar. Aqui temos a explicao da grande importncia do temor de tocar e da obsesso de lavar-se. 
Uma quantidade incrivelmente grande de atos obsessivos pode remontar  masturbao, da qual constituem repeties e modificaes disfaradas; sabe-se muito bem que 
a masturbao, embora sendo uma ao nica e uniforme, acompanha as mais diversas formas do fantasiar sexual.Eu no teria muita dificuldade em apresentar-lhes um 
quadro muito mais pormenorizado das relaes entre perverso e neurose; penso, porm, que aquilo que j lhes disse servir aos nossos propsitos. Entretanto, devemos 
acautelar-nos, a fim de no nos desorientarmos com aquilo que lhes referi, ou seja, o significado dos sintomas no deve nos levar a superestimar a freqncia e a 
intensidade das inclinaes pervertidas das pessoas. Conforme ouviram falar [ver em [1]],  possvel adoecer de neurose em conseqncia de uma frustrao da satisfao 
sexual normal. Entretanto, quando ocorre uma frustrao real como esta, a necessidade lana-se a mtodos anormais de excitao sexual. Mais adiante os senhores sabero 
como  que isso acontece [ver em [1] e segs.] Em todo caso, percebero, contudo, que, como resultado desse represamento 'colateral' [da corrente sexual normal], 
os impulsos pervertidos devem emergir com mais intensidade do que emergiriam se a satisfao sexual normal no tivesse encontrado obstculo no mundo real. Ademais, 
pode-se reconhecer que uma influncia semelhante tambm afeta as perverses manifestas. Em alguns caos, elas so provocadas ou postas em atividade se a satisfao 
normal do instinto sexual encontra dificuldades excessivas, por motivos temporrios ou em virtude de regras sociais permanentes. Em outros casos,  fato, a inclinao 
s perverses  bastante independente de tais condies favorecedoras; poderamos dizer que constituem o tipo normal de vida sexual para essas pessoas em particular.Talvez, 
por agora, os senhores possam ter a impresso de que confundi mais do que explanei a relao entre sexualidade normal e pervertida. Mas devem ter em mente a seguinte 
considerao. Se procede o fato de que um aumento de dificuldade em obter satisfao sexual normal da vida real, ou a privao desta satisfao, pe  mostra as 
inclinaes pervertidas de pessoas que, anteriormente, nada disso tinham demonstrado, devemos supor que nessas pessoas havia algo que j se encontrava a meio-caminho 
das perverses; ou, se preferirem, as perverses devem ter estado presentes, nessas pessoas, em forma latente.E isto nos traz a segunda novidade que lhes anunciei 
(ver em [1]). Pois a investigao psicanaltica teve de ocupar-se tambm com a vida sexual das crianas, e isto porque as lembranas e associaes emergentes durante 
a anlise de sintomas de adultos remetiam-se regularmente aos primeiros anos da infncia. O que inferimos destas anlises mais tarde se confirmou, ponto por ponto, 
nas observaes diretas de crianas. E, com isso, verificou-se que todas essas inclinaes  perverso tinham suas razes na infncia, que as crianas tm uma predisposio 
a todas elas e pem-nas em execuo numa medida correspondente  sua imaturidade - em suma, que a sexualidade pervertida no  seno uma sexualidade infantil cindida 
em seus impulsos separados.Em todo caso, agora os senhores vero as perverses sob um novo prisma, e j no mais deixaro de perceber sua conexo com a vida sexual 
dos seres humanos: mas  custa de quanta surpresa e de quanto sentimento de desagrado para com estas incongruncias! Sem dvida, sentir-se-o inclinados a negar 
todo este assunto: o fato de que as crianas possuem tudo aquilo que se pode descrever como vida sexual, a justeza de nossas observaes e a explicao para o fato 
de encontrarmos tantas afinidades entre a conduta das crianas e aquilo que mais tarde  condenado como perverso. Por isso, permitam-me que comece explicando-lhes 
os motivos da oposio dos senhores e, depois, lhes apresente a totalidade de nossas observaes. Supor que as crianas no tm vida sexual - excitaes e necessidades 
sexuais e alguma forma de satisfao -, mas adquirem-na subitamente, entre os doze e os quatorze anos de idade, seria (abstraindo de todas as observaes) biologicamente 
to improvvel, e, na verdade, to sem sentido, como supor que viessem ao mundo desprovidas de genitais e que estes s aparecessem na poca da puberdade. O que de 
fato desperta nas crianas, nessa idade,  a funo reprodutiva, que, para seus fins, faz uso dos componentes fsicos e mentais j anteriormente presentes. Os senhores 
esto cometendo o erro de confundir sexualidade com reproduo, e com isto esto bloqueando seu caminho para a compreenso da sexualidade, das perverses e das neuroses. 
Este , contudo, um erro tendencioso. Estranhamente, origina-se no fato de que os senhores mesmos uma vez foram crianas e, enquanto eram crianas, estiveram sob 
a influncia da educao. Pois a sociedade deve assumir como uma de suas mais importantes tarefas educadoras domar e restringir o instinto sexual quando este irrompe 
como impulso  reproduo, e sujeit-lo a uma vontade individual que  idntica  ordem da sociedade. Esta tambm se preocupa em adiar o pleno desenvolvimento do 
instinto at que a criana tenha atingido certo grau de maturidade intelectual, de vez que, a, com a completa irrupo do instinto sexual, a educabilidade, para 
fins prticos, chega a seu fim. De outro modo, o instinto romperia todos os diques e arrasaria todo o trabalho da civilizao laboriosamente construdo. Ademais, 
nunca  fcil a tarefa de dominar o instinto; seu xito, por vezes,  muito pequeno, por vezes, muito grande. O mvel da sociedade humana , em ltima anlise, econmico; 
como no possui provises suficientes para manter vivos todos os seus membros, a menos que trabalhem, ela deve limitar o nmero de seus membros e desviar suas energias 
da atividade sexual para o trabalho. Em suma, defronta-se com as eternas e primevas exigncias da vida, que nos assediam at o dia de hoje.Sem dvida, a experincia 
deve ter ensinado aos educadores que a tarefa de docilizar a tendncia sexual da nova gerao s poderia ser efetuada se comeassem a exercer sua influncia muito 
cedo, se no esperassem pela tempestade da puberdade, mas interviessem logo na vida sexual das crianas, que  preparatria para a puberdade. Por essa razo, todas 
as atividades sexuais foram proibidas s crianas e vistas com maus olhos; erigiu-se o ideal de tornar a vida das crianas assexual, e, no decorrer do tempo, as 
coisas chegaram ao ponto de as pessoas realmente acreditarem que as crianas sejam assexuais e, subseqente, de a cincia proclamar isto como doutrina. Para evitar 
que sejam contraditas suas crenas e suas intenes, a partir da as pessoas passam por alto as atividades sexuais das crianas (que no so de se desprezar) ou 
se mostram contentes quando a cincia assume um ponto de vista diferente com relao a tais atividades. As crianas so puras e inocentes, e todo aquele que as descreve 
de outra maneira, pode ser acusado de ser um blasfemador infame dos ternos e sagrados sentimentos da humanidade.
         As crianas so as nicas a no concordar com essas convenes. Afirmam seus direitos animais com total navet e do constantes provas de que ainda tero 
de trilhar o caminnho da pureza.  por demais estranho que as pessoas que negam a existncia da sexualidade nas crianas nem por isso se tornam mais brandas em seus 
esforos educacionais, mas perseguem as manifestaes daquilo que negam que exista, com a mxima severidade - descrevendo tais manifestaes como 'traquinagens pueris.' 
 tambm do maior interesse terico o perodo de vida que contradiz mais flagrantemente o preconceito de uma infncia assexual - os anos de vida de uma criana at 
os cinco ou seis -, ser posteriormente, na maioria das pessoas, coberto pelo vu da amnsia, o qual s  completamente desfeito pela investigao analtica, embora 
anteriormente tenha sido permevel  construo de alguns sonhos. [ver em [1] e [2], acima.]
         Mostrarei aos senhores, agora, aquilo que se conhece de mais definido acerca da vida sexual das crianas. Permitam-me, ao mesmo tempo, por motivos de convenincia, 
apresentar o conceito de 'libido'. Em exata analogia com a 'fome', empregamos 'libido' como nome da fora (neste caso, a fora do instinto sexual, assim como, no 
caso da fome, a fora do instinto de nutrio) pela qual o instinto se manifesta. Outros conceitos, como os de 'excitao' e 'satisfao' sexual, no requerem explicao. 
Os senhores mesmos facilmente percebero que as atividades sexuais de crianas de colo so principalmente uma questo de interpretao, ou, ento, provavelmente 
usaro isso como motivo para objees. A essas interpretaes chega-se atravs do exame analtico retrospectivo baseado nos sintomas. Numa criana da tenra idade, 
os primeiros impulsos da sexualidade tm seu aparecimento ligado a outras funes vitais. Seu principal interesse, como sabem, volta-se para a ingesto de alimentos; 
quando as crianas adormecem, aps se haverem saciado ao seio, mostram uma expresso de bem-aventurada satisfao, que se repetir, posteriormente na vida, aps 
a experincia do orgasmo sexual. Isto seria muito pouco para servir de base a uma concluso. Constatamos, todavia, como um beb repetir o ato de tomar alimento 
sem exigir mais comida; a isto, portanto, o beb no  levado devido a fome. Descrevemo-lo como suco sensual, e o fato de que, ao faz-lo, o beb adormece, igualmente, 
com uma expresso beatfica, mostra-nos que o ato da suco sensual lhe proporcionou, por si s, uma satisfao. Conforme sabemos, muito cedo as coisas chegam a 
um ponto em que no pode adormecer sem haver sugado. Um pediatra de Budapest, Dr. Lindner [1879], foi o primeiro a apontar, h muito tempo, a natureza sexual dessa 
atividade. Aqueles que cuidam de crianas, e que no tm opinies tericas sobre o assunto, parecem formar um juzo semelhante a respeito da suco. No tm dvidas 
de que esta somente tem a finalidade de obter prazer, classificam-na como uma das 'traquinagens' da criana e obrigam-na a abandon-la, causando-lhe desprazer, no 
caso de a prpria criana no se decidir a deix-la. Assim, aprendemos que o bebs executam aes que no tm outro propsito seno o de obter prazer. Acreditamos 
que elas primeiro experimentam esse prazer em conexo com a tomada do alimento, porm logo aprendem a separar esse prazer da condio que o acompanha. S podemos 
atribuir esse prazer a uma excitao das reas da boca e dos lbios; a estas partes do corpo denominamos 'zonas ergenas' e descrevemos como sexual o prazer derivado 
da suco. Sem dvida, haveremos de discutir, posteriormente, se esta descrio se justifica.
         Se um beb pudesse falar, ele indubitavelmente afirmaria que o ato de sugar o seio materno  de longe o ato mais importante de sua vida. E nisto o beb 
no se engana muito, pois nesse nico ato est satisfazendo de uma s vez as duas grandes necessidades vitais. Por isso, no nos surpreenderemos ao saber, por meio 
da psicanlise, quanta importncia psquica conserva esse ato durante toda a vida. Sugar ao seio materno  o ponto de partida de toda a vida sexual, o prottipo 
inigualvel de toda satisfao sexual ulterior, ao qual a fantasia retorna muitssimas vezes, em pocas de necessidade. Esse sugar importa em fazer o seio materno 
o primeiro objeto do instinto sexual. No posso dar-lhes idia da importante relao entre esse primeiro objeto e a escolha de todos os objetos subseqentes, dos 
profundos efeitos que ele tem em suas transformaes e substituies at mesmo nas mais remotas regies de nossa vida sexual. A princpio, contudo, o beb, em sua 
atividade de suco, abandonada esse objeto e o substitui por uma parte do seu prprio corpo. Comea a sugar o polegar ou a prpria lngua. Desse modo, torna-se 
independente do consentimento do mundo externo, no que tange  obteno de prazer, e, ademais disso, aumenta-a, acrescentando a excitao de uma segunda rea de 
seu corpo. As zonas ergenas no so todas igualmente generosas em proporcionar prazer; ocorre, pois, uma importante experincia quando o lactente, conforme relata 
Lindner, descobre, no decorrer de suas buscas, as regies especialmente excitveis representadas por seus genitais e, com isso, passa da suco  masturbao.
         Ao formarmos esta opinio referente  suco sensual, j passamos a conhecer duas caractersticas decisivas da sexualidade infantil. Ela surge ligada  
satisfao das principais necessidades orgnicas e se comporta de maneira auto-ertica - isto , procura seus objetos no prprio corpo da criana. O que ficou demonstrado 
to claramente com relao  tomada de alimentos repete-se, em parte, com as excrees. Conclumos que os bebs tm sensaes prazerosas no processo de evacuao 
da urina e das fezes, e que logo conseguem dispor destes atos de maneira que estes lhes tragam a mxima produo de prazer possvel, atravs das correspondentes 
excitaes das zonas ergenas da membrana mucosa.  aqui que, pela primeira vez (conforme sutilmente percebeu Lou Andreas-Salom [1916]), os bebs se defrontam com 
o mundo externo como fora inibidora, hostil, ao seu desejo de prazer, e tm certa anteviso dos futuros conflitos externos e internos. Um beb no deve eliminar 
suas excrees em qualquer momento de sua escolha, e sim quando outras pessoas decidem que deve faz-lo. Para induzi-lo a renunciar a essas fontes de prazer, -lhes 
dito que tudo aquilo que se relaciona com essas funes  vergonhoso e deve ser mantido em segredo. Ento, pela primeira vez, a criana  obrigada a trocar o prazer 
pela respeitabilidade social. No incio, sua atitude para com suas excrees  muito diferente. No sente repugnncia por suas fezes, valoriza-as como parte de seu 
prprio corpo, da qual no se separa facilmente, e usa-as como seu primeiro 'presente' com que distingue as pessoas a quem preza de modo especial. Mesmo depois de 
a educao ter atingido seu objetivo de tornar essas tendncias incompatveis com a criana, esta continua a atribuir elevado valor s fezes, considerando-as 'presentes' 
e 'dinheiro'. Por outro lado, parece considerar com especial orgulho a proeza de urinar.Sei que, h muito, os senhores estavam esperando para interromper-me e exclamar: 
'Chega de barbaridades! O senhor nos diz que defecar  uma fonte de satisfao sexual explorada j na infncia! que as fezes so uma substncia valiosa e que o nus 
 uma espcie de genital! Absolutamente no acreditamos nisso - mas compreendemos por que os pacientes e educadores se tm mantido  distncia da psicanlise e de 
suas descoberta.' No, senhores. Os Senhores simplesmente se esqueceram de que estive procurando apresentar-lhes os fatos da vida sexual infantil em relao aos 
fatos das perverses sexuais. Por que os senhores no haveriam de se aperceber de que, para um grande nmero de adultos, tanto homossexuais como heterossexuais, 
o nus assume, na relao sexual, o papel de vagina? E que h muitas pessoas que conservam, durante toda a vida, uma voluptuosa sensao ao defecar, e a caracterizam 
como no sendo nada desprezvel? Quanto ao interesse pelo ato de defecar e ao prazer de olhar uma outra pessoa defecando, os senhores podem conseguir que as prprias 
crianas confirmem o fato quando elas tiverem alguns anos mais de idade, e forem capazes de lhes falar a respeito. Naturalmente, os senhores no devero t-las intimidado 
sistematicamente, de antemo, pois, nesse caso, elas compreendero muito bem que devem silenciar sobre o assunto. Quando s demais coisas nas quais os senhores tanto 
desejam no acreditar, remeto-os s descobertas da anlise e  observao direta de crianas, e acrescento que realmente  necessrio ser ingnuo para no ver tudo 
isso, ou v-lo de modo diferente. E no me queixo se os senhores consideram muito surpreendente esta semelhana entre atividade sexual infantil e perverses sexuais. 
Esta semelhana, contudo,  evidente: se de fato uma criana tem vida sexual, esta no pode ser seno uma vida sexual de tipo pervertido; pois, exceto quanto a alguns 
detalhes obscuros, as crianas so desprovidas daquilo que transforma a sexualidade em funo reprodutiva. Por outro lado, o abandono da funo reprodutiva  o aspecto 
comum de todas as perverses. Realmente consideramos pervertida uma atividade sexual, quando foi abandonando o objetivo da reproduo e permanece a obteno de prazer, 
como objetivo independente. Portanto, conforme podero ver, a brecha e o ponto crtico da evoluo da vida sexual situam-se no fato de esta permanecer subordinada 
aos propsitos da reproduo. Tudo o que acontece antes dessa mudana de rumo, e igualmente tudo o que a despreza, e que visa somente a obter prazer, recebe o nome 
pouco lisonjeiro de 'pervertido', e como tal  proscrito.Permitam-me, portanto, que eu prossiga com minha breve descrio da sexualidade infantil. O que j relatei 
com referncia aos dois sistemas de rgos [digestivo e excretrio] poderia ser confirmado em relao aos outros. A vida sexual de uma criana , de fato, inteiramente 
constituda das atividades de determinado nmero de instintos parciais que, independentes uns dos outros, buscam a obteno de prazer, em parte, do prprio corpo 
do indivduo e, em parte, j de um objeto externo. Entre esses rgos muito cedo assumem relevo os genitais. Existem pessoas nas quais a obteno de prazer de seus 
prprios genitais, sem a participao de quaisquer outros genitais de algum objeto, continua ininterruptamente desde a masturbao infantil at a masturbao inevitvel 
da puberdade e persiste indefinidamente em pocas posteriores. Alis, o tema da masturbao no  um tema que se possa solucionar to facilmente:  algo que exige 
ser examinado a partir de diferentes ngulos.Embora esteja desejoso de abreviar ainda mais esta exposio, devo, no entanto, dizer-lhes algumas coisas a respeito 
das investigaes sexuais feitas por crianas: so por demais caractersticas da sexualidade infantil, e de importncia suficientemente grande para a sintomatologia 
das neuroses, para que as deixemos passar sem um exame. As investigaes sexuais das crianas comeam muito precocemente, s vezes antes do terceiro ano de vida. 
No se referem  distino entre os sexos, de vez que isto nada significa para as crianas, j que estas (ao menos quanto aos meninos) atribuem a ambos os sexos 
o mesmo genital masculino. Se, depois, um menino faz a descoberta da vagina ao ver sua irmzinha ou uma menina, companheira de brinquedos, ele procura, inicialmente, 
negar a evidncia dos seus sentidos, pois no pode imaginar uma criatura humana, como ele prprio, desprovida de uma parte to preciosa. Mais tarde, amedronta-se 
com a possibilidade que assim se lhe apresenta; e quaisquer ameaas que lhe tenham sido feitas anteriormente, porque tomou demasiado interesse por seu pequeno rgo, 
agora produzem um efeito retardado. Cai sob o domnio do complexo de castrao, assumindo uma forma que desempenhar um grande papel na construo do seu carter 
se permanecer normal, na sua neurose se adoecer, e em suas resistncias, se vier a se tratar analiticamente. No que se refere s meninas de tenra idade, podemos 
dizer que se sentem em grande desvantagem devido  sua falta de um pnis grande, visvel, que elas invejam os meninos por estes o possurem e que, principalmente 
por este motivo, desenvolvem o desejo de serem homem - desejo que torna a emergir, mais tarde, em todas as neuroses e que pode surgir se lhes ocorrer algum revs 
no desempenho do papel feminino. Ademais disso, na infncia, o clitris da menina assume inteiramente o papel de pnis: caracteriza-se por especial excitabilidade 
e se situa na rea em que  obtida a satisfao auto-ertica. O processo pelo qual uma menina se transforma em mulher depende muitssimo da possibilidade de o clitris 
ceder sua sensibilidade ao orifcio vaginal, na poca oportuna e de forma completa. Nos casos conhecidos como de anestesia sexual das mulheres, o clitris reteve 
obstinadamente sua sensibilidade.O interesse sexual das crianas comea, certamente, quando elas se voltam para o problema de saberem de onde  que vm os bebs 
- o mesmo problema subjacente  pergunta feita pela esfinge de Tebas - e na maior parte dos casos este problema surge por causa dos temores egostas da chegada de 
um novo beb. A resposta, que j est pronta e diz que os bebs so trazidos pela cegonha [ver em [1]], esbarra na descrena at mesmo de crianas pequenas, numa 
freqncia muito maior do que percebemos. O sentimento de que a verdade est sendo falseada pelos adultos contribui em muito para fazer com que as crianas se sintam 
ss e desenvolvam sua independncia. Uma criana no tem, contudo, condies de solucionar este problema por seus prprios meios. Sua constituio sexual no desenvolvida 
estabelece limites precisos  sua capacidade de percepo. Comea por supor que os bebs vm de pessoas que ingerem algo de especial no alimento, e no sabe que 
apenas as mulheres podem ter bebs. Depois percebe esta limitao e deixa de considerar o comer como sendo a origem dos bebs - embora tal teoria persista em contos 
de fadas. Com o aumento de sua idade, a criana logo percebe que seu pai deve ter algum papel nessa histria de ter bebs, mas no consegue adivinhar qual. Se ocorre 
a criana presenciar um ato sexual, encara-o como tentativa de subjugao, como luta, e isto constitui a compreenso deformada, em termos sdicos, do coito. Entretanto, 
no incio, no correlaciona este ato com o surgimento de um beb. Assim, tambm, se a criana encontra vestgios de sangue na cama da me, ou nas roupas ntimas 
desta, toma isto como sinal de que ela foi ferida por seu pai. Ainda mais tarde, na infncia, a criana sem dvida suspeita que o rgo sexual do homem tem uma parte 
essencial na produo de bebs, mas a nica funo que consegue atribuir a esse rgo do corpo  a mico.
         Bem desde o incio, as crianas so unnimes em pensar que os bebs devem nascer da barriga; devem aparecer assim como uma massa uniforme ou como as fezes. 
Esta teoria no  abandonada seno quando todos os interesses anais tivessem sido destitudos de seu valor, e  ento substituda pela hiptese de que o umbigo se 
abre ou que a rea do peito entre as mamas  o lugar em que se d o nascimento. Desse modo, a criana, no transcurso de suas investigaes, aproxima-se dos fatos 
referentes ao sexo, ou, sentindo-se embaraada devido a sua ignorncia, passa por eles at que, geralmente nos anos que precedem a puberdade, recebe uma explicao, 
via de regra incompleta e depreciativa, que, muitas vezes, produz efeitos traumticos.Sem dvida tero ouvido falar, senhores, que, na psicanlise, o conceito daquilo 
que  sexual foi indevidamente ampliado, a fim de dar suporte s teses da causao sexual das neuroses e do significado sexual dos sintomas. Agora os senhores esto 
em condies de julgar por si mesmos se essa ampliao  injustificada. Ampliamos o conceito de sexualidade apenas o bastante para podermos compreender a vida sexual 
dos pervertidos e das crianas. Isto , restitumos-lhe sua dimenso verdadeira. Fora da psicanlise, o que se denomina sexualidade refere-se apenas a uma vida sexual 
restrita, que serve ao propsito da reproduo e  descrita como normal.
         
         CONFERNCIA XXI
         O DESENVOLVIMENTO DA LIBIDO E AS ORGANIZAES SEXUAIS
         
         SENHORES:
         
         Tenho a impresso de que no alcancei xito em convenc-los muito profundamente da importncia das perverses para nossa viso da sexualidade e, portanto, 
gostaria, at onde me for possvel, de aprimorar e suplementar aquilo que disse.
         No  o caso de apenas as perverses, isoladamente, ter-nos obrigado a realizar a modificao no conceito de sexualidade que levantou tantas objees contra 
ns. O estudo da sexualidade infantil teve muito mais influncia sobre esse fato, e foi o concurso desses dois fatores que se tornou decisivo para ns. As manifestaes 
da sexualidade infantil, por mais inequvocas que possam ser num perodo ulterior da infncia, contudo parecem mergulhadas na indefinio pelos incios da infncia. 
Todo aquele que resolver desprezar a histria de sua evoluo e de seu contexto analtico, negar que elas possuem caractersticas sexuais e, em vez disso, lhes 
atribuir alguam caracterstica indiferenciada. Os senhores devem no se esquecer de que, por agora, no possumos nenhum critrio universalmente reconhecido da 
natureza sexual de um processo, salvo, novamente, uma conexo com a funo reprodutiva, que devemos rejeitar por ser um critrio demasiadamente limitado. Os critrios 
biolgicos, como os de periodicidades de vinte e trs e de vinte e oito dias, postulados por Wilhelm Fliess [1906], so ainda altamente controvertidos; as caractersticas 
qumicas do processo sexual, que podemos supor, continuam aguardando a sua descoberta. Por outro lado, as perverses sexuais dos adultos constituem algo tangvel 
e inequvoco. Como j o demonstra o nome pelo qual so universalmente conhecidas, elas so inquestionavelmente sexuais. Se descritas como indicaes de degenerao, 
ou o que quer que seja, ningum ainda teve a coragem de classific-las como algo que no sejam fenmenos da vida sexual. Apenas em virtude delas justifica-se afirmarmos 
que sexualidade e reproduo no coincidem, pois  bvio que todas as perverses negam o objetivo da reproduo. Aqui encontro um paralelo no destitudo de interesse. 
Enquanto, parra a maioria das pessoas, 'consciente' e 'psquico' so a mesma coisa, fomos obrigados a ampliar o conceito de 'psquico' e reconhecer como 'psquico' 
algo que no  'consciente'. Exatamente do mesmo modo, enquanto outras pessoas declaram serem idnticos o 'sexual' e o 'referente  reproduo' (ou, se preferem 
resumir mais, o 'genital'), no podemos evitar de postular a existncia de algo 'sexual' que no  'genital' - que no tem nenhuma relao com a reproduo. Aqui, 
a similitude  apenas formal, mas no deixa de ter um fundamento mais profundo.Se, contudo, a existncia das perverses sexuais  um argumento to decisivo nessa 
questo, por que depois de tanto tempo ainda no deu resultado e definiu a questo? Realmente, no sei dizer. Acredito que se relaciona com o fato de essas perverses 
sexuais estarem sujeitas a uma condenao muito especial, que chegou mesmo a afetar a teoria e se ops  avaliao cientfica delas.  como se ningum pudesse esquecer 
que elas no so apenas algo repulsivo, mas tambm algo monstruoso e perigoso - como se as pessoas as sentissem como sedutoras e, no fundo, tivessem de sufocar uma 
secreta inveja daqueles que as experimentam.  o caso de se lembrar a confisso feita pelo Landgraf condenador, na famosa pardia de Tannhuser:'Im Venusberg vergass 
er Ehr und Pflicht!-Merkwrdig, unser einem passiertso etwas nicht.'Na realidade, os pervertidos so, antes, uns pobres diabos, que tm de pagar extremamente caro 
pela satisfao que obtm a duras penas.O que torna a atividade dos pervertidos to inconfundivelmente sexual, por mais estranhos que sejam seus objetos e fins, 
 o fato de, via de regra, um ato de satisfao pervertida ainda assim terminar em orgasmo completo e emisso de produtos genitais. Naturalmente, s h esse resultado 
quando se trata de pessoas adultas. Em crianas, o orgasmo e a excreo genital raramente so possveis; em lugar disso, h elementos que certamente no so reconhecidos 
como sendo nitidamente sexuais.Existe algo mais que devo acrescentar a fim de completar nosso ponto de vista referente s perverses sexuais. Por mais infames que 
possam ser, por mais ntido que se faa o contraste com a atividade sexual normal, uma reflexo tranqila mostrar que um ou outro trao de perverso raramente est 
ausente da vida sexual das pessoas normais. Pode-se alegar que at mesmo um beijo seria considerado ato pervertido, de vez que consiste na juno de duas zonas ergenas 
orais em vez de dois genitais. No entanto ningum o rejeita como pervertido; pelo contrrio,  permitido, nas representaes teatrais, como velada referncia ao 
ato sexual. Mas, precisamente o beijar pode facilmente tornar-se perverso completa - ou seja, se se torna to intenso, que uma descarga genital e o orgasmo sobrevm 
diretamente, coisa nada rara. Podemos verificar, tambm, serem precondies indispensveis do prazer sexual que a pessoa sinta e veja o objeto; sabemos que a pessoa 
poder beliscar ou morder, no auge da excitao sexual, que o ponto mximo de excitao dos amantes nem sempre  provocado pelos genitais, mas por alguma outra regio 
do corpo do objeto, e numerosas outras coisas semelhantes. No faz sentido excluir da classe dos normais essas pessoas com traos isolados desse tipo e situ-las 
entre os pervertidos. Ao contrrio, reconheceremos, cada vez com maior nitidez, que a essncia das perverses no est na extenso do objetivo sexual, nem na substituio 
dos genitais, e, mesmo, nem sempre na escolha diferente do objeto, mas sim unicamente na exclusividade com a qual se efetuam esses desvios e em conseqncia dos 
quais o ato sexual a servio do objetivo de reproduo  posto de lado. Na medida em que as aes pervertidas se inserem na realizao do ato sexual normal, como 
contribuies preparatrias ou intensificadoras, no constituem, na realidade, absolutamente perverses. O abismo entre sexualidade normal e pervertida , naturalmente, 
em muito diminudo por fatos dessa espcie.  fcil concluir que a sexualidade normal surgiu de algo que existia antes dela, eliminando determinados aspectos desse 
material como inservveis e reunindo o restante a fim de subordin-lo a uma nova finalidade, a da reproduo.
         Antes de utilizarmos nosso conhecimento das perverses, para nos atirarmos novamente ao estudo da sexualidade infantil com base em premissas mais claras, 
devo chamar a ateno dos senhores para uma importante diferena entre elas. A sexualidade pervertida , via de regra, muito bem centrada: todas as suas aes se 
dirigem para um fim - geralmente um nico fim: um dos instintos componentes assumiu predominncia, e, ou  o nico instinto observvel, ou submeteu os outros a seus 
propsitos. Nesse aspecto, no h diferena alguma entre sexualidade pervertida e normal, a no ser o fato de que seus instintos componentes dominantes e, conseqentemente, 
seus fins sexuais so diferentes. Em ambas, pode-se dizer, estabeleceu-se uma bem organizada tirania, mas, em cada uma das duas, uma famlia diferente tomou as rdeas 
do poder.  sexualidade infantil, por outro lado, falando genericamente, falta essa centralizao; seus instintos componentes separados possuem iguais direitos, 
cada um dos quais seguindo seus prprios rumos na busca de prazer. Naturalmente, tanto a ausncia como a presena da centralizao harmonizam-se bem com o fato de 
que tanto a sexualidade pervertida como a normal surgiram da sexualidade infantil. Alis, tambm existem casos de sexualidade pervertida que tm uma semelhana muito 
maior com o tipo infantil, pois, nestes, numerosos instintos componentes levaram a cabo (ou, mais corretamente, persistiram em) seus fins, independentemente um dos 
outos. Em tais casos,  melhor falar em infantilismo da vida sexual, e no em perverso.
         Assim premunidos, podemos prosseguir com o exame de uma observao da qual certamente no seremos poupados. 'Por que', perguntar-nos-o, 'o senhor  to 
obstinado em descrever como j constituindo sexualidade aquilo que, segundo as evidncias que o senhor mesmo mostrou, so indefinveis manifestaes da infncia, 
a partir das quais se desenvolve posteriormente a vida sexual? Por que, em vez disso, o senhor no se contenta com dar-lhes uma descrio fisiolgica e dizer simplesmente 
que, num lactente, j observamos atividades, como a suco sensual ou a reteno das excrees, que nos mostram que ele procura o "prazer do rgo"? Dessa forma, 
o senhor teria evitado a hiptese, to repugnante para todo os sentimentos, de os bebs da mais tenra idade terem uma vida sexual.' Com efeito, senhores, no tenho 
em absoluto qualquer objeo ao prazer do rgo. Sei que mesmo o supremo prazer da unio sexual apenas  um prazer do rgo, vinculado  atividade dos genitais. 
Podem os senhores, porm, dizer quando esse prazer do rgo, originalmente indiferente, adquire o carter sexual que indubitavelmente possui em fases posteriores 
do desenvolvimento? Sobre o 'prazer do rgo' sabemos mais do que a respeito da sexualidade? Os senhores respondero que ele adquire carter sexual precisamente 
quando os genitais comeam a desempenhar seu papel; 'sexual' coincide com 'genital'. Os senhores rejeitaro at mesmo a objeo levantada pelas perverses, assinalando 
a mim que, na maioria das perverses, visa-se, afinal de contas, a um orgasmo genital, ainda que a este se chegue por outro mtodo que no o da unio dos genitais. 
Os senhores certamente estaro assumindo uma posio muito mais slida na determinao das caractersticas do sexual, se deste eliminarem a referncia  reproduo, 
que se torna indefensvel nas perverses, e, em seu lugar, colocarem a atividade genital. Mas se assim for, j no nos distanciamos para muito mais longe:  apenas 
uma questo de rgos genitais versus outros rgos. Que julgaro os senhores, entretanto, das numerosas experincias que lhes mostram poderem os genitais ser representados, 
relativamente  sua produo de prazer, por outros rgos, como no caso do beijo, ou das prticas pervertidas dos sibatibas, ou dos sintomas da histeria? Nessa neurose, 
 muito comum acontecer que os sinais de estimulao, as sensaes e as inervaes e at mesmo os processos de ereo, que pertencem propriamente aos genitais, se 
desloquem para outras regies remotas do corpo - como, por exemplo, deslocarem-se para cima, para a cabea e a face. Estando dessa forma convencidos de que no tm 
onde se apoiarem para sua caracterizao daquilo que  sexual, os senhores, sem dvida, tero de se decidir a seguir meu exemplo, e estender a descrio de 'sexual' 
tambm s atividades do incio da infncia que buscam o prazer do rgo.
         Agora, para justificao minha, existem mais duas consideraes que devo pedir para levarem em conta. Como sabem, dizemos serem sexuais as atividades imprecisas 
e indefinveis do incio da infncia, porque, no decurso da anlise, chegamos a elas a partir dos sintomas, aps examinarmos material indiscutivelmente sexual. No 
quer dizer que devam ser, por isso, necessariamente sexuais - de acordo! Tomem, porm, um caso anlogo. Suponham que no temos meios de observar o desenvolvimento, 
desde as suas sementes, de duas plantas dicotiledneas, a macieira e o feijoeiro, mas que nos seria possvel rastrear retrospectivamente o desenvolvimento de ambos, 
desde a planta inteiramente desenvolvida at o primeiro embrio com dois cotildones. Os dois cotildones tm uma aparncia neutra; so muito semelhantes em ambos 
os casos. Devo supor, ento, que sejam realmente semelhantes, e que a diferena especfica entre a macieira e o feijoeiro somente seja introduzida nas plantas mais 
tarde? Ou  biologicamente mais correto acreditar que essa diferena j est presente no embrio da planta, embora eu no possa observar qualquer distino nos cotildones? 
Ora, estamos fazendo a mesma coisa quando dizemos que  sexual o prazer obtido nas atividades do lactente. Aqui, no posso discutir se todo prazer do rgo deva 
ser chamado de sexual, ou se, alm do sexual, h um outro que no merece ser chamado assim.  muito pouco meu conhecimento a respeito de prazer do rgo e de suas 
causas; e, em vista do carter regressivo da anlise em geral, no ficarei surpreso se, bem no final, eu atingir aquilo que, por ora, so fatores indefinveis.E 
mais outra coisa! Na totalidade os senhores tero lucrado muito pouco com o que querem afirmar - a pureza sexual das crianas -, ainda que consigam convencer-me 
de que seria melhor considerar no-sexuais as atividades do lactente. A vida sexual das crianas no comportaria mais todas essas dvidas, do terceiro ano de vida 
em diante: por essa poca, aproximadamente, os genitais j comeam a excitar-se, um perodo de masturbao infantil - da satisfao genital, portanto - inicia-se, 
talvez regularmente. Os fenmenos mentais e sociais da vida sexual no necessitam mais estar ausentes; a escolha de um objeto, uma preferncia carinhosa por determinadas 
pessoas, at mesmo uma deciso a favor de um dos dois sexos, cime - tudo isso foi estabelecido por observaes imparciais, feitas independentemente da psicanlise 
e antes que esta surgisse, podendo ser confirmadas por qualquer observador que tenha o cuidado de verific-las. Os senhores objetaro que jamais duvidaram do surgimento 
precoce da afeio; apenas duvidaram se essa afeio se revestia de um carter 'sexual'.  verdade que as crianas j aprenderam a ocultar esse fato na idade entre 
trs e oito anos. Se os senhores estiverem, porm, atentos, podero, mesmo assim, reunir provas suficientes dos fins 'sensuais' dessa afeio, e tudo quanto lhes 
faltar, depois disso, podero facilmente obter em profuso nas investigaes da anlise. Os fins sexuais, nesse perodo da vida, esto intimamente relacionados com 
as investigaes sexuais que a criana, por essa poca, empreende, das quais apresentei-lhes alguns exemplos [ver em [1] e [2]]. O carter pervertido de alguns desses 
fins depende, naturalmente, da imaturidade constitucional da criana, pois esta ainda no descobriu o objetivo do ato da cpula.
         Aproximadamente do sexto ao oitavo ano de vida em diante, podemos observar uma parada e um retrocesso no desenvolvimento sexual, que, nos casos em que culturalmente 
h mais condies, podemos chamar de perodo de latncia. O perodo de latncia tambm pode estar ausente: no acarreta necessariamente qualquer interrupo da atividade 
sexual e dos interesses sexuais por toda a extenso da linha. A maior parte das experincias e dos impulsos mentais anteriores ao incio do perodo da latncia agora 
sucumbe  amnsia infantil - o esquecimento (sobre o qual j discorremos [ver em [1] e segs.]) que nos oculta nossa primeira juventude e nos torna estranhos a ela. 
Em toda psicanlise, coloca-se diante de ns a tarefa de trazer novamente  memria esse perodo esquecido da vida.  impossvel evitar a suspeita de que o despontar 
da vida sexual, que se inclui nesse perodo, tenha dado motivo a que fosse esquecido - que este esquecimento, de fato,  o resultado da represso.
         A partir do terceiro ano de vida, a vida sexual da criana mostra muita semelhana com a do adulto. Difere desta, conforme j sabemos, por lhe faltar uma 
organizao estvel sob a primazia dos genitais, por seus inevitveis traos de perverso e, tambm, naturalmente, pela intensidade muito menor de toda a tendncia 
sexual. Do ponto de vista da teoria, contudo, as fases mais interessantes do desenvolvimento sexual, ou, como diremos, do desenvolvimento libidinal, situam-se em 
poca anterior a esta. Esse curso do desenvolvimento realiza-se com tanta rapidez, que, talvez, jamais pudssemos conseguir, pela observao direta, apreender firmemente 
os seus quadros fugazes. Foi apenas com a ajuda da investigao psicanaltica das neuroses que se tornou possvel descobrir as fases ainda mais precoces do desenvolvimento 
da libido. Para dizer a verdade, estas no so seno hipteses; mas, se os senhores efetuarem a psicanlise na prtica, verificaro que so hipteses necessrias 
e teis. Em breve iro saber como sucede a patologia poder, aqui, revelar-nos a existncia de conexo que inevitavelmente deixaramos de perceber em uma pessoa normal.
         Por conseguinte, posso agora descrever-lhes a forma que toma a vida sexual da criana, antes do estabelecimento da primazia dos genitais: essa primazia 
j tem seus preparativos no primeiro perodo da infncia, prvio ao perodo de latncia, e se organiza, permanentemente, da puberdade em diante. Uma espcie de organizao 
frouxa, que pode ser chamada 'pr-genital', existe durante esse perodo inicial. Durante essa fase, o que est em primeiro plano no so os instintos componentes 
genitais, mas os sdicos e anais. O contraste entre 'masculino' e 'feminino' ainda no desempenha, aqui, nenhum papel. Em lugar disso, o contraste se estabelece 
entre 'ativo' e 'passivo', que pode ser descrito como precursor da polaridade sexual e que, da em diante, se solda a essa polaridade. O que se nos apresenta como 
masculino, nas atividades dessa fase, quando o consideramos do ponto de vista da fase genital, vem a ser expresso de um instinto de domnio que facilmente pode 
transformar-se em crueldade. As tendncias que visam a um fim passivo vinculam-se  zona ergena do orifcio anal, que  muito importante nesse perodo. Os instintos 
de olhar e de adquirir conhecimento [instintos escopoflico e epistemolgico] esto funcionando poderosamente; os genitais realmente desempenham seu papel na vida 
sexual apenas como rgos de excreo da urina. Os instintos componentes parciais dessa fase no existem sem objetos, mas esses objetos no convergem necessariamente 
em um nico objeto. A organizao sdico-anal  o precursor imediato da fase de primazia genital. Um estudo detalhado mostra quanto dele se mantm na forma definitiva 
e ulterior das coisas, e, tambm, revela a forma em que seus instintos parciais so compelidos a tomar seu lugar na nova organizao genital. Anterior  fase sdico-anal 
do desenvolvimento libidinal, podemos divisar um estdio de organizao ainda mais precoce e primitivo, no qual a zona ergena da boca desempenha o papel principal. 
Como podem perceber, a atividade sexual da suco [ver em [1] e [2]] pertence a esse estdio. Devemos admirar a compreenso dos antigos egpcios que, na sua arte, 
representavam as crianas, inclusive o deus Hrus, com um dedo na boca. Apenas recentemente, Abraham [1916] deu exemplo dos vestgios que essa fase oral primitiva 
deixa aps si na vida sexual posterior.
         Facilmente posso supor, senhores, que essa ltima descrio das organizaes sexuais serviu mais para confundi-los do que para instru-los, e pode ser que 
mais uma vez eu tenha entrado em demasiados detalhes. Os senhores devem, contudo, ter pacincia. O que acabaram de ouvir lhes ser de grande valor a partir de suas 
ulteriores aplicaes. Por agora, devem reter firme em mente que a vida sexual (ou, conforme dizemos, a funo libidinal) no emerge como algo pronto e nem tem seu 
desenvolvimento ulterior ditado pelo seu prprio aspecto inicial, mas passa por uma srie de fases sucessivas que no se parecem entre si; sua evoluo repete-se, 
portanto, vrias vezes - como o da lagarta em borboleta. O ponto crtico desse desenvolvimento  a subordinao de todos os instintos parciais  primazia dos genitais 
e, com isso, a sujeio da sexualidade  funo reprodutiva. A esta precede uma vida sexual que poderia ser descrita como anrquica - a atividade independente dos 
diferentes instintos parciais buscando o prazer do rgo. Tal anarquia  mitigada por incios infrutferos de organizaes 'pr-genitais' - uma fase sdico-anal 
precedida por uma fase oral que , talvez, a mais primitiva. Ademais, existem os processos variados, ainda incompletamente conhecidos, que levam um estdio de organizao 
ao estdio subseqente, mais elevado. Posteriormente saberemos quo importantes so os esclarecimentos que se obtm, a respeito das neuroses, com o fato de a libido 
passar atravs de um percurso evolutivo to longo e sujeito a tantas interrupes.
          Hoje, seguiremos um outro aspecto desse desenvolvimento - isto , a relao entre os instintos sexuais parciais e seu objeto. Ou melhor, faremos um rpido 
apanhado dessa evoluo e nos deteremos um pouco mais em uma de suas conseqncias relativamente tardias. Alguns dos componentes do instinto sexual tm, portanto, 
desde o incio, um objeto e aderem a este - por exemplo o instinto de domnio (sadismo) e os instintos escopoflico e epistemolgico. Outros, mais definidamente 
vinculados a determinadas zonas ergenas do corpo, tm, inicialmente, apenas um objeto, enquanto estiverem ainda ligados s funes no-sexuais [ver em [1], acima], 
e o abandonam quando se separam dessas funes no-sexuais. Assim, o primeiro objeto do componente oral do instinto sexual  o seio materno, que satisfaz a necessidade 
de alimento do beb. O componente ertico, que  satisfeito simultaneamente durante a suco [nutricional], torna-se independente com o ato da suco sensual [lutschen]; 
abandona o objeto externo e o substitui por uma rea do corpo do prprio beb. O instinto oral torna-se auto-ertico, como o so, no incio, os instintos anais e 
outros instintos ergenos. O desenvolvimento subseqente, para dar ao assunto toda a conciso possvel, tem dois objetivos: primeiro, o abandono do auto-erotismo, 
logo, a substituio do corpo da prpria criana por um objeto externo; e, em segundo lugar, a unificao dos diversos objetos dos instintos separados e sua substituio 
por um nico objeto. Naturalmente isto s pode ser realizado se o objeto, de novo, for um corpo total, semelhante ao do prprio sujeito. E no pode ser efetuado, 
a menos que alguns impulsos instintuais auto-erticos sejam abandonados como inservveis.
         Os processos referentes ao encontro de um objeto so muito complexos, e at agora ainda no se fez nenhuma descrio completa dos mesmos. Para nossos propsitos, 
pode-se assinalar especialmente que, nos anos da infncia anteriores  puberdade, quando o processo atingiu alguma definio, o objeto encontrado vem a ser quase 
idntico ao primeiro objeto do instinto de prazer oral, que foi obtido por ligao [ao instinto nutricional]. Embora esse objeto no seja realmente o seio materno, 
pelo menos  a me. Dizemos que a me  o primeiro objeto de amor. Pois falamos em amor quando trazemos para o primeiro plano o lado mental da tendncias sexuais 
e quando queremos repelir as exigncias instintuais 'sensuais' ou fsicas subjacentes, ou esquec-las no momento. Na poca em que a me se torna o objeto de amor 
da criana, nesta o trabalho psquico da represso j comeou, trabalho que consiste em uma parte dos fins sexuais subtrair-se ao conhecimento consciente. A essa 
escolha que a criana faz, ao tornar sua me o primeiro objeto de seu amor, vincula-se tudo aquilo que, sob o nome de 'complexo de dipo', veio a ter tanta importncia 
na explicao psicanaltica das neuroses e tem tido uma parte no menor, talvez, na resistncia  psicanlise (ver em [1]).
         Ouam este episdio ocorrido no transcurso da guerra atual. Um dos bravos discpulos da psicanlise foi designado oficial mdico no front alemo, em algum 
lugar da Polnia. Ele chamou a ateno de seus colegas pelo fato de, ocasionalmente, exercer inesperada influncia sobre algum paciente. Indagado a respeito, reconheceu 
que estava empregando os mtodos da psicanlise e declarou-se disposto a transmitir seu conhecimento a seus colegas. Depois disso, todas as noites os oficiais mdicos 
da tropa, seus colegas e superiores, reuniam-se a fim de aprender as doutrinas secretas da anlise. Tudo correu bem, durante algum tempo; quando, porm, falou ao 
seu auditrio a respeito do complexo de dipo, um de seus superiores levantou-se, declarou que no acreditava nisso, que constitua um ato vil, por parte do conferencista, 
falar-lhes a respeito de tais coisas, a homens honestos que estavam lutando por seu pas e que eram pais de famlia; e que proibia a continuao das conferncias. 
Este foi o final do caso. O analista viu-se transferido para outra parte do front. Parece-me mau, entretanto, se uma vitria alemo exige que a cincia se 'organize' 
dessa maneira, e a cincia alem no reagir bem a uma organizao dessa espcie.
         E, agora, os senhores estaro vidos por ouvir o que esse terrvel complexo de dipo contm. Seu nome o diz. Todos os senhores conhecem a lenda grega do 
rei dipo, fadado pelo destino a matar seu pai e a desposar sua me, que fez todo o possvel para escapar  deciso do orculo e puniu-se a si prprio cegando-se, 
ao saber que, apesar de tudo, havia, sem querer, cometido ambos os crimes. Suponho que muito dos senhores devem ter sentido o efeito avassalador da tragdia em que 
Sfocles abordou essa histria. A obra do dramaturgo atenienese mostra a maneira como o feito de dipo, realizado num passado j remoto,  gradualmente trazido  
luz por uma investigao engenhosamente prolongada e restitudo  vida por meio de sempre novas sries de provas. Nesse aspecto, tem certa semelhana com o progresso 
de uma psicanlise. No decorrer do dilogo, Jocasta, a iludida me e esposa, declara-se contrria  continuao da investigao. Apela para o fato de que muitas 
pessoas sonharam com dormir com a prpria me, mas que os sonhos devem ser menosprezados. No menosprezamos os sonhos - muito menos os sonhos tpicos que muitas 
pessoas sonham; e no duvidamos que o sonho a que Jocasta se referia tem ntima conexo com o estranho e terrvel contedo da lenda. Uma coisa surpreendente  que 
a tragdia de Sfocles no suscita um repdio indignado na platia - uma reao semelhante  do nosso sincero mdico militar, contudo muito mais justificada. Basicamente, 
trata-se, pois, de uma obra amoral: absolve os homens de responsabilidade moral, mostra os deuses como promotores do crime e demonstra a importncia dos impulsos 
morais dos homens que lutam contra o crime. Facilmente poder-se-ia supor que o contedo da lenda tivesse em vista incriminar os deuses e o destino; e , nas mos 
de Eurpides, crtico e inimigo dos deuses, provavelmente ter-se-ia tornado uma incriminao. Com o devoto Sfocles, todavia, no h lugar para uma aplicao dessa 
espcie. A dificuldade ento  superada atravs do piedoso sofisma segundo o qual submeter-se  vontade dos deuses constitui a mais elevada moralidade, mesmo quando 
isto conduza ao crime. No consigo pensar que essa moralidade seja um ponto forte na pea; alis, no tem nenhuma influncia em seu efeito. No  a ela que o expectador 
reage, mas ao sentido e ao contedo secreto da lenda. Reage como se, por auto-anlise, tivesse reconhecido o complexo de dipo em si prprio e desvendado a vontade 
dos deuses e do orculo como disfarces enaltecidos de seu prprio inconsciente.  como se fosse obrigado a recordar os dois desejos - eliminar o pai e, em lugar 
deste, desposar a me - e horrorizar-se com esses mesmos desejos. E o espectador compreende as palavras do dramaturgo, como se elas fossem dirigidas a ele: 'Tu ests 
lutando em vo contra a tua responsabilidade, e ests declarando em vo o que fizeste em oposio a essas intenes criminosas. s culpado por no teres conseguido 
destru-las; elas ainda persistem em ti, inconscientemente.' E existe verdade psicolgica encerrada nessa frase. Conquanto um homem tenha reprimido seus maus impulsos 
para dentro do inconsciente e prefira dizer a si mesmo, posteriormente, que no  responsvel por eles, ele, no obstante, tem de reconhecer essa responsabilidade 
na forma de um sentimento de culpa cuja origem lhe  desconhecida.No pode haver dvida de que o complexo de dipo pode ser considerado uma das mais importantes 
fontes do sentimento de culpa com que to freqentemente se atormentam os neurticos. E mais do que isso: em um estudo sobre o incio da religio e da moralidade 
humanas, que publiquei em 1913 sob o ttulo de Totem e Tabu [Freud, 1912-13], apresentei a hiptese de que a humanidade como um todo pode ter adquirido seu sentimento 
de culpa, a origem primeira da religio e da moralidade, no comeo de sua histria, em conexo com o complexo de dipo. Eu teria muita satisfao em dizer-lhes mais 
a esse respeito, prefiro, porm, deix-lo de lado. Sempre que se comea com esse assunto,  difcil interromper; devemos, contudo, retornar  psicologia individual.
         O que, ento, se pode reunir acerca de complexo de dipo, a partir da observao direta das crianas, na poca em que fazem sua escolha de um objeto, antes 
do perodo de latncia? Pois bem,  fcil verificar que o homenzinho quer ter sua me toda para si mesmo, que sente a presena de seu pai como um estorvo, que fica 
ressentido quando o pai dispensa qualquer sinal de afeio  me, e que mostra satisfao quando o pai saiu de viagem ou est ausente. Amide expressar seus sentimentos 
diretamente em palavras e prometer  sua me casar com ela. Pensar-se- que isto assume propores modestas, se comparando com os feitos de dipo; na realidade, 
porm, , nada mais nada menos, basicamente a mesma coisa. A observao  freqentemente obscurecida pela circunstncia de, em outras ocasies, a prpria criana 
dar mostras de grande afeio pelo pai. Atitudes emocionais contrrias - ou, seria melhor dizer, 'ambivalentes' - que, em adultos, conduziriam a um conflito, permanecem, 
porm, compatveis uma com a outra, por longo tempo, nas crianas, como tambm, mais tarde, encontram um lugar permanente, lado a lado, no inconsciente. Do mesmo 
modo, haver-se- de objetar que a conduta do menino origina-se em motivos egosticos e no oferece base para se postular um complexo ertico: a me satisfaz todas 
as necessidades da criana, de modo que esta tem interesse em evitar que ela venha a dispensar cuidados a uma outra pessoa. Esse fato tambm  procedente; mas, logo 
tornar-se- claro que, nessa situao, como em outras semelhantes, o interesse egostico simplesmente oferece um ponto de apoio ao qual a tendncia ertica se vincula. 
O menino pode mostrar a mais indisfarada curiosidade sexual para com sua me, pode insistir em dormir ao seu lado,  noite, pode impor sua presena, junto a ela 
quando ela est se vestindo, ou, mesmo fazer tentativas reais de seduzi-la, conforme sua me divertidamente perceber e relatar - tudo isso demonstra inequivocamente 
a natureza ertica de sua ligao com a me. E no se deve esquecer que a me dedica a mesma ateno  sua filhinha, sem produzir igual resultado, e que seu pai 
amide compete com a me em proporcionar cuidados ao menino, e, no entanto, no lhe  atribuda a mesma importncia que a ela. Em resumo, no existe crtica que 
possa eliminar dessa situao o fator da preferncia sexual. Do ponto de vista do interesse egostico, seria simplesmente uma tolice o homenzinho no preferir suportar 
o fato de ter duas pessoas a seu servio, a ter apenas uma delas.Como vem, descrevi-lhes apenas a relao de um menino para com seu pai e sua me. As coisas se 
passam de modo exatamente igual com as meninas, com as devidas modificaes: uma afetuosa ligao com o pai, uma necessidade de eliminar a me, por julg-la suprflua, 
e de tomar-lhe o lugar, um coquetismo que j utiliza os mtodos da futura feminilidade - tudo isso oferece um quadro encantador, especialmente em meninas, o que 
nos faz esquecer as conseqncias possivelmente graves que se escondem nessa situao infantil. No devemos deixar de acrescentar que os prprios pais freqentemente 
exercem uma influncia decisiva no despertar da atitude edipiana da criana, ao cederem ao empuxo da atrao sexual, e que, onde houver diversas crianas, o pai 
dar definidas provas de sua maior afeio por sua filhinha e a me, por seu filho. Mas a natureza espontnea do complexo de dipo nas crianas no pode ser seriamente 
abalada at mesmo por esse fator.Quando outras crianas aparecem em cena, o complexo de dipo avoluma-se em um complexo de famlia. Este, com novo apoio obtido a 
partir do sentimento egostico de haver sido prejudicado, d fundamento a que os novos irmos e irms sejam recebidos com averso, e faz com que, sem hesitaes, 
sejam, em desejos, eliminados. Tambm  verdade que, via de regra, as crianas so muito mais capazes de expressar verbalmentes esses sentimentos de dio, do que 
aqueles decorrentes do complexo parental. Se um desejo desse tipo se realiza, e se o irmo que se acrescentou  famlia desaparece novamente, logo depois, devido 
 sua morte, podemos descobrir, numa anlise subseqente, quo importante foi para a criana essa experincia referente  morte, embora ela no tenha necessariamente 
permanecido fixada em sua memria. Uma criana que tenha sido posta em segundo lugar pelo nascimento de um irmo ou irm, e que agora, pela primeira vez,  quase 
isolada de sua me, no perdoa a esta, com facilidade, sua perda de lugar; sentimentos que, em um adulto, seriam descritos como de intenso ressentimento, surgem 
na criana e freqentemente constituem a base de permanente desavena. J mencionamos [ver em [1]] que as investigaes sexuais da criana, com todas as suas conseqncias, 
geralmente se originam dessa experincia vital sua.  medida que esses irmos e irms crescem, a atitude do menino para com eles sofre transformaes muito significativas. 
Pode tomar sua irm como objeto de amor,  maneira de substituta da me infiel. Onde h diversos irmos, todos cortejando uma irm mais nova, surgem, j na poca 
infantil, situaes de rivalidade hostil que so to importantes, na vida, mais tarde. Uma menina pode encontrar em seu irmo, mais velho, um substituto para seu 
pai, que no mantm mais um interesse afetuoso por ela como o fazia em anos anteriores. Ou pode tomar uma irm mais nova como substituta da criana que ela, em vo, 
desejou ter de seu pai.
         Isto e muito mais de natureza semelhante ser-lhe- demonstrado pela observao direta de crianas e pelo exame de recordaes nitidamente retidas desde 
a infncia, no influenciadas pela anlise. Disto os senhores concluiro, entre outras coisas, que a posio que uma criana ocupa na seqncia da famlia  fator 
de extrema importncia na determinao da forma de sua vida posterior, e deve merecer considerao em toda anamnese. Mas, o que  mais importante, em vista dessas 
informaes, que podem ser obtidas to facilmente: os senhores no podero recordar sem um sorriso os pronunciamentos da cincia ao explicar a proibio do incesto. 
[Cf. pg. 211, acima.] No tem fim o que j se inventou sobre o assunto. Tem sido dito que a tendncia sexual  desviada de membros da mesma famlia pertencentes 
ao sexo oposto, pelo fato de terem vivido juntos desde a infncia; ou ainda, que um propsito biolgico de evitar a consanginidade  representado psiquicamente 
por um inato horror ao incesto. Nisso tudo, deixa-se de atentar para o fato de que uma proibio to peremptria no seria necessria nas leis e nos costumes, se 
houvesse barreiras naturais seguras contra a tentao do incesto. A verdade  justamente o oposto. A primeira escolha objetal de um ser humano  regularmente incestuosa, 
dirigida, no caso do homem,  sua me e  sua irm; e necessita das mais severas proibies para impedir que essa tendncia infantil persistente se realize. Entre 
raas primitivas viventes ainda nos dias atuais, entre selvagens, as proibies contra o incesto so ainda muito mais estritas do que entre ns, e Theodor Reik, 
ainda recentemente, num brilhante trabalho [Reik, 1915-16] demonstrou que os ritos da puberdade dos selvagens, que representam um renascimento, tm o sentido de 
liberar o menino de seus laos incestuosos com sua me e de reconcili-lo com seu pai.A mitologia lhes ensinar que o incesto que se pensa ser to rechaado pelos 
seres humanos,  inequivocamente permitido aos deuses. E, na histria antiga, podem constatar que o casamento incestuoso com a irm era um preceito santificado imposto 
 pessoa do soberano (entre os faras egpcios e os incas do Peru). O que estava em jogo, portanto, era um privilgio proibido ao homem comum.
         Um dos crimes de dipo foi o incesto com a me, o outro foi o parricdio. Pode-se observar, de passagem, que estes so tambm os dois grandes crimes proscritos 
pelo totemismo, a primeira instituio social-religiosa da humanidade.Retornemos, agora, da observao direta das crianas ao exame analtico dos adultos que se 
tornaram neurticos. Que ajuda nos proporciona a anlise para um melhor conhecimento do complexo de dipo? Isto pode ser respondido numa palavra. A anlise confirma 
tudo o que a lenda descreve. Mostra que cada um desses neurticos tambm tem sido um dipo, ou, o que vem a dar no mesmo, como reao ao complexo, tornou-se um Hamlet. 
A explicao analtica do complexo de dipo , naturalmente, uma ampliao e uma verso mais crua do esboo infantil. O dio ao pai, os desejos de morte contra ele, 
j no so mais insinuados timidamente, a afeio pela me admite que seu objetivo  possu-la como mulher. Devemos realmente atribuir esses impulsos emocionais 
turbulentos e externos aos tenros anos da infncia, ou ser que a anlise nos engana com a mistura de algum fator novo? No  difcil achar um desses fatores. Sempre 
que algum faz um relato de um acontecimento passado, ainda que seja um historiador, devemos ter em mente o que  que ele intencionalmente faz recuar do presente, 
ou de alguma poca intermediria, para o passado, falsificando, com isso, o seu quadro referente ao fato. No caso de um neurtico, at mesmo surge a questo de saber 
se esse recuar para o passado  totalmente no-intencional; de ora em diante, teremos de descobrir as razes disso, e teremos de, no geral, considerar atentamente 
o fato do 'fantasiar retrospectivo'. Facilmente podemos verificar tambm que o dio ao pai  reforado por diversos fatores que surgem de pocas e circunstncias 
posteriores, e que os desejos sexuais dirigidos  me assumem formas tais, que devem ter sido estranhos at mesmo para uma criana. Entretanto, seria um esforo 
vo procurar explicar a totalidade do complexo de dipo atravs do fantasiar retrospectivo e vincul-la a pocas posteriores. Seu ncleo infantil e, no geral, seus 
aspectos acessrios permanecem do modo como foram confirmados pela observao direta de crianas.O fato clnico que se nos apresenta sob a forma do complexo de dipo, 
tal como  estabelecido pela anlise,  da mais alta significao prtica. Constatamos que, na puberdade, quando os instintos sexuais, pela primeira vez, fazem suas 
exigncias com toda a sua fora, os velhos objetos incestuosos familiares so retomados mais uma vez e novamente catexizados com a libido. A escolha objetal infantil 
era apenas uma escolha dbil, mas j era um comeo que indicava a direo para a escolha objetal na puberdade. Nesse ponto, desenrolam-se, assim, processos emocionais 
muito intensos que seguem a direo do complexo de dipo ou reagem contra ele, processos que, entretanto, de vez que suas premissas se tornaram intolerveis, devem, 
em larga escala, permanecer apartados da conscincia. Dessa poca em diante, o indivduo humano tem de se dedicar  grande tarefa de desvincular-se de seus pais 
e, enquanto essa tarefa no for cumprida, ele no no pode deixar de ser uma criana para se tornar membro da comunidade social. Para o filho, essa tarefa consiste 
em desligar seus desejos libidinais de sua me e empreg-los na escolha de um objeto amoroso real externo e em reconciliar-se com o pai, se permaneceu em oposio 
a este, ou em liberar-se da presso deste, se, como reao  sua rebeldia infantil, tornou-se subserviente a ele. Essas tarefas so propostas a todas as pessoas; 
e  de causar espcie quo raramente as pessoas enfrentam tais tarefas de maneira ideal - isto , de maneira tal que seja correta, tanto psicolgica como socialmente. 
Os neurticos, porm, no chegam absolutamente a nenhuma soluo: o filho permanece por toda a vida subjugado  autoridade do pai e  incapaz de transferir sua libido 
a um objeto sexual externo. Com o relacionamento modificado, o mesmo destino pode esperar a filha. Nesse sentido, o complexo de dipo justificadamente pode ser considerado 
como o ncleo das neuroses.
         Conforme podem imaginar, senhores, passei em revista, muito rapidamente, grande nmero de consideraes de importncia prtica e teoria relacionadas com 
o complexo de dipo. E no adentrarei suas variaes e suas possveis inverses. Entre suas conexes mais remotas, apenas mencionarei para os senhores um detalhe 
que gerou um efeito de alta importncia na produo literria. Em um valioso trabalho, Otto Rank [1912b] mostrou que os dramaturgos de todos os tempos escolheram 
o seu material, geralmente, a partir do complexo de dipo e do incesto, bem como das suas variaes e disfarces. E no se deve deixar passar despercebido que os 
dois desejos criminosos do complexo de dipo foram reconhecidos como os verdadeiros representantes da vida irrestrita dos instintos, muito antes da poca da psicanlise. 
Entre os escritos do enciclopedista Diderot, os senhores encontraro um dilogo notvel, le neveu de Rameau, que foi traduzido para o alemo por uma pessoa do porte 
de Goethe. Ali os senhores podem ler esta frase extraordinria: 'Si le petit sauvage tait abandonn  lui-mme, qu'il conservt toute son imbcillit, et qu'il 
runt au peu de raison de l'enfant au berceau la violence des passions de l'homme de trente ans, il tordrait le col  son pre et coucherait avec sa mre.'Existe, 
porm, algo mais, que no posso omitir. No se deve permitir que reste infrutfera a advertncia referente aos sonhos, que nos faz a me e esposa de dipo. Recordam-se 
os senhores do resultado de nossas anlises de sonhos - como os desejos que formam os sonhos so to freqentemente de natureza pervertida ou incestuosa, ou revelam 
uma insuspeitada hostilidade para com aqueles que so mais chegados e mais caros ao sonhador? Naquela ocasio [ver em [1] e [2]] no demos nenhuma explicao da 
origem desses impulsos maus. Agora os senhores mesmos podem encontr-la. So arranjos da libido e das catexias objetais que datam do incio da infncia e que, desde 
ento, foram abandonadas no que respeita  vida consciente, mas que provam estar ainda presentes, no perodo noturno, e ser capazes de funcionar em certo sentido. 
No entanto, de vez que todos, e no apenas os neurticos, experimentam esses sonhos pervertidos, incestuosos e assassinos, podemos concluir que as pessoas que so 
normais, atualmente, percorreram um caminho evolutivo que passou pelas perverses e catexias objetais do complexo de dipo, que este  o caminho do desenvolvimento 
normal e que os neurticos simplesmente nos mostram, de forma ampliada e grosseira, aquilo que a anlise dos sonhos nos revela tambm em pessoas sadias. E esta  
uma das razes por que abordei o estudo dos sonhos antes do estudo dos sintomas neurticos.
         
         CONFERNCIA XXII
         ALGUMAS IDIAS SOBRE DESENVOLVIMENTO E REGRESSO - ETIOLOGIA
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Ouviram dizer que a funo libidinal sofre uma prolongada evoluo, at que possa, segundo o que se descreve como forma normal, ser posta a servio da reproduo. 
Gostaria de atrair sua ateno, agora, para a importncia desse fato na causao das neuroses.
         Penso que estamos de acordo com as teorias da patologia geral ao supormos que um desenvolvimento dessa espcie envolve dois perigos: primeiro, de inibio, 
e, segundo, de regresso. Isto , em vista da tendncia geral dos processos biolgicos  variao, no h como fugir ao fato de que nem todas as fases preparatrias 
so ultrapassadas com igual xito e superadas completamente: partes da funo sero retidas permanentemente nesses estdios iniciais e o quadro total do desenvolvimento 
ser limitado por determinada quantidade de inibio de desenvolvimento.
         Procuremos algumas analogias com esses processos em outras reas de conhecimento. Quando, conforme tantas vezes aconteceu nos perodos iniciais da histria 
do homem, um povo inteiro abandonou seu local de morada e procurou um novo, podemos ter a certeza de que nem todos os indivduos desse povo chegaram  nova localidade. 
Afora outras perdas, deve ter acontecido, regularmente, que pequenos grupos ou bandos de migrantes pararam no caminho e se fixaram nesses locais de parada, enquanto 
o grosso da massa prosseguia adiante. Ou, conforme  do conhecimento dos senhores, voltando a uma comparao mais prxima, nos mamferos superiores as glndulas 
sexuais masculinas, que inicialmente se situam profundamente na cavidade abdominal, iniciam uma migrao, em determinado estdio da vida intra-uterina, que as traz 
quase diretamente sob a pele da extremidade plvica. Em conseqncia dessa migrao, constatamos, em alguns indivduos masculinos, que um desses rgos pares ficou 
para trs, dentro da cavidade plvica, ou que ficou alojado permanentemente dentro do que se conhece como canal inguinal, atravs do qual ambos os rgos devem passar 
no decurso de sua migrao; ou, pelo menos, que esse canal permaneceu aberto, embora normalmente devesse fechar-se aps as glndulas haverem completado sua mudana 
de localizao. Uma vez, quando eu era um jovem estudante, dediquei-me, sob a direo de von Brcke, a meu primeiro trabalho cientfico e interessei-me pela origem 
das razes nervosas posteriores da medula espinal de um pequeno peixe de estrutura muito primitiva; constatei que as fibras nervosas dessas razes tinham sua origem 
em clulas grandes do corno posterior da substncia cinzenta, o que j no acontece mais com outros vertebrados. Mas tambm descobri, logo depois, que clulas nervosas 
desse tipo esto presentes fora da substncia cinzenta, por toda a extenso do chamado gnglio espinal da raiz posterior; e desse fato conclu que as clulas dessas 
massas ganglionares migraram da medula espinal ao longo das razes dos nervos. Isto tambm  demonstrado pela sua histria evolutiva. Nesse pequeno peixe, porm, 
todo o percurso de sua migrao foi demonstrado pelas clulas que ficaram para trs.Se os senhores se aprofundarem mais no assunto, no tero dificuldade em detectar 
os pontos fracos dessas comparaes. Portanto, declaro, sem mais delongas, que, no caso de cada uma das tendncias sexuais, considero possvel que algumas partes 
das mesmas tenham ficado para trs, em estdios anteriores de seu desenvolvimento, embora outras partes possam ter atingido o objeto final. Aqui os senhores reconhecero 
que estamos delineando cada uma dessas tendncias como uma corrente que tem sido contnua desde o comeo da vida, a qual, porm, dividimos, em certa medida artificialmente, 
em sucessivos avanos separados. Justifica-se a sua impresso de que essas idias necessitam de maior esclarecimento; contudo, ao tent-lo, afastar-nos-amos demais 
do tema. Permitam-me ainda esclarecer que nos propomos descrever o retardamento de uma tendncia parcial num estdio anterior como sendo uma fixao - isto , uma 
fixao do instinto.O segundo perigo em um desenvolvimento por etapas desse tipo reside no fato de que as partes que prosseguiram adiante podem tambm, com facilidade, 
retornar retrocessivamente a um desses estdios precedentes - o que descrevemos como regresso. A tendncia ver-se- conduzida a uma regresso desse tipo, se o exerccio 
de sua funo - isto , a obteno do seu objetivo de satisfao - depara, em sua forma posterior ou mais altamente desenvolvida, com poderosos obstculos externos. 
 plausvel supor que a fixao e a regresso no sejam independentes uma da outra. Quanto mais intensas as fixaes em seu rumo ao desenvolvimento, mais prontamente 
a funo fugir s dificuldades externas, regressando s fixaes - portanto, mais incapaz se revela a funo desenvolvida de resistir aos obstculos externos situados 
em seu caminho. Considerem que, se um povo em migrao deixou atrs de si fortes destacamentos nos locais de parada de seu deslocamento,  provvel que os escales 
mais avanados tendero a se retirar para esses locais de parada quando forem derrotados ou quando se defrontarem com um inimigo superior. Mas, tambm estaro em 
maior perigo de serem derrotadas, quanto maior for o nmero deles, que ficou para trs na migrao.
         Para compreenderem as neuroses,  importante no perderem de vista essa relao entre fixao e regresso. Isto lhes dar maior segurana ao enfrentarem 
a questo da formao das neuroses - a questo da etiologia das neuroses, que em breve haveremos de abordar.
         No momento atual, deter-nos-emos um pouco mais na regresso. Aps essas coisas que os senhores aprenderam a respeito do desenvolvimento da funo libidinal, 
estaro preparados para saber que h regresso de dois tipos: um retorno aos objetos que inicialmente foram catexizados pela libido, os quais, conforme sabemos, 
so de natureza incestuosa; e um retorno da organizao sexual como um todo a estdios anteriores. Ambos os tipos de regresso so encontrados nas neuroses de transferncia 
[ver em [1]] e desempenham importante papel no seu mecanismo. Particularmente, um retorno aos primeiros objetos incestuosos da libido  um aspecto que se encontra 
nos neurticos com regularidade realmente fatigante. H muito mais coisas a dizer acerca das regresses da libido, quando levamos em considerao tambm outros grupos 
de neuroses, as narcsicas, que, por ora, no pretendemos abordar. Esses distrbios do-nos acesso a outros processos de desenvolvimento da funo libidinal que 
ainda no mencionamos, e nos mostram, por conseguinte, ainda outras formas de regresso. Acima de tudo, penso, todavia, que devo adverti-los para no confundirem 
regresso com represso e ajud-los a formar uma idia clara das relaes entre os dois processos. A represso, como se recordam [ver em [1] e segs],  o processo 
pelo qual um ato admissvel  conscincia, portanto um ato que pertence ao sistema Pcs.,  tornado inconsciente -  repelido para dentro do sistema Ics. E igualmente 
falamos em regresso se o ato mental inconsciente  de todo impedido de ter acesso ao vizinho sistema pr-consciente e  repelido, no limiar, pela censura. Assim, 
o conceito de represso no implica nenhuma relao com a sexualidade: devo pedir-lhes que tomem especial nota disto. Indica um processo puramente psicolgico, que 
podemos caracterizar mais bem ainda se o denominarmos processo 'topogrfico'. Com isso queremos dizer que represso diz respeito s regies psquicas que supomos 
existirem ou, se abandonamos essa desajeitada hiptese de trabalho,  construo do aparelho mental a partir dos diferentes sistemas psquicos.
         A comparao que propusemos chamou nossa ateno, pela primeira vez, para o fato de que at ento no estivemos usando a palavra 'regresso' em seu sentido 
geral, mas sim em um sentido muito especial. Se lhe damos um sentido geral - o de um retorno desde um nvel de desenvolvimento mais elevado para um nvel inferior 
- ento a represso tambm pode ser enquadrada no conceito de regresso, de vez que tambm a represso pode ser descrita como um retorno a um estdio anterior e 
mais profundo na evoluo de um ato psquico. No caso da represso, porm, esse movimento retrocessivo no nos interessa, j que falamos tambm em represso, no 
sentido dinmico, quando um ato psquico  detido no estdio inferior, inconsciente. O fato  ser a represso um conceito topogrfico-dinmico, ao passo que a regresso 
 um conceito puramente descritivo. O que at agora tratamos como regresso, entretanto, e temos relacionado  fixao, significou exclusivamente um retorno da libido 
a anteriores pontos de interrupo de seu desenvolvimento - isto , algo inteiramente diferente, em sua natureza, da represso, e inteiramente independente desta. 
E no podemos chamar de regresso da libido um processo puramente psquico, nem podemos dizer onde deveramos localiz-lo no aparelho mental. E, embora seja verdade 
que ele exerce a mais poderosa influncia sobre a vida mental, o fator mais importante nele  o fator orgnico.Senhores, exposies como esta esto fadadas a se 
tornarem um tanto ridas. Voltemos, pois, ao material clnico, a fim de encontrarmos aplicaes que sero mais interessantes. Como sabem, a histeria e a neurose 
obsessiva so as duas principais representantes do grupo das neuroses de transferncia. Ora,  verdade que, na histeria, opera-se uma regresso da libido aos primitivos 
objetos sexuais incestuosos e que isto ocorre muito regularmente; contudo, no existe, a bem dizer, nenhuma regresso a um estdio anterior da organizao sexual. 
Para contrabalanar isso, a parte principal do mecanismo da histeria  desempenhada pela represso. Se pudesse aventurar-me a completar aquilo que j temos por certo 
a respeito dessa neurose, fazendo alguma hiptese, tentaria explicar a situao da seguinte maneira. A unificao dos instintos parciais sob a primazia dos genitais 
foi conseguida; seus resultados, porm, se defrontam com a resistncia do sistema pr-consciente que se vincula com a conscincia. Assim, a organizao genital  
vlida para o inconsciente, mas no da mesma forma para o pr-consciente; e essa rejeio por parte do pr-consciente configura um quadro que tem determinadas semelhanas 
com a situao existente antes da primazia genital. No obstante,  algo muito diferente.
         Dos dois tipos de regresso da libido, a regresso que se faz a uma fase anterior da organizao sexual , de longe, a mais surpreendente. Como esta se 
encontra ausente na histeria, e de vez que nossa completa viso das neuroses ainda est excessivamente influenciada pelo estudo da histeria, cronologicamente a primeira 
a ser estudada, assim a significao da regresso libidinal tambm se nos tornou compreensvel muito depois de compreendermos a importncia da represso. Devemos 
estar preparados para constatar que nossos pontos de vista estaro sujeitos ainda a outras ampliaes a reavaliaes, quando pudermos levar em considerao no apenas 
a histeria e a neurose obsessiva, como tambm as outas neuroses, as neuroses narcsicas.
         Na neurose obsessiva, pelo contrrio,  a prpria regresso da libido ao estdio preliminar da organizao sdico-anal o fato mais marcante e o fato decisivo 
para aquilo que se manifesta nos sintomas. A impulso de amor, quando isto aconteceu,  obrigada a disfarar-se em impulso sdica. A idia obsessiva 'Eu gostaria 
de te matar', quando despojada de determinados acrscimos, no casuais, contudo indispensveis, no significa, no fundo, outra coisa seno. 'Eu gostaria de me deleitar 
com amor'. Se, ademais, considerarem que houve simultaneamente uma regresso referente ao objeto, de modo que essas impulses se apliquem apenas queles objetivos 
mais chegados e mais caros ao paciente, os senhores podero formar uma idia do horror que essas obsesses causam no paciente e, ao mesmo tempo, da aparncia estranha 
que elas conferem a essa percepo consciente. Tambm a represso desempenha, porm, importante papel no mecanismo dessas neuroses, embora isto, numa introduo 
sumria como a nossa, no possa ser demonstrado com facilidade. Uma regresso da libido, sem represso, jamais produziria uma neurose, mas levaria a uma perverso. 
Assim, os senhores podem ver que a represso  o processo mais caracterstico das neuroses e  de todos os mecanismos o mais caracterstico. Talvez, mais adiante, 
venha a ter a oportunidade de dizer-lhes o que sabemos a respeito do mecanismo das perverses, e vero que, tambm no caso destas, as coisas no so to simples 
como ns preferamos imaginar.Senhores, penso que a melhor maneira de chegarem a um acordo com tudo isso que acabaram de ouvir acerca de fixao e regresso da libido, 
 considerarem-no como preparao para a pesquisa da etiologia das neuroses. At agora, forneci-lhes apenas uma parcela de informao a respeito desse assunto, ou 
seja: que as pessoas adoecem de neurose quando impedidas da possibilidade de satisfazer sua libido - que adoecem devido  'frustrao', conforme costumo dizer - 
e que seus sintomas so justamente um substituto para sua satisfao frustrada [ver em [1]]. Naturalmente, supe-se que isto no queira dizer que toda frustrao 
da satisfao libidinal torne neurtica a pessoa atingida dessa forma, e sim, simplesmente, que o fator frustrao possa ser constatado em qualquer caso de neurose 
que for examinado. Assim [conforme diriam os lgicos] a proposio no  convertvel. E, tambm, no h dvida de que os senhores compreendem que essa afirmao 
no pretende revelar todo o segredo da etiologia das neuroses, mas apenas ressaltar um fator importante e indispensvel.Prosseguindo a discusso dessa tese, deveramos 
considerar a natureza da frustrao, ou a caracterstica peculiar daquelas pessoas afetadas pela frustrao? Afinal,  extremamente raro dar-se o caso de a frustrao 
ser universal e absoluta. A fim de atuar patogenicamente, ela deve, sem dvida, afetar o modo de satisfao que  o nico desejado pela pessoa, o nico de que a 
pessoa  capaz. Em geral, h muitssimas maneiras de suportar a privao de satisfao libidinal, sem adoecer em conseqncia da privao. Em primeiro lugar, conhecemos 
pessoas capazes de suportar uma privao dessa espcie, sem serem lesadas: no so felizes, sofrem devido aos seus anseios, porm no adoecem. E depois, devemos 
ter em mente que os impulsos instintuais sexuais, em particular, so extraordinariamente plsticos, se  que posso expressar-me dessa maneira. Um deles pode assumir 
o lugar do outro, um pode assumir a intensidade do outro; no caso de a realidade frustrar a satisfao de um deles, a satisfao de outro pode proporcionar compensao 
completa. Relacionam-se uns com os outros  semelhana de uma rede de canais intercomunicantes cheios de lquido; e isto se processa assim, apesar de estarem eles 
sujeitos  primazia dos genitais - um estado de coisas que absolutamente no se combina com facilidade e um quadro nico. Ademais, os instintos parciais da sexualidade, 
bem como a tendncia sexual que deles se compe, revelam grande capacidade de mudar de objeto, de tomar um objeto por outro - e de tomar, portanto, um objeto que 
seja mais facilmente acessvel. A deslocabilidade e a facilidade de aceitar um substituto deve atuar poderosamente contra o efeito patognico da frustrao Entre 
esses processos protetores contra o adoecer devido  privao, existe um que adquiriu especial significao cultural. Consiste no fato de a inclinao sexual abandonar 
seu fim de obter um prazer parcial ou reprodutivo e de adotar um outro, que genericamente se relaciona quele que foi abandonado, mas que, por si mesmo, j no possui 
mais um carter sexual, devendo ser descrito como social. A esse processo chamamos 'sublimao', segundo o consenso geral que situa os objetivos sociais acima dos 
objetivos sexuais, que no fundo, visam aos prprios interesses prprios do indivduo. Alis, a sublimao  apenas um caso especial da maneira pela qual as inclinaes 
sexuais se vinculam a outras, no-sexuais [ver em [1]]. Haveremos de discorrer a esse respeito, novamente, em outro contexto.Ora, os senhores podero ter a impresso 
de que a privao foi reduzida  insignificncia devido a todos esses mtodos de toler-la. Contudo, no  assim; ela conservou sua capacidade patognica. As contramedidas 
so, em sua totalidade, insuficientes. H um limite  quantidade de libido no satisfeita que os seres humanos, em mdia, podem suportar. A plasticidade ou livre 
mobilidade da libido no se mantm absolutamente preservada em todas as pessoas, e a sublimao jamais tem a capacidade de manejar seno determinada parcela de libido; 
acresce-se o fato de que muitas pessoas so dotadas apenas de uma escassa capacidade de sublimar. A mais importante dessas limitaes , evidentemente, aquela referente 
 mobilidade da libido, de vez que isto faz com que a satisfao da pessoa dependa da obteno de apenas um nmero muito reduzido de fins e de objetos. Basta os 
senhores recordarem que um desenvolvimento imperfeito da libido deixa atrs de si fixaes libidinais muito frteis e, talvez, tambm, muito numerosas, em fases 
precoces da organizao e da busca de objetos, as quais, em sua maior parte, so incapazes de prover satisfao real; e, com isso, os senhores podero reconhecer 
na fixao libidinal o segundo poderoso fator que, juntamente com a frustrao,  causa de doena. Podem afirmar, numa abreviao esquemtica, que a fixao libidinal 
representa o fator interno, predisponente, da etiologia das neuroses, ao passo que a frustrao representa o fator externo, acidental.
         A esse ponto, aproveito o oportunidade para alert-los contra a possibilidade de tomarem partido em uma disputa muito desnecessria. Em assuntos cientficos, 
as pessoas mantm muito essa tendncia de selecionar uma parte da verdade, colocando-se a favor dessa parte somente. Foi justamente dessa forma que diversas correntes 
de opinio j se cindiram do movimento psicanaltico, algumas delas reconhecendo os instintos egosticos e negando os sexuais, e outras atribuindo importncia  
influncia das incumbncias reais da vida e desprezando o passado do indivduo - e outras mais. Ora, aqui encontramos mais uma ocasio para assinalar um contraste 
e iniciar uma controvrsia. So as neuroses doenas exgenas ou endgenas? So elas o resultado inevitvel de determinada constituio, ou so produto de determinadas 
experincias de vida prejudiciais (traumticas)? Mais particularmente, so elas causadas pela fixao da libido (e pelos outros aspectos da constituio sexual) 
ou pela presso da frustrao? Parece-me que esse dilema, em sua totalidade, no se reveste de sensatez maior do que um outro dilema que eu poderia apresentar-lhes: 
um beb surge por ter sido gerado por seu pai, ou por ter sido concebido por sua me? Ambos os fatores so igualmente indispensveis, conforme certamente respondero 
os senhores. No que tange  causao das neuroses, a relao, se no precisamente a mesma, pelo menos  muito similar. Quanto  sua causao, os casos de doena 
neurtica enquadram-se numa srie, dentro da qual os dois fatores - constituio sexual e experincia, ou, se preferirem, fixao da libido e frustrao - esto 
representados de tal modo que, quando um dos fatores  mais forte, o outro o  menos. Em um dos limites da srie esto os casos extremos dos quais os senhores poderiam 
dizer convictamente: essas pessoas, em conseqncia do singular desenvolvimento de sua libido, teriam adoecido de qualquer maneira, quaisquer que tivessem sido suas 
experincias e por mais que suas vidas tivessem sido protegidas. No outro limite da srie, esto os casos que, pelo contrrio, os senhores deveriam supor tivessem 
certamente escapado de adoecer, se suas vidas no os tivessem conduzido a esta ou quela situao. Nos casos intermedirios da srie, um maior ou menor grau de predisposio 
na constituio sexual se combina com um grau menor ou maior de experincias nocivas na vida das pessoas. Sua constituio sexual no as teria levado  neurose, 
se no tivessem tido essas experincias, e essas experincias no teriam tido um efeito traumtico sobre tais pessoas se sua libido tivesse sido disposta de outra 
forma. Nessa srie posso, com certeza, admitir uma preponderncia na importncia dos fatores predisponentes; porm, admitir isto tambm depende de saber at onde 
os senhores resolvem ampliar as fronteiras da doena neurtica.Proponho, senhores, que denominemos a uma srie desse tipo 'srie complementar', e previno-os de que 
tero oportunidade de formar outras da mesma espcie.A tenacidade com que a libido adere a determinadas tendncias e objetos - o que se pode descrever como 'adesividade' 
da libido - surge como fator independente, variando de indivduo para indivduo, e suas causas nos so praticamente desconhecidas; contudo, sua importncia na etiologia 
das neuroses certamente no mais subestimaremos. Por outro lado, no devemos superestimar a complexidade dessa relao: uma 'adesividade' semelhante ocorre (por 
motivos desconhecidos), sob numerosas condies, em pessoas normais, e  encontrada como fator determinante em pessoas que so, em certo sentido, o oposto dos neurticos 
- nos pervertidos. Sabia-se, j antes da era da psicanlise (cf. Binet [1888]), que, na anamnese de pervertidos, muito amide encontrava-se uma marca muito precoce 
de alguma tendncia instintual ou de alguma escolha objetal anormal a que a libido da pessoa permanecia ligada por toda a vida. Muitas vezes,  impossvel dizer 
o que  que possibilitou a essa marca exercer uma atrao to intensa sobre a libido. Descreverei um caso dessa ordem, que eu prprio observei.Trata-se de um homem 
que, hoje,  praticamente indiferente aos genitais e a outros atrativos das mulheres, mas que pode ser tomado de irresistvel excitao sexual apenas por causa de 
um p que tenha determinada forma, e que calce um sapato. Pode recordar um acontecimento do seu sexto ano de vida, decisivo para a fixao de sua libido. Estava 
sentado num banquinho, ao lado da governanta que lhe ia ministrar lies de ingls. A governanta, uma solteirona de meia-idade, seca, sem atrativos especiais, com 
olhos azul-claros e nariz arrebitado, naquele dia estava com algum problema no p e, por causa disso, mantinha-o calado num chinelo de veludo, estendido sobre uma 
almofada. Sua perna, propriamente, estava com decncia recoberta com a roupa. Um p fino, magricela, como aquele que vira pertencendo  sua governanta, desde ento 
se tornou (aps tmida tentativa de atividade sexual normal na puberdade) seu nico objeto sexual; e o homem se sentia irresistivelmente atrado se um p assim se 
associava mais a outros aspectos, do que lembrassem a figura da governanta inglesa. Essa fixao de sua libido, porm, fazia dele no um neurtico mas um pervertido 
- o que denominamos fetichista do p. Portanto, os senhores constatam que, embora uma fixao excessiva e, acima de tudo, prematura da libido seja indispensvel 
para a causao das neuroses, a rea de seus efeitos se estende muito alm do campo das neuroses. Esse fator , tambm, por si mesmo, to pouco decisivo quanto o 
 a frustrao, sobre a qual j falamosAssim, o problema da causao das neuroses parece tornar-se mais complicado. De fato, a investigao psicanaltica nos familiariza 
com um fator novo, que no  levado em conta em nossa srie etiolgica e que podemos reconhecer muito facilmente em casos nos quais aquilo que at ento constituiu 
condio sadia,  subitamente perturbado por um incio de doena neurtica. Nessas pessoas regularmente encontramos indcios de um luta entre impulsos plenos de 
desejos, ou segundo costumamos express-lo, um conflito psquico. Uma parte da personalidade defende a causa de determinados desejos, enquanto outra parte se ope 
a eles e os rechaa. Sem tal conflito no existe neurose. Pareceria no haver nada de caracterstico nisto. Nossa vida mental, conforme sabem,  permanentemente 
agitada por conflitos que temos de resolver. Sem dvidas, por conseguinte, condies especiais devem ser preenchidas para que um conflito se torne patognico. Devemos 
perguntar que condies so essas, entre que poderes mentais se desenrolam esses conflitos patognicos, e qual  a relao entre o conflito e os demais fatores causais.
         Espero poder dar-lhes respostas adequadas a essas questes, conquanto as respostas possam reduzir-se a dimenses esquemticas. O conflito surge pela frustrao, 
em conseqncia da qual a libido, impedida de encontrar satisfao,  forada a procurar outros objetos e outros caminhos. A precondio necessria do conflito  
que esses outros caminhos e objetos suscitem desaprovao em um parte da personalidade, de forma que se impe um veto que impossibilita o novo mtodo de satisfao, 
tal como se apresenta. A partir desse ponto, a formao dos sintomas prossegue seu curso, que seguiremos mais tarde. As tendncias libidinais rechaadas conseguem, 
no obstante, abrir caminho por algumas vias indiretas, embora, verdadeiramente, no sem levar em conta a objeo, submetendo-se a algumas deformaes e atenuaes. 
As vias indiretas so aquelas que toma a formao dos sintomas; estes constituem a satisfao nova ou substituta, que se tornou necessria devido ao fato de frustrao.O 
significado do conflito psquico pode ser adequadamente expresso de outro modo, dizendo-se que, para uma frustrao externa tornar-se patognica,  preciso acrescentar-lhe 
uma frustrao interna. Nesse caso, naturalmente, as frustraes externa e interna referem-se a diferentes vias e objetos. A frustrao externa remove uma possibilidade 
de satisfao e a frustrao interna procura excluir uma outra possibilidade; e em torno disto irrompe, ento, o conflito. Prefiro essa forma de representar o assunto, 
porque possui um contedo secreto. Aponta para a probabilidade de os impedimentos internos terem surgido de obstculos externos reais durante os perodos pr-histricos 
da evoluao do homem.Mas, quais so as foras das quais surge a objeo  tendncia libidinal? Qual  a outra parte do conflito patognico? Essas foras, genericamente 
falando, so as foras instintuais no-sexuais. Classificamo-las conjuntamente como 'instintos do ego'. A psicanlise das neuroses de transferncia no nos d um 
acesso fcil a um exame detalhado das mesmas; quando muito, chegamos a conhec-las, em certa medida, atravs das resistncias que se opem  anlise. O conflito 
patognico , pois, um conflito entre os instintos do ego e os instintos sexuais. Em muitos casos, parece haver como que um conflito tambm entre diferentes tendncias 
puramente sexuais. Em essncia, isto, porm,  a mesma coisa; pois das duas tendncias sexuais em conflito, uma sempre , poderamos dizer assim, 'egossintnica', 
ao passo que a outra provoca a defesa do ego. Portanto, ainda continua sendo um conflito entre o ego e a sexualidade.Senhores, sempre que a psicanlise tem afirmado 
que algum evento mental  produto dos instintos sexuais, tem-se-lhe argumentado, indignadamente, a modo de defesa, que os seres humanos no se resumem apenas em 
sexualidade, que existem na vida mental instintos e interesses outros alm dos sexuais, que no se deve derivar 'tudo' da sexualidade, e assim por diante. Pois bem, 
 muito gratificante, vez por outra, verificar que estamos de acordo com nossos opositores. A psicanlise jamais se esqueceu de que h tambm foras instintuais 
que no sexuais. Ela se baseou numa ntida distino entre os instintos sexuais e os instintos do ego, e, apesar de todas as objees, sustentou no que as neuroses 
derivavam da sexualidade, mas sim, que, sua origem se deve a um conflito entre o ego e a sexualidde. E enm possui qualquer motivo concebvel para contestar a existncia 
ou a importncia dos instintos do ego, enquanto rastreia a parte executada pelos instintos sexuais na doena e na vida corrente. Simplesmente a psicanlise teve 
o destino de comear por interessar-se pelos instintos sexuais, de vez que as neuroses de transferncia os tornaram os de mais fcil acesso ao exame, e porque  
psicanlise coube a tarefa de estudar aquilo de que outras pessoas haviam descurado.E no se trata de a psicanlise no haver prestado ateno alguma  parte no 
sexual da personalidade.  precisamente a distino entre ego e sexualidade que nos possibilitou reconhecer com especial clareza que os instintos do ego passam por 
um importante processo de evoluo, uma evoluo que no  nem completamente independente da libido, nem desprovida de um efeito secundrio sobre a mesma. Contudo, 
estamos muito menos familiarizados com o desenvolvimento do ego do que com a evoluo da libido, de vez que apenas o estudo das neuroses narcsicas  que promete 
dar-nos uma compreenso interna (insight) da estrutura do ego. Entretanto, j temos diante de no uma notvel tentativa empreendida por Ferenczi [1913] de estabelecer 
uma formulao terica dos estdios de desenvolvimento. No acreditamos que os interesses libidinais de uma pessoa estejam, desde o incio, em oposio a seus interesses 
de autopreservaes; pelo contrrio, o ego esfora-se, em cada estdio, por permanecer em harmonia com sua organizao sexual, tal como esta se apresenta na poca, 
e por ajustar-se a ela. A sucesso das diferentes fases do desenvolvimento libidinal provavelmente segue um programa estabelecido. No se pode, contudo, afastar 
a possibilidade de esse curso dos acontecimentos pode ser influenciado pelo ego, e podemos igualmente esperar encontrar algum paralelismo, determinada correspondncia, 
entre a fases do desenvolvimento do ego e da libido; na verdade, um distrbio dessa correspondncia poderia originar um fator patognico. Com isso, defrontamo-nos 
com a importante considerao relativa  maneira como se comporta o ego no caso de sua libido deixar aps si uma intensa fixao em algum ponto de seu desenvolvimento 
(da libido). O ego pode aceitar isto e, em conseqncia, tornar-se, nesse sentido, pervertido, ou, o que  a mesma coisa, infantil. No entanto, o ego pode adotar 
uma atitude no-complacente com a acomodao da libido nessa posio, e, nesse caso, o ego experimenta uma represso ali onde a libido sofreu uma fixao.
         Assim, descobrimos que o terceiro fator na etiologia das neuroses, a tendncia ao conflito, depende tanto do desenvolvimento do ego como do da libido. Com 
isso faz-se mais completa nossa compreenso interna (insight) da causao das neuroses. Primeiro, existe a precondio mais geral - a frustrao; e, a seguir, a 
fixao da libido que a fora em determinadas direes; e terceiro, a tendncia ao conflito, surgida do desenvolvimento do ego, a qual rejeita esses impulsos libidinais. 
A situao, por conseguinte, parece no ser to difcil de compreender como provavelmente lhes parecia no transcorrer de minhas observaes.  verdade, porm, que 
verificaremos no haver ainda completado sua descrio. Existe algo novo a acrescentar e algo j conhecido a ser mais detidamente examinado.A fim de demonstrar-lhes 
a influncia que o desenvolvimento do ego exerce sobre a formao dos conflitos e sobre a causao das neuroses, gostaria de apresentar-lhes um exemplo - um exemplo 
que, verdade seja dita,  uma completa inveno, mas que no est, de modo algum, isento de probabilidade. Descrev-lo-ei (com base no ttulo de uma das farsas de 
Nestroy) como 'No Subsolo e no Primeiro Andar'. O zelador da casa mora no subsolo e seu patro, um cavalheiro rico e respeitvel, no primeiro andar. Ambos tm filhos, 
e podemos supor que a filhinha do proprietrio pode brincar, sem qualquer superviso, com a menina proletria. Muito facilmente poderia acontecer, ento, que as 
brincadeiras das crianas assumissem um carter 'arteiro' - digamos, sexual -, e que brincassem de 'papai e mame', se olhassem uma  outra no que tm de mais ntimo 
e uma excitasse os genitais da outra. A filha do zelador, embora apenas com cinco ou seis anos de idade, teria tido oportunidade de observar um bocado de coisas 
a respeito da sexualidade adulta, e nisso tudo ela bem que poderia desempenhar o papel da sedutora. Essas experincias, conquanto no continuadas por longo perodo 
de tempo, seriam suficientes para pr em atividade determinados impulsos sexuais nas duas crianas; e depois que houvessem cessado as brincadeiras conjuntas, esses 
impulsos, durante diversos anos subseqentes, encontrariam expresso na masturbao. Isto no que se refere s experincias em comum; o resultado final nas duas crianas 
ser muito diferente. A filha do zelador continuar a masturbar-se, talvez, at comearem seus perodos menstruais e, ento, sem dificuldade, abandonar a masturbao. 
Uns anos depois, encontrar um companheiro e, talvez, ter um filho. Assumir uma ou outra ocupao, possivelmente se torne uma figura popular no palco e termine 
como aristocrata. Sua carreira no ser, com bastante probabilidade, das mais brilhantes; no entanto, em todo caso, passar a vida sem ter sido prejudicada por aqueles 
primeiros exerccios de sua sexualidade e ficar isenta de neurose. Com a filhinha do proprietrio as coisas sero diferentes. Numa fase inicial, e enquanto  ainda 
uma criana, ter uma idia de haver feito algo de errado; aps curto perodo, talvez, porm apenas aps uma luta intensa, abandonar sua satisfao masturbatria; 
no obstante, ter em si certo sentimento de opresso. Posteriormente, em sua meninice, quando estiver em condies de aprender algo da relao sexual humana, se 
afastar desta com inexplicvel averso e preferir manter-se na ignorncia a respeito do assunto. E, agora, provavelmente estar sujeita a nova emergncia de uma 
presso irresistvel de se masturbar, da qual no ousar queixar-se. Durante os anos em que deveria exercer uma atrao feminina sobre algum homem, irrompe nela 
um neurose que frustra o casamento e defrauda suas esperanas na vida. Se, aps isso, uma anlise conseguir obter uma compreenso interna (insight) de sua neurose, 
se constatar que a moa bem educada, inteligente, que aspirava a coisas elevadas, reprimiu completamente seus impulsos sexuais, mas que estes, inconscientes para 
ela, ainda esto vinculados s experincias insignificantes tidas com sua amiga de infncia.
         A diferena entre as vidas dessas duas pessoas, malgrado tenham tido a mesma experincia, reside no fato de que o ego de uma delas sofreu um desenvolvimento 
que o da outra jamais atingiu. Para a filha do zelador, a atividade sexual pareceu to natural e inofensiva na vida posterior como o havia sido na infncia. A filha 
do senhorio submeteu-se  influncia da educao e aceitou suas exigncias. A partir das idias que lhe foram vinculadas, seu ego formou ideais de pureza feminina 
e abstinncia incompatveis com a atividade sexual; sua educao intelectual reduziu seu interesse pelo papel feminino que estava destinada a desempenhar. Devido 
 sua moral mais elevada e ao desenvolvimento intelectual de seu ego, ela entrou em conflito com as exigncias de sua sexualidade.
         Hoje, deter-me-ei um pouco em outro ponto do desenvolvimento do ego, em parte porque tenho em vista alguns objetivos mais remotos, contudo, tambm porque 
o que se segue destina-se a precisamente justificar a ntida separao entre os instintos do ego e os instintos sexuais, que reafirmamos, no sendo, porm, evidente 
por si mesma. Ao estabelecer nosso critrio das duas linhas de desenvolvimento - a do ego e a da libido - devemos ressaltar uma considerao que at agora no foi 
levada em conta. Ambas so, no fundo, heranas, recapitulaes abreviadas do desenvolvimento pelo qual toda a humanidade passou, desde pocas primitivas, por longos 
perodos de tempo. No caso do desenvolvimento da libido, essas origem filogentica , conforme ouso pensar, uma evidncia imediata. Considerem como numa classe de 
animais o aparelho genital pe-se em ntima relao com a boca, ao passo que, em outra, no pode ser diferenciado do aparelho excretor, e, ainda em outras, est 
vinculado aos rgos motores - e tudo isso os senhores encontraro em atraente apresentao no valioso livro de W. Blsche [1911-13]. Entre os animais, pode-se encontrar, 
por assim dizer, em forma petrificada todos os tipos de perverso da organizao sexual. No caso dos seres humanos, entretanto, esse ponto de vista filogentico 
 parcialmente velado pelo fato de que aquilo que, no fundo,  herdado, no obstante  de aquisio recente no desenvolvimento do indivduo, provavelmente porque 
as mesmas condies que impuseram sua aquisio persistem e continuam a operar em cada indivduo. Gostaria de acrescentar que, originalmente, a operao dessas condies 
era criativa; agora, contudo,  evocativa. Ademais no h dvida de que o curso estabelecido do desenvolvimento pode ser perturbado e alterado em todo indivduo, 
atravs de influncias externas recentes. Mas conhecemos a fora que imps  humanidade um desenvolvimento dessa ordem e mantm sua presso na mesma direo nos 
dias atuais. Essa fora, , mais uma vez, a frustrao advinda da realidade, ou, se quisermos dar-lhe o nome verdadeiro, o nome de peso, as 'exigncias da vida' 
- Necessidade ('?????? [Ananke]). Esta tem sido uma educadora rigorosa e tem exigido muito de ns. Os neurticos esto entre aqueles de seus filhos aos quais seu 
rigor causou maus resultados; este, porm,  um risco que se corre em qualquer educao. Essa valorizao da importncia das necessidades da vida, alis, no necessita 
pesar contra a importncia das 'tendncias internas de desenvolvimento', se se pode demonstrar que isto est presente.Ora,  digno de nota o fato de que os instintos 
sexuais e os instintos de autopreservao no se comportam da mesma maneira para com a necessidade real. Os instintos de autopreservao, e tudo o que com eles se 
relaciona, so muito mais fceis de educar: cedo aprendem a adaptar-se  necessidade e a moldar seus desenvolvimentos de acordo com as instrues da realidade. Isto 
se compreende, pois eles no poderiam obter os objetos de que necessitam, se agissem de alguma outra maneira; e sem esses objetos, o indivduo inevitavelmente pereceria. 
Os instintos sexuais so mais difceis de educar, de vez que, no incio, no precisam de objeto. Como esto ligados,  semelhana de parasitas, por assim dizer, 
s outras funes corporais e conseguem sua satisfao auto-eroticamente no prprio corpo da pessoa, eles esto, de incio, retirados da influncia educadora da 
necessidade real, e conservam essa caracterstica de serem rebeldes e inacessveis  influncia (isto descrevemos como sendo 'irracional') na maioria das pessoas, 
em certo sentido, por toda a vida. Ademais, via de regra, a educabilidade de pessoas jovens chega ao fim quando suas necessidades sexuais surgem em toda a sua plenitude. 
Os educadores sabem disso e agem de acordo; mas as descobertas da psicanlise talvez possam induzi-los a deslocar a impacto principal da educao para os anos da 
meninice, partindo da infncia propriamente dita. A pequena criatura, freqentemente, j esta completa ao redor do quarto ou quinto ano de vida, e, depois disso, 
simplesmente revela o que j est dentro de si.
         A fim de avaliar a plena significao da diferena que assinalei entre os dois grupos de instintos, devemos retroceder por um longo caminho e introduzir 
uma dessas dimenses que merece ser descrita como econmica [ver em [1], acima]. Isto nos leva a uma das mais importantes, mas, infelizmente, tambm uma das mais 
obscuras regies da psicanlise. Podemos nos perguntar se, no funcionamento de nosso aparelho mental, pode ser evidenciado um propsito principal, e podemos responder, 
como proposio inicial, que esse propsito se orienta pela obteno de prazer.  como se a totalidade de nossa vida mental fosse dirigida para obter o prazer e 
evitar o desprazer - que  automaticamente regulada pelo princpio de prazer. Gostaramos de saber, dentre todas as coisas, o que  que determina a gerao do prazer 
e do desprazer; isto, contudo, ignoramos. Podemos apenas arriscar-nos a dizer o seguinte: que o prazer est de alguma forma relacionado com a diminuio, reduo 
ou extino das cargas de estmulos reinantes no aparelho mental e que, de maneira semelhante, o desprazer est em conexo com o aumento dessas cargas. Um exame 
do prazer mais intenso acessvel aos seres humanos, o prazer de efetuar o ato sexual, deixa pouca dvida quanto a esse ponto. De vez que, em tais processos relativos 
ao prazer, a questo  saber o que acontece com as quantidades de excitao ou energia mental, damos a essa nova dimenso o nome de econmica. Notar-se- que podemos 
descrever as atribuies e realizaes do aparelho mental de outra forma mais geral do que simplesmente enfatizando a objeo de prazer. Podemos dizer que o aparelho 
mental serve ao propsito de dominar e eliminar as cargas de estmulo e as somas de excitao que incidem sobre ele, provenientes de fora e de dentro.  imediatamente 
bvio que os instintos sexuais, do comeo ao fim de seu desenvolvimento, atuam com vistas  obteno de prazer; eles mantm inalterada sua funo original. Os outros 
instintos, os instintos do ego, tm, inicialmente, o mesmo objetivo. Sob a influncia da instrutora Necessidade, porm, logo aprendem a substituir  princpio de 
prazer por uma modificao do mesmo. Para eles, a tarefa de evitar desprazer vem a ser to importante como a de obter prazer. O ego descobre que lhe  inevitvel 
renunciar  satisfao imediata, adiar a obteno de prazer, suportar um pequeno desprazer e abandonar inteiramente determinadas fontes de prazer. Um ego educado 
dessa maneira tornou-se 'racional'; no se deixa mais governar pelo princpio de prazer, mas obedece ao princpio de realidade que, no fundo, tambm busca obter 
prazer, mas prazer que se assegura levando em conta a realidade, ainda que seja um prazer adiado ou diminudo.A transio do princpio de prazer para o princpio 
de realidade  um dos mais importantes passos na direo do desenvolvimento do ego. J sabemos que  s tardia e relutantemente que os instintos sexuais se renem 
a essa parte do desenvolvimento, e mais adiante ouviremos falar nas conseqncias, para os seres humanos, do fato de sua sexualidade se contentar com laos to frouxos 
com a realidade externa. E agora, para terminar, um ltimo comentrio a respeito dessw assunto. Se o ego do homem tem seu prprio processo de desenvolvimento, assim 
como a libido tem o seu, os senhores no se surpreendero ao ouvir que tambm h 'regresses do ego', e estaro desejosos de saber tambm qual o papel que pode ser 
desempenhado, nas doenas neurticas, por esse retorno do ego a fases anteriores de seu desenvolvimento.
         
         CONFERNCIA XXIII
         OS CAMINHOS DA FORMAO DOS SINTOMAS
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Para os leigos, os sintomas constituem a essncia de uma doena, e a cura consiste na remoo dos sintomas. Os mdicos atribuem importncia  distino 
entre sintomas e doena, e afirmam que eliminar os sintomas no equivale a curar a doena. A nica coisa tangvel que resta da doena, depois de eliminados os sintomas, 
 a capacidade de formar novos sintomas. Por esse motivo, no momento adotaremos a posio do leigo e suporemos que decifrar os sintomas significa o mesmo que compreender 
a doena.
         Os sintomas - e, naturalmente, agora estamos tratando de sintomas psquicos (ou psicognicos) e de doena psquica - so atos, prejudiciais, ou, pelo menos, 
inteis  vida da pessoa, que por vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside no dispndio 
mental que acarretam, e no dispndio adicional que se torna necessrio para se lutar contra eles. Onde existe extensa formao de sintomas, esses dois tipos de dispndio 
podem resultar em extraordinrio empobrecimento da pessoa no que se refere  energia mental que lhe permanece disponvel e, com isso, na paralisao da pessoa para 
todas as tarefas importantes da vida. Como esse resultado depende principalmente da quantidade da energia que assim  absorvida, os senhores vero facilmente que 
'ser doente' , em essncia, um conceito prtico. Se, contudo, assumirem um ponto de vista terico e no considerarem essa questo de quantidade, os senhores podem 
muito bem dizer que todos ns somos doentes - isto , neurticos -, pois as precondies da formao dos sintomas tambm podem ser observadas em pessoas normais.
         J sabemos que os sintomas neurticos so resultado de um conflito, e que este surge em virtude de um novo mtodo de satisfazer a libido [ver em [1]]. As 
duas foras que entraram em luta encontram-se novamente no sintoma e se reconciliam, por assim dizer, atravs do acordo representado pelo sintoma formado.  por 
essa razo, tambm, que o sintoma  to resistente:  apoiado por ambas as partes em luta. Tambm sabemos que um dos componentes do conflito  a libido insatisfeita, 
que foi repelida pela realidade e agora deve procurar outras vias para satisfazer-se. Se a realidade se mantiver intransigente, ainda que a libido esteja pronta 
a assumir um outro objeto em lugar daquele que lhe foi recusado, ento a mesma libido, finalmente, ser compelida a tomar o caminho da regresso e a tentar encontrar 
satisfao, seja em uma das organizaes que j havia deixado para trs, seja em um dos objetos que havia anteriormente abandonado. A libido  induzida a tomar o 
caminho da regresso pela fixao que deixou aps si nesses pontos do seu desenvolvimento.O caminho que leva  perverso se destaca nitidamente daquele que leva 
 neurose. Se essas regresses no suscitam objeo por parte do ego, no surgir neurose alguma; e a libido chegar a alguma satisfao real, embora no mais uma 
satisfao normal. Entretanto, se o ego, que tem sob seu controle no s a conscincia, mas tambm o acesso  inervao motora e, por conseguinte,  realizao dos 
desejos mentais, no concordar com essas regresses, seguir-se- o conflito. A libido, por assim dizer,  interceptada e deve procurar escapar em alguma direo 
na qual, de acordo com as exigncias do princpio de prazer, possa encontrar uma descarga para suas catexias de energia. Ela deve retirar-se do ego. Uma sada dessa 
espcie -lhe oferecida pelas fixaes situadas na trajetria do seu desenvolvimento, na qual agora entrou regressivamente - fixaes das quais o ego se havia protegido, 
no passado, por meio de represses. Catexizando essas posies reprimidas,  medida que se desloca para trs, a libido se retirou do ego e afastou-se de suas leis 
e, ao mesmo tempo, renunciou a toda a educao que adquiriu sob influncia do ego. Era dcil somente enquanto a satisfao lhe acenava; mas, sob a dupla presso 
da frustrao externa e interna, torna-se refratria e relembra pocas anteriores e melhores. Tal  o carter fundamentalmente imutvel da libido. As idias, s 
quais agora transfere sua energia em forma de catexia, pertencem ao sistema do inconsciente e esto sujeitas aos processos que ali so possveis, sobretudo condensao 
e deslocamento. Estabeleceu-se, assim, condies que se assemelham totalmente quelas existentes na construo onrica. O sonho propriamente dito, que foi completado 
no inconsciente e que  a realizao de uma fantasia inconsciente constituda de um desejo, enfrenta uma parcela de atividade (pr-)consciente que exerce o papel 
de censura e que, quando foi preservada, permite a formao do sonho manifesto em forma de um acordo. Do mesmo modo, aquilo que representa a libido no inconsciente 
tem de contar com a fora do ego pr-consciente. A oposio formada contra ela no ego persegue-a como se fora uma 'anticatexia'e compele-a a escolher uma forma de 
expresso da prpria oposio. Assim, o sintoma emerge como um derivado mltiplas-vezes-distorcido da realizao de desejo libinal inconsciente, uma pea de ambigidade 
engenhosamente escolhida, com dois significados em completa contradio mtua. Quando a esse ltimo aspecto, porm, h uma distino entre a construo de um sonho 
e a de um sintoma. Isso porque, na formao onrica, o propsito pr-consciente visa simplesmente a preservar o sono, no permitir que algo que venha a perturb-lo 
possa irromper na conscincia; no insiste em bradar claramente: 'No, pelo contrrio!' ao impulso inconsciente pleno de desejos. Consegue ser mais tolerante porque 
a situao de algum que dorme  menos perigosa. O estado de sono, por si mesmo, impede qualquer sada em direo  realidade.
         Os senhores percebem, ento, que o escape da libido, em condies de conflito, se torna possvel pela presena de fixaes. A catexia regressiva dessas 
fixaes consegue contornar a represso e leva  descarga (ou satisfao) da libido, sujeita s condies de um acordo a serem observadas. Pelo caminho indireto, 
via inconsciente e antigas fixaes, a libido finalmente consegue achar sua sada at uma satisfao real - embora seja uma satisfao extremamente restrita e que 
mal se reconhece como tal. Permitam-me acrescentar dois comentrios a essa concluso. Primeiro, gostaria que os senhores percebessem como aqui se mostram estreitamente 
interligados a libido e o inconsciente, de um lado, e, de outro lado, o ego, a conscincia e a realidade, embora, de incio, eles no sejam da mesma espcie, absolutamente. 
E, segundo, devo solicitar-lhes que tenham em mente que tudo quando eu disse a esse respeito e acerca do que vem a seguir, refere-se apenas  formao dos sintomas 
na neurose de histeria.
         Onde, pois, encontra a libido as fixaes necessrias para romper as represses? Nas atividades e experincias da sexualidade infantil, nas tendncias parciais 
abandonadas, nos objetos da infncia que foram abandonados.  a estes, por conseguinte, que a libido retorna. A significao desse perodo da infncia  dupla: por 
um lago, durante esse perodo, pela primeira vez se tornam manifestas as tendncias instintuais que a criana herdou com sua disposio inata; e, em segundo lugar, 
outros instintos seu so, pela primeira vez, despertados e postos em atividade pelas impresses externas e experincias casuais. Penso no haver dvida de que existe 
justificativa para estabelecermos essa dplice diviso. A manifestao das disposies inatas realmente no est sujeita a objees crticas, mas a experincia analtica 
de fato nos leva a supor que experincias puramente casuais, na infncia, so capazes de deixar atrs de si fixaes da libido. E nisto no vejo nenhuma dificuldade 
terica. As disposies da constituio tambm so indubitavelmente efeitos secundrios de experincias vividas pelos ancestrais no passado; tambm elas, em alguma 
ocasio, foram adquiridas. Sem essa aquisio, no haveria hereditariedade. E  concebvel que uma aquisio dessa espcie, que conduz  herana, chegaria ao fim 
justamente na gerao que estamos considerando? A importncia das experincias infantis no deve ser totalmente negligenciada, como as pessoas preferem, em comparao 
com as experincias dos ancestrais da pessoa e com sua prpria maturidade; pelo contrrio, as experincias infantis exigem uma considerao especial. Elas determinam 
as mais importantes conseqncias, porque ocorrem numa poca de desenvolvimento incompleto e, por essa mesma razo, so capazes de ter efeitos traumticos. Os estudos 
sobre os mecanismos do desenvolvimento, feitos por Roux e outros, tm mostrado que a picada de uma agulha em uma camada geminal de um embrio no ato da diviso celular 
resulta em grave distrbio do desenvolvimento. A mesma leso infligida a um animal larvar ou inteiramente desenvolvido no causaria dano.A fixao da libido de um 
adulto, que introduzimos na equao etiolgica da neurose como representando o fator constitucional [ver em [1] e [2]], agora se desdobra, para nosso propsitos, 
em mais dois componentes: a constituio herdade e a disposio adquirida no incio da infncia. Como todos sabemos, um diagrama tem certamente uma acolhida simptica 
junto aos estudantes. Por isso, vou resumir a situao com um diagrama:
         
         A constituio sexual hereditria apresenta-nos uma grande variedade de disposies, conforme seja herdado, com particular intensidade, um ou outro dos 
instintos parciais, sozinho ou em combinao com os outros. A constituio sexual forma, portanto, junto com o fator da experincia infantil, uma 'srie complementar' 
exatamente semelhante quela que j sabemos existir entre disposio e experincia casual do adulto [ver em [1]]. Em ambas as sries complementares encontramos os 
mesmos casos extremos e as mesmas relaes entre os dois fatores considerados. E aqui levanta-se a questo de saber se os mais marcantes tipos de regresses libidinais 
- os que se fazem aos primeiros estdios da organizao sexual - no poderiam ser predominantemente determinados pelo fator constitucional hereditrio. Contudo, 
 melhor adiar a resposta a essa questo, at havermos sido capazes de apreciar uma srie mais ampla de formas de doena neurtica.
         Consideramos agora, detidamente, o fato de a investigao analtica mostrar que a libido dos neurticos est ligada s suas experincias sexuais infantis. 
Assim, ela confere a essas experincias uma dimenso de grande importncia para a vida e a doena dos seres humanos. Elas mantm, sem qualquer reduo, essa importncia, 
no que concerne ao trabalho teraputico. Se, todavia, nos abstrairmos dessa tarefa, podemos, assim mesmo, ver facilmente que existe nesse ponto o perigo de um equvoco 
que poderia levar-nos a basear nossa viso da vida, com demasiada unilateralidade, na situao neurtica. Devemos, afinal, deduzir da importncia das experincias 
infantis o fato de que a libido a elas retornou regressivamente, aps haver sido expulsa de suas posies posteriores. Nesse caso, torna-se muito tentadora a concluso 
inversa - a de que essas experincias libidinais no tiveram absolutamente nenhuma importncia na poca em que ocorreram, e apenas regressivamente a adquiriram. 
Os senhores se recordaro de que j consideramos uma alternativa similar em nossa discusso sobre o complexo de dipo [ver em [1] e [2]].Outrossim, no acharemos 
difcil chegar a uma deciso. A assertiva de que a catexia libidinal (e, portanto, a significao patognica) das experincias infantis intensificou-se grandemente 
pela regresso da libido,  indubitavelmente correta, porm induziria a erro se fssemos consider-la, isoladamente, decisiva. Deve-se permitir tambm a apreciao 
de outras consideraes.
         Em primeiro lugar, a observao mostra, de uma forma que exclui qualquer dvida, que as experincias infantis possuem uma importncia toda peculiar, e disto 
elas do provas j na infncia. Tambm as crianas tm suas neuroses, nas quais o fator do deslocamento para trs, no tempo,  necessariamente muitssimo reduzido 
ou at mesmo est completamente ausente, pois nelas o incio da doena advm imediatamente aps as experincias traumticas. O estudo dessas neuroses infantis protege-nos 
de mais um equvoco perigoso relativo s neuroses de adultos, na mesma medida em que os sonhos de crianas nos deram a chave da compreenso dos sonhos de adultos. 
As neuroses de crianas so muito comuns, muito mais comuns do que se supe. Muitas vezes, elas deixam de ser notadas, so consideradas sinais de uma criana m 
ou arteira, muitas vezes, tambm, so mantidas em estado de sujeio pelas autoridades responsveis pelas crianas; porm, sempre podem ser reconhecidas, retrospectivamente, 
com facilidade. Em geral, surgem sob a forma de histeria de angstia. Em ocasio subseqente, saberemos o que isto significa [ver em [1], adiante]. Se uma neurose 
emerge posteriormente na vida, a anlise revela, regularmente, que ela  continuao direta da doena infantil, que pode ter aparecido como sendo apenas um indcio 
velado. Entretanto, conforme eu disse, h casos em que esses sinais de neurose na infncia continuam ininterruptamente numa doena que dura toda a vida. Pudemos 
analisar alguns exemplos dessas neuroses infantis na prpria infncia - quando estavam realmente presentes; muito mais amide tivemos, porm, de contentar-nos com 
o caso de algum que adoeceu na vida adulta, possibilitando-nos obter uma compreenso diferida de sua neurose da infncia. Em tais casos, no devemos deixar de fazer 
algumas correes e de tomar determinadas precaues.Em segundo lugar, devemos pensar que seria inconcebvel a libido regredir de forma to regular ao perodo da 
infncia, a menos que haja ali algo que exera sobre ela uma atrao. A fixao, que supusemos estar presente em determinados pontos do curso do desenvolvimento, 
s tem significado se considerarmos que ela consiste na reteno de determinada quantidade de energia libidinal. E, finalmente, posso assinalar-lhes que, entre a 
intensidade e importncia patognica das experincias infantis e das experincias posteriores, existe uma relao complementar semelhante  srie de que j tratamos. 
Existem casos em que todo o peso da causao recai nas experincias sexuais da infncia, casos em que essas impresses exercem um efeito definidamente traumtico 
e no exigem nenhum outro apoio, nessa ao patognica, alm do que lhes pode proporcionar uma constituio sexual mdica e a circunstncia de seu desenvolvimento 
incompleto. Paralelamente a esses casos, existem outros nos quais todo o acento recai nos conflitos posteriores; e verificamos, na anlise, que a nfase dada s 
impresses da infncia aparece como sendo inteiramente obra da regresso. Assim, temos extremos de 'inibio de desenvolvimento' e de 'regresso', e, entre estes, 
todos os graus de combinao entre os dois fatores.Esses fatos tm algum interesse do ponto de vista da educao, que planeja a preveno das neuroses intervindo 
num estdio inicial do desenvolvimento sexual das crianas. Contanto que se dirija a ateno principalmente para as experincias sexuais infantis, deve-se supor 
que se tem feito tudo pela profilaxia das doenas nervosas mediante o cuidado de se adiar o desenvolvimento da criana e de esta ser poupada de experincias de tal 
espcie. Entretanto, j sabemos que as precondies para a causao das neuroses so complexas e no podem ser influenciadas em seu todo, se tomarmos em considerao 
apenas um dos fatores. Uma proteo estrita da criana carece de validade por ser impotente contra o fator constitucional. Ademais, efetuar essa proteo  mais 
difcil do que a imaginam os educadores, e encerra dois novos perigos que no devem ser subestimados: o fato de ela pode ir fundo demais - de encorajar um excesso 
de represso sexual com resultados prejudiciais - e o fato de ela poder enviar a criana ao encontro da vida sem qualquer defesa contra a avalanche de exigncias 
sexuais que so de se esperar na puberdade. Assim, continua sendo extremamente duvidoso saber at onde a profilaxia na infncia possa ser executada com vantagens, 
e se uma modificao de atitudes para com a situao imediata no poderia oferecer um melhor ngulo de abordagem  preveno das neuroses.Retornemos agora aos sintomas. 
Estes criam, portanto, um substituto das satisfao frustrada, realizando uma regresso da libido a pocas de desenvolvimento anteriores, regresso a que necessariamente 
se vincula um retorno a estdios anteriores de escolha objetal ou de organizao. Descobrimos, h algum tempo, que os neurticos esto ancorados em algum ponto do 
seu passado; agora sabemos que esse ponto  um perodo do seu passado, no qual sua libido no se privava de satisfao, no qual eram felizes. Buscam na histria 
de sua vida, at encontrarem um perodo dessa ordem, ainda que tenham de retroceder tanto, que atinjam a poca em que eram bebs de colo - tal como dela se lembram 
ou a imaginam, a partir de indcios posteriores. De algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de satisfao, deformada pela censura que surge no conflito, 
via de regra transformada em uma sensao de sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doena. O tipo de satisfao que o sintoma 
consegue, tem em si muitos aspectos estranhos ao sintoma.Podemos desprezar o fato de que o sintoma se constitui em algo irreconhecvel para o indivduo que, pelo 
contrrio, sente a suposta satisfao como sofrimento e se queixa deste. Essa transformao  uma funo do conflito psquico sob presso, do qual o sintoma veio 
a se formar. Aquilo que para o indivduo, em determinada poca, constitua uma satisfao, na realidade passa, hoje, necessariamente a originar resistncia e repugnncia. 
Conhecemos bem um modelo banal, porm instrutivo, de uma tal mudana de atitude. A mesma criana que em determinada poca sugava com avidez o seio materno, alguns 
anos depois, provavelmente, mostrar uma intensa averso a tomar leite, o que causa dificuldade na sua criao. A averso aumenta at  repugnncia, no caso de se 
formar uma pelcula sobre o leite ou sobre a mistura que contenha leite. Talvez no possamos excluir a possibilidade de a pelcula reviver a lembrana do seio materno, 
outrora to ardentemente desejado. Entretanto, entre as duas situaes coloca-se a experincia do desmame, com seus efeitos traumticos.Existe algo mais, alm disso, 
que faz com que os sintomas nos paream estranhos e incomprensveis como meio de satisfao libidinal. Eles no se parecem absolutamente com nada de que tenhamos 
o hbito de normalmente auferir satisfao. Em geral, eles desprezam os objetos e, com isso, abandonam sua relao com a realidade externa. Podemos verificar que 
esta  uma conseqncia de se haver rejeitado o princpio de realidade e se haver retornado ao princpio de prazer. Tambm , contudo, um retorno a um tipo de autoerotismo 
difuso, do tipo que proporcionava o instinto sexual nas primeiras satisfaes. Em lugar de uma modificao no mundo externo, essas satisfaes substituem-na por 
uma modificao no prprio corpo do indivduo: estabelecem um ato interno em lugar de um externo, uma adaptao em lugar de uma ao - uma vez mais, algo que corresponde, 
filogeneticamente, a uma regresso altamente significativa. Isto somente compreenderemos em conexo com algo novo que ainda teremos de aprender das pesquisas analticas 
da formao dos sintomas. Ademais, devemos lembrar que os mesmos processos pertencentes ao inconsciente tm seu desempenho na formao dos sintomas, tal qual o fazem 
na formao dos sonhos - ou seja, condensao e deslocamento. Um sintoma, tal qual um sonho, representa algo como j tendo sido satisfeito: uma satisfao  maneira 
infantil. Mediante uma condensao extrema, porm, essa satisfao pode ser comprimida em uma s sensao ou inervao, e, por meio de um deslocamento extremo, ela 
pode se restringir a apenas um pequeno detalhe de todo o complexo libidinal. No  de causar surpresa se tambm ns, muitas vezes, temos dificuldade em reconhecer 
num sintoma a satisfao libidinal, de cuja presena suspeitamos e que invariavelmente se confirma.Eu os avisei de que ainda tnhamos algo novo para aprender; trata-se 
realmente de algo surpreendente e desconcertante. Por meio da anlise, conforme sabem, partindo dos sintomas chegamos ao conhecimento das experincias infantis, 
s quais a libido est fixada e das quais se formam os sintomas. Pois bem, a surpresa reside em que essas cenas da infncia nem sempre so verdadeiras. Com efeito, 
no so verdadeiras na maioria dos casos, e, em alguns, so o posto direto da verdade histrica. Conforme os senhores vero, essa descoberta est fadada, mais que 
qualquer outra, a desacreditar tanto a anlise, que chegou a tal resultado, como os pacientes, em cujas declaraes se fundamentam a anlise e todo o nosso entendimento 
das neuroses. Existe, contudo, mais alguma coisa singularmente desconcertante em tudo isso. Se as experincias infantis trazidas  luz pela anlise fossem invariavelmente 
reais, deveramos sentir estarmos pisando em cho firme; se fossem regularmente falsificadas e mostrassem no passar de invenes de fantasias do paciente, seramos 
obrigados a abandonar esse terreno movedio e procurar salvao noutra parte. Mas, aqui, no se trata nem de uma nem de outra coisa: pode-se mostrar que se est 
diante de uma situao em que as experincias da infncia construdas ou recordadas na anlise so, s vezes, indiscutivelmente falsas e, s vezes, por igual, certamente 
corretas, e na maior parte do casos so situaes compostas de verdade e de falsificao. s vezes, portanto, os sintomas representam eventos que realmente ocorreram, 
e aos quais podemos atribuir uma influncia na fixao da libido, e, por vezes, representam fantasias do paciente, no talhadas para desempenhar um papel etiolgico. 
 difcil achar uma sada nesses casos. Talvez possamos iniciar por uma descoberta semelhante - ou seja, a de que lembranas infantis isoladas, que as pessoas tm 
possudo conscientemente desde os tempos imemoriais e antes que houvesse qualquer coisa semelhante  anlise [ver em [1], acima], podem igualmente ser falsificadas, 
ou, pelo menos, podem combinar verdade e adulterao, em abundncia. No caso destas, raramente existe qualquer dificuldade em demonstrar sua inexatido; assim, ao 
menos temos a garantia de saber que a responsabilidade por esse inesperado desapontamento no est na anlise, e sim, de algum modo, nos pacientes.Aps alguma reflexo 
facilmente poderemos entender o que  que existe nessa situao que tanto nos confunde.  o reduzido valor concedido  realidade,  a desateno  diferena entre 
realidade e fantasia. Somos tentados a nos sentir ofendidos com o fato de o paciente haver tomado nosso tempo com histrias inventadas. A realidade parece-nos ser 
algo como um mundo separado da inveno, e lhes atribumos um valor muito diferente. Ademais, tambm o paciente enxerga as coisas por esse prisma, em seu pensar 
normal. Quando apresenta o material que conduz desde os sintomas s situaes de desejo modeladas em suas experincias infantis, ficamos em dvida, no incio, se 
estamos lidando com a realidade ou com fantasias. Posteriormente, determinadas indicaes nos possibilitam chegar a uma concluso, e nos defrontamos com a tarefa 
de transmiti-la ao paciente. Isto, porm, invariavelmente causa dificuldades. Se comearmos por dizer-lhe diretamente que agora est disposto a trazer  luz as fantasias 
com as quais deturpou a histria de sua infncia (assim como toda nao adultera sua pr-histria esquecida, construindo lendas), podemos observar que o interesse 
do paciente em continuar a desenvolver o assunto subitamente diminui de uma forma indesejvel. Ele, tambm, quer experimentar as situaes reais e desdenha tudo 
aquilo que  simplesmente 'imaginrio'. Todavia, se at a concluso dessa parte do trabalho o deixarmos na crena de que estamos ocupados em investigar os eventos 
reais de sua infncia, corremos a risco de, posteriormente, ele acusar-nos de estarmos equivocados e de rir-se de ns, por nossa aparente credulidade. Levar um 
bom tempo at pode assimilar a nossa proposio de que podemos igualar fantasia e realidade; e no nos importaremos, em princpio, com qual seja esta ou aquela das 
experincias da infncia que esto sendo examinadas. Ademais, esta , evidentemente, a nica atitude correta a adotar para com esses produtos mentais. Tambm eles 
possuem determinada realidade. Subsiste o fato de que o paciente criou essas fantasias por si mesmo, e essa circunstncia dificilmente ter, para a sua neurose, 
importncia menor do que teria se tivesse realmente experimentado o que contm suas fantasias. As fantasias possuem realidade psquica, em contraste com a realidade 
material,, e gradualmente aprendemos a entender que, no mundo das neuroses, a realidade psquica  a realidade decisiva. Entre as ocorrncias que aparecem repetidamente 
na histria dos anos iniciais da vida dos neurticos - recordaes que raramente esto ausentes - existem algumas de especial importncia, as quais, por esta razo, 
penso, merecem maior relevo que o restante. Como exemplos dessa categoria, enumero as seguintes: observao do coito dos pais, seduo por um adulto e ameaa de 
ser castrado. Seria um erro supor que essas recordaes nunca se caracterizam pela realidade material; ao contrrio, amide est  comprovada de modo inconteste 
por meio de indagao junto a membros mais velhos da famlia do paciente. Por exemplo, no  nada raro que um menininho que comea a brincar de modo arteiro com 
seu pnis e ainda no tem noo de que se deve esconder tal atividade, seja ameaado, por um dos pais ou pela bab, de lhe serem cortados o pnis ou a mo pecaminosa. 
Os pais, quando lhes perguntam a esse respeito, admitem haver-se passado esse fato, pois pensam haver realizado algo de til ao fazerem tal ameaa; numerosas pessoas 
tm uma memria consciente correta de tal ameaa, sobretudo se foi feita em perodo um tanto posterior. Quando a ameaa parte da me, ou de alguma outra pessoa do 
sexo feminino, esta geralmente diz que sua execuo ficar a cargo do pai - ou do mdico. Em Struwwelpeter, a famosa obra de Hoffamann, pediatra de Frankfurt, (a 
qual deve sua popularidade justamente  compreenso dos complexos sexuais e de outros complexos da infncia), os senhores vero a castrao atenuada em amputao 
dos polegares, como castigo pela obstinao em sug-los.  altamente improvvel, porm, que as crianas sejam ameaadas com castrao com tanta freqncia como aparece 
na anlise de neurticos. -nos suficiente perceber que a criana, em sua imaginao, capta uma ameaa desse tipo, com base em indcios e com a ajuda de um vago 
conhecimento de que a satisfao auto-ertica lhe  proibida, e sob a impresso de sua descoberta dos genitais femininos. [ver em [1], acima.] No apenas em famlias 
proletrias  perfeitamente possvel que uma criana, enquanto ainda no se julga possuir compreenso ou memria, seja testemunha do ato sexual dos pais ou de outras 
pessoas adultas; e no se pode rejeitar a possibilidade de que a criana ser capaz de entender e reagir a essa impresso retrospectivamente. Se, entretanto, o coito 
 descrito em seus mnimos detalhes, os quais seriam difceis de observar, ou como sucede muito amide, se se revela como sendo um coito por trs, more ferarum [ 
maneira dos animais], no pode subsistir qualquer dvida de que a fantasia se baseia numa observao do coito de animais (como o de ces) e que o motivo foi a escopofilia 
insatisfeita da criana, durante a puberdade. O mximo de realizao nesses assuntos  uma fantasia de observar o coito dos pais quando a pessoa ainda era criana 
no nascida, no tero. As fantasias de ser seduzido encerram interesse especial, de vez que muito freqentemente no so fantasias, mas recordaes reais. Felizmente, 
apesar de tudo elas no so reais, como pareceu tantas vezes, no incio, ser demonstrado pelas descobertas da anlise. A seduo por uma criana de mais idade ou 
por algum da mesma idade  ainda mais freqente do que por um adulto; e, no caso de meninas, que relatam um evento dessa ordem na sua infncia, no qual o pai figura 
com muita regularidade como o sedutor, no pode haver dvida alguma quanto  natureza imaginria da acusao, nem quanto ao motivo que levou a formul-la. Uma fantasia 
de ser seduzido, quando no ocorreu seduo nenhuma, geralmente  utilizada por uma criana para encobrir o perodo auto-ertico de sua atividade sexual. Fantasiando 
retrospectivamente dentro dessas pocas mais primitivas um objeto desejado, a criana se poupa da vergonha de se haver masturbado. No entanto, os senhores no devem 
supor que o abuso sexual de uma criana por algum dos parentes masculinos mais prximos pertena inteiramente ao reino da fantasia. A maioria dos analistas ter 
tratados casos nos quais esses eventos foram reais e poderiam ser constatados inquestionavelmente; o mesmo em tais casos, contudo, esses fatos se referiam a anos 
posteriores da infncia e tinham sido transpostos para pocas mais precoces.A nica impresso que nos fica  esses eventos da infncia serem de certo modo exigidos 
como uma necessidade, inclurem-se entre os elementos essenciais de uma neurose. Se ocorreram na realidade, no h o que acrescentar; mas, se no encontram apoio 
na realidade, so agregados a partir de determinados indcios e suplementados pela fantasia. O resultado  o mesmo, e, at o presente, no conseguimos assinalar, 
por qualquer diferena nas conseqncias, se foi a fantasia ou a realidade aquela que teve a participao maior nesses eventos da infncia. Aqui, de novo temos simplesmente 
uma das relaes complementares que mencionei tantas vezes; ela, principalmente,  a mais estranha de todas que j encontramos. De onde procede a necessidade dessas 
fantasias, e o material para elas? No pode haver dvida de que suas fontes situam-se nos instintos; contudo, est ainda por ser explicado por que sempre so geradas 
as mesmas fantasias com o mesmo contedo. Tenho pronta uma resposta, a qual sei que lhes parecer audaciosa. Acredito que essas fantasias primitivas, como prefiro 
denomin-las, e, sem dvida, tambm algumas outras, constituem um acervo filogentico. Nelas, o indivduo se contacta, alm de sua prpria experincia, com a experincia 
primeva naqueles pontos nos quais sua prpria experincia foi demasiado rudimentar. Parece-me bem possvel que todas as coisas que nos so relatadas hoje em dia, 
na anlise, como fantasia - seduo de crianas, surgimento da excitao sexual por observar o coito dos pais, ameaa de castrao (ou, ento, a prpria castrao) 
- foram, em determinada poca, ocorrncias reais dos tempos primitivos da famlia humana, e que as crianas, em suas fantasias, simplesmente preenchem os claros 
da verdade individual com a verdade pr-histrica. Repetidamente tenho sido levado a suspeitar que a psicologia das neuroses tem acumuladas em si mais antiguidades 
da evoluo humana do que qualquer outra fonte.As coisas que acabei de descrever, senhores, compelem-me a examinar mais de perto a origem e a significao da atividade 
mental que se classifica como 'fantasia' [ou 'imaginao']. Conforme os senhores sabem, ela desfruta de uma reputao universalmente elevada, sem que sua posio 
na vida mental tenha sido esclarecida. A seu respeito tenho observaes a fazer. O ego humano, como sabem, , pela presso da necessidade externa, educado lentamente 
no sentido de avaliar a realidade e de obedecer ao princpio de realidade; no decorrer desse processo,  obrigado a renunciar, temporria ou permanentemente, a uma 
variedade de objetos e de fins aos quais est voltada sua busca de prazer, e no apenas de prazer sexual. Os homens, contudo, sempre acharam difcil renunciar ao 
prazer; no podem deixar-se levar a faz-lo sem alguma forma de compensao. Por isso, retiveram uma atividade mental na qual todas aquelas fontes de prazer e aqueles 
mtodos de conseguir prazer, que haviam sido abandonados, tm assegurada sua sobrevivncia - uma forma de existncia na qual se livram das exigncias da realidade 
e aquilo que chamamos 'teste de realidade'. Todo desejo tende, dentro de pouco tempo, a afigurar-se em sua prpria realizao; no h dvida de que ficar devaneando 
sobre imaginrias realizaes de desejos traz satisfao, embora no interfira com o conhecimento de que se trata de algo no-real. Desse modo, na atividade da fantasia, 
os seres humanos continuam a gozar da sensao de serem livres da compulso externa,  qual h muito tempo renunciaram, na realidade. Idearam uma forma de alternar 
entre permanecer um animal que busca o prazer, e ser, igualmente, uma criatura dotada de razo. Na verdade, os homens no podem subsistir com a escassa satisfao 
que podem obter da realidade. 'Simplesmente no podemos passar sem construes auxiliares', conforme disse, certa vez, Theodor Fontane. A criao do reino mental 
da fantasia encontra um paralelo perfeito no estabelecimento das 'reservas' ou 'reservas naturais', em locais onde os requisitos apresentados pela agricultura, pelas 
comunicaes e pela indstria ameaam acarretar modificaes do aspecto original da terra que em breve o tornaro irreconhecvel. Uma reserva natural preserva seu 
estado original que, em todos os demais lugares, para desgosto nosso, foi sacrificado  necessidade. Nesses locais reservados, tudo, inclusive o que  intil e at 
mesmo nocivo, pode crescer e proliferar como lhe apraz. O reino mental da fantasia  exatamente uma reserva desse tipo, apartada do princpio de realidade.As mais 
conhecidas produes da fantasia so os chamados 'devaneios', que j examinamos [ver em [1]], satisfaes imaginrias de desejos ambiciosos, megalomanacos, erticos, 
que florescem com tanto mais exuberncia, quanto mais a realidade aconselha modstia e conteno. A essncia da felicidade da fantasia - tornar a obteno de prazer, 
mais uma vez, livre da aprovao da realidade - mostra-se inequivocamente nesses desejos. Sabemos que tais devaneios so o ncleo e o prottipo dos sonhos noturnos. 
Um sonho noturno , no fundo, nada mais do que um devaneio que se tornou aproveitvel devido  liberao dos impulsos instintuais  noite, e devido ao fato de haver 
sido distorcido pela forma que assume a atividade mental  noite. J nos familiarizamos com a idia de que mesmo um devaneio no  necessariamente consciente - de 
que h tambm devaneios inconscientes [ver em [1]]. Tais devaneios inconscientes so, assim, a fonte no apenas dos sonhos noturnos, mas tambm dos sintomas neurticos.A 
importncia do papel que desempenha a fantasia na formao dos sintomas tornar-se- evidente para os senhores atravs disso que tenho a dizer-lhes. Expliquei [ver 
em [1]] como, em caso de frustrao, a libido reveste de catexias, regressivamente, as posies que abandonou, s quais, porm, permaneceram aderentes determinadas 
parcelas da mesma libido. O que j expliquei, no retiro nem corrijo; porm, devo inserir, aqui, um elo de ligao. Como encontra a libido o caminho para chegar 
a esses pontos de fixao? Todos os objetos e tendncias que a libido abandonou, ainda no foram abandonados em todos os sentidos. Tais objetos e tendncias, ou 
seus derivados, ainda so mantidos, com alguma intensidade, nas fantasias. Assim, a libido necessita apenas retirar-se para as fantasias, a fim de encontrar aberto 
o caminho que conduz a todas as fixaes reprimidas. Essas fantasias gozaram de determinado grau de tolerncia: no entraram em conflito com o ego, por mais fortes 
que possam ter sido os contrastes entre ele, desde que seja observada uma certa condio. Essa condio  de natureza quantitativa e  agora perturbada pelo deslocamento 
da libido para trs, em direo s fantasias. Em conseqncia desse acrscimo, a catexia de energia das fantasias  de tal modo aumentada, que elas comeam a estabelecer 
exigncias e desenvolvem uma presso no sentido de se tornarem realizadas. Mas isto torna inevitvel um conflito entre elas e o ego. Tendo sido anteriormente pr-conscientes 
ou inconscientes, agora esto sujeitas  represso por parte do ego e ficam  merc da atrao por parte do inconsciente. Partindo daquilo que, agora, so fantasias 
inconscientes, a libido movimenta-se para trs, at s origens dessas fantasias no inconsciente - aos seus prprios pontos de fixao.A retrao da libido para a 
fantasia  um estdio intermedirio no caminho da formao dos sintomas e parece que ela requer um nome especial. C.G. Jung introduziu o nome apropriado de 'introverso'; 
mas depois, muito desacertadamente, deu-lhe tambm um outro significado. Continuaremos a considerar que a introverso denota o desvio da libido das possibilidades 
de satisfao real e a hipercatexia das fantasias que at ento foram toleradas como inocentes. Um introvertido no  bem um neurtico, porm se encontra em situao 
instvel: seguramente desenvolver sintomas na prxima modificao da relao de fora, a menos que encontre algumas outras sadas para sua libido represada. O carter 
irreal da satisfao neurtica e a desateno  diferena entre fantasia e realidade j so, por outro lado, determinados pelo fato de ter havido uma demora no estdio 
de introverso.Sem dvida, tero observado que, nessas ltimas explanaes, introduzi um fator novo na estrutura da srie etiolgica - ou seja, a quantidade, a magnitude 
das energias em questo. Ainda temos de levar em conta esse fator em tudo o mais. No basta uma anlise puramente qualitativa dos determinantes etiolgicos. Ou, 
expressando-o de outra maneira,  insuficiente uma viso simplesmente dinmica desses processos mentais; requer-se tambm uma linha de abordagem econmica. Devemos 
dizer para ns mesmos que o conflito entre duas tendncias no irrompe seno quando foram atingidas determinadas intensidades de catexias, ainda que por muito tempo 
tenham estado presentes os fatores determinantes do conflito e referentes ao seu prprio tema. Da mesma forma, a significao patognica dos fatores constitucionais 
deve ser avaliada em relao ao quanto mais de um instinto parcial, do que de outro, est presente na disposio herdada. Pode-se mesmo supor que a disposio de 
todos os seres humanos  qualitativamente semelhante e apenas difere em virtude dessas condies quantitativas. O fator quantitativo no  menos decisivo no que 
respeita  capacidade de resistncia  doena neurtica.  uma questo de saber que quota de libido no-utilizada uma pessoa  capaz de manter em suspenso, e uma 
questo do tamanho da frao de libido que a pessoa  capaz de desviar dos fins sexuais para os fins sublimados. O objetivo fundamental da atividade mental, que 
pode ser descrito qualitativamente como um esforo para obter prazer e evitar desprazer quando examinado do ponto de vista econmico, surge como tarefa que consiste 
em dominar as quantidades de excitao (massa de estmulos) que atuam no aparelho mental e em conter sua acumulao, capaz de gerar desprazer.Era isto, pois, o que 
eu desejava dizer-lhes acerca da formao dos sintomas nas neuroses. No posso, contudo, deixar de mais uma vez acentuar expressamente o fato de que tudo aquilo 
que disse, aqui, aplica-se apenas  formao dos sintomas na histeria. Na prpria neurose obsessiva existe muita coisa diferente - excetuando aspectos fundamentais 
que permanecem inalterados - que ser encontrada. As anticatexias que se opem s exigncias dos instintos (que tambm j abordamos, no caso da histeria [ver em 
[1]]) tornam-se proeminentes na neurose obsessiva e dominam o quadro clnico, assumindo a forma daquilo que se conhece como 'formaes reativas'. Nas demais neuroses 
descobrimos divergncias semelhantes e de maior profundidade ainda, e nelas nossas investigaes dos mecanismos de formao dos sintomas ainda no esto concludas 
em ponto algum.Antes de deix-los ir, gostaria, contudo, de chamar-lhes um pouco mais a ateno para um aspecto da vida de fantasia que merece o mais amplo interesse. 
Isto porque existe um caminho que conduz da fantasia de volta  realidade - isto , o caminho da arte. Um artista , certamente, em princpio um introvertido, uma 
pessoa no muito distante da neurose.  uma pessoa oprimida por necessidades instintuais demasiado intensas. Deseja conquistar honras, poder, riqueza, fama e o amor 
das mulheres; mas faltam-lhe os meios de conquistar essas satisfaes. Conseqentemente, assim como qualquer outro homem insatisfeito, afasta-se da realidade e transfere 
todo o seu interesse, e tambm toda a sua libido, para as construes, plenas de desejos, de sua vida de fantasia, de onde o caminho pode levar  neurose. Sem dvida, 
deve haver uma convergncia de todos os tipos de coisas, para que tal no se torne o resultado completo de sua evoluo; na verdade, sabe-se muito bem com quanta 
freqncia os artistas, em especial, sofrem de uma inibio parcial de sua eficincia devido  neurose. Sua constituio provavelmente conta com uma intensa capacidade 
de sublimao e com determinado grau de frouxido nas represses, o que  decisivo para um conflito. Um artista encontra, porm, o caminho de retorno  realidade 
da maneira expressa a seguir. A dizer a verdade, ele no  o nico que leva uma vida de fantasia. O acesso  regio eqidistante da fantasia e da realidade  permitido 
pelo consentimento universal da humanidade, e todo aquele que sofre privao espera obter dela alvio e consolo. Entretanto, para aqueles que no so artistas,  
muito limitada a produo de prazer que se deriva das fontes da fantasia. A crueldade de suas represses fora-os a se contentarem com esses estreis devaneios aos 
quais  permitido o acesso  conscincia. Um homem que  um verdadeiro artista, tem mais coisa  sua disposio. Em primeiro lugar, sabe como dar forma a seus devaneios 
de modo tal que estes perdem aquilo que neles  excessivamente pessoal e que afasta as demais pessoas, possibilitando que os outros compartilhem do prazer obtido 
nesses devaneios. Tambm sabe como abrand-los de modo que no traiam sua origem em fontes proscritas. Ademais, possui o misterioso poder de moldar determinado material 
at que se torne imagem fiel de sua fantasia; e sabe, principalmente, pr em conexo uma to vasta produo de prazer com essa representao de sua fantasia inconsciente, 
que, pelo menos no momento considerado, as represses so sobrepujadas e suspensas. Se o artista  capaz de realizar tudo isso, possibilita a outras pessoas, novamente, 
obter consolo e alvio a partir de suas prprias fontes de prazer em seu inconsciente, que para elas se tornaram inacessveis; granjeia a gratido e a admirao 
delas, e, dessa forma, atravs de sua fantasia conseguiu o que originalmente alcanara apenas em sua fantasia - honras, poder e o amor das mulheres.
         
         CONFERNCIA XXIV  
         O ESTADO NEURTICO COMUM
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Agora que eliminamos essa parte difcil de nosso trabalho, em nossa ltimas explanaes, proponho que, por algum tempo, abandonemos o assunto e nos voltemos 
para os senhores mesmos.
         Isto porque estou ciente de que os senhores esto insatisfeitos. Imaginaram uma 'Introduo  Psicanlise' muito diferente. O que esperavam ouvir eram exemplos 
vvidos, no teoria. Em determinada ocasio, dizem os senhores, quando lhes contei a parbola 'No Subsolo e no Primeiro Andar' [ver em [1] e [2]], os senhores apreenderam 
algo da forma como so causadas as neuroses; as observaes deveriam ter sido, porm, observaes reais, e no histrias inventadas. Ou quando, no incio, descrevi-lhes 
dois sintomas (esperemos que desta vez no tenham sido inventados), e sua soluo e sua relao com a vida das pacientes [ver em [1]], o 'sentido' dos sintomas se 
revelou aos senhores. Os senhores esperavam que eu prosseguisse nessa linha. Em vez disso, contudo, apresentei-lhes teorias prolixas, difceis de compreender, que 
jamais estiveram completas e sempre tiveram algo de novo a ser acrescentado; operei com determinados conceitos que ainda no lhes havia explanado; passei de uma 
apreciao descritiva das coisas a uma apreciao dinmica, e, da, quilo que chamei de conceituao econmica; tornei difcil para os senhores entender quantos 
dos termos tcnicos que usei significavam a mesma coisa ou eram substitudos apenas por motivos de eufonia; apresentei conceitos de to longo alcance, tais como 
os conceitos dos princpios de prazer e de realidade e o das dotaes filogeneticamente herdadas. E, sem lhes apresentar previamente nada, fiz desfilar diante de 
seus olhos coisas que se tornaram cada vez mais distanciadas dos senhores.Por que no iniciei minha introduo  teoria das neuroses com aquilo que os senhores mesmos 
conhecem a respeito do estado neurtico e que h muito atraiu o interesse dos senhores - as peculiares caractersticas das pessoas neurticas, suas incompreensveis 
reaes ao relacionamento humano e s influncias externas, sua irritabilidade, sua conduta imprevisvel e desarrazoada? Por que no os conduzi, passo a passo, desde 
um entendimento das formas mais simples e mais encontradias do estado neurtico at os problemas de suas manifestaes extremas, enigmticas?
         Em verdade, no posso nem mesmo discordar dos senhores. No estou assim to enamorado de minha habilidade expositiva, a ponto de poder declarar que cada 
uma das falhas de minha exposio constitui um encanto especial. Penso comigo que poderia ter feito mais em benefcio dos senhores, se tivesse agido de outro modo; 
e, com efeito, esta era minha inteno. No entanto, nem sempre se pode levar a cabo as intenes racionais. Freqentemente, no prprio material existe algo que toma 
conta de ns e nos desvia de nossas intenes iniciais. Mesmo uma realizao banal como a organizao de determinada quantidade de material no depende inteiramente 
da escola do autor; as coisas podem tomar o rumo que lhes apraz, e tudo quanto se pode fazer  perguntar-se, aps os fatos, por que estes se passaram desta e no 
daquela maneira.
         Um dos motivos , provavelmente, que o ttulo 'Introduo  Psicanlise' j no mais se aplica  presente seo, que supomos estar tratando das neuroses. 
Uma introduo  psicanlise compe-se do estudo das parapraxias e dos sonhos; a teoria das neuroses  psicanlise propriamente dita. Acredito que no teria sido 
possvel ministrar-lhes conhecimentos sobre o tema da teoria das neuroses em tempo to curto, a no ser em forma resumida. Era uma questo de apresentar-lhes uma 
exposio interligada do sentido e da significao dos sintomas, das causas externas e internas e dos mecanismos de sua formao. Isto  o que procurei fazer; e 
mais ou menos o que atualmente a psicanlise tem a ensinar. Importava em dizer muito coisa sobre a libido e sua evoluo, e tambm um pouco a respeito do desenvolvimento 
do ego. Nossa introduo j os havia preparado com antecedncia para as premissas de nossa tcnica e para os importantes pontos de vista relativos ao inconsciente 
e  represso ( resistncia). Em uma das conferncia seguintes [Conferncias XXVI], os senhores descobriro os pontos a partir dos quais o trabalho da psicanlise 
realiza progressos fundamentais. At agora no tenho mantido em segredo o fato de que tudo aquilo que lhes disse se deriva do estudo de um nico grupo de distrbios 
nervosos - aqueles que se denominam 'neurose de transferncia'. Na verdade, determinei o mecanismo da formao dos sintomas apenas no caso da neurose histrica. 
Ainda que os senhores no tenham adquirido um slido conhecimento e no tenham retido todos os detalhes, eu, no obstante, espero que tenham formado um quadro dos 
mtodos com os quais a psicanlise trabalha, dos problemas que ela acomete e dos resultados aos quais ela chegou atribu aos senhores o desejo de que poderia ter 
comeado minha descrio das neuroses a partir do comportamento das pessoas neurticas, de um relato da maneira pela qual elas sofrem com a neurose, de como se defendem 
contra ela e de como entram em um acordo com ela. Sem dvida,  um tpico interessante, merece ser investigado; e no seria muito difcil sua abordagem. Seria, porm, 
discutvel esse critrio de comear a partir da. Haveria o risco de no descobrir o inconsciente e, ao mesmo tempo, de no atentar para a grande importncia da 
libido, e de julgar todas as coisas conforme elas se afiguram ao ego da pessoa neurtica.  evidente que esse ego no  uma instncia digna de confiana ou imparcial. 
O ego , realmente, o poder que nega e desacredita o inconsciente mantendo-o reprimido; assim, como podemos confiar em que seja justo para com o inconsciente? Os 
elementos mais importantes naquilo que dessa forma est reprimido, so as exigncias da sexualidade rechaadas, e fica bastante evidente que, partindo dos pontos 
de vista prprios do ego, jamais conseguiramos imaginar a extenso e importncia das mesmas. A partir do momento em que a noo de represso se torna clara para 
ns, somos advertidos para que no faamos uma das duas partes litigantes (e, com isso, o lado vitorioso) tornar-se juiz da questo. Estamos preparados para verificar 
que as assertivas do ego nos desorientaro. Se quisermos acreditar no ego, levemos em conta que ele teve a iniciativa em cada etapa do processo e ele prprio desejou 
e construiu os sintomas. Mas sabemos que ele suporta uma boa dose de passividade que, depois, ele tenta disfarar e encobrir.  verdade que nem sempre ele se arrisca 
a uma tal tentativa; nos sintomas da neurose obsessiva, o ego  obrigado a admitir que existe algo de estranho com que se defronta e contra o qual pode defender-se 
apenas com dificuldade.
         Quem quer que no se deixe coibir por essa advertncia e resolva tomar as falsificaes do ego por moeda legtima, vai passar bem, evitar todas as resistncias 
que se opem  nfase dada pela psicanlise ao inconsciente,  sexualidade e  passividade do ego. Poder declarar, como Alfred Adler, que o 'carter neurtico' 
 a causa das neuroses, em vez de ser sua conseqncia; mas no estar em condies de explicar um nico detalhe da formao dos sintomas, ou um nico sonho.    
Os senhores perguntaro se no ser possvel, porm, fazer justia ao papel que o ego desempenha nos estados neurticos e na formao dos sintomas, sem simultaneamente 
desprezar por completo os fatores revelados pela psicanlise. Minha resposta  que isso deve ser possvel, certamente, e, mais cedo ou mais tarde, ser feito; o 
caminho seguido pelo trabalho da psicanlise, porm, no comporta que realmente se comece a partir disso. Naturalmente,  possvel prever que um dia a psicanlise 
se defrontar com semelhante tarefa. H neuroses em que o ego desempenha um papel muito mais marcante do que naquelas que investigamos at o momento; ns as denominamos 
neuroses 'narcsicas'. A investigao desses distrbios nos possibilitar formar um julgamento imparcial e fidedigno da contribuio do ego ao desencadeamento das 
neuroses.Uma das formas pelas quais o ego se relaciona com suas neuroses, entretanto,  to bvia que foi possvel consider-la desde o incio. Parece jamais estar 
ausente; e  reconhecvel com bastante nitidez em um distrbio que, ainda hoje em dia, estamos longe de compreender - a neurose traumtica. Os senhores devem saber 
que os mesmo fatores sempre entram em jogo na causao e no mecanismo de todas as possveis formas de neurose; mas a importncia principal na construo dos sintomas 
recai ora num, ora noutro desses fatores. A situao assemelha-se  dos membros de uma companhia teatral. Cada um deles recebe regularmente a tarefa de desempenhar 
um papel fundamental - heri, confidente, vilo, e assim por diante; cada qual, porm, escolher uma pea diferente para sua prpria representao beneficente. Da 
mesma forma, as fantasias, que se transformam em sintomas, em nenhuma outra neurose so mais evidentes do que na histeria; as anticatexias das formaes reativas 
do ego dominam o quadro nas neuroses obsessivas; aquilo que, no caso dos sonhos, denominamos 'elaborao secundria' [ver em [1]] situa-se em primeiro plano na parania, 
sob a forma de delrios, e assim por diante.Nas neuroses traumticas, e particularmente naquelas causadas pelos horrores da guerra, inequivocamente deparamo-nos, 
assim, com um motivo egosta, por parte do ego,  procura de proteo e vantagem - um motivo que no pode, talvez, produzir por si mesmo a doena, mas que condescende 
com ela e a mantm, uma vez que ela tenha surgido. Esse motivo procura preservar o ego dos perigos cuja ameaa foi a causa precipitante da doena, e no permitir 
que ocorra a recuperao enquanto a repetio desses perigo ainda parea possvel, ou enquanto no tenha recebido a compensao pelo perigo que foi suportado.O ego, 
porm, assume um interesse semelhante no desenvolvimento e na manuteno da neurose em todos os outros casos. J demonstrei [ver em [1]] que os sintomas tambm so 
apoiados pelo ego, porque possuem um aspecto com o qual oferecem satisfao ao propsito repressor do ego. Ademais, apaziguar um conflito construindo um sintoma 
 a soluo mais conveniente e mais agradvel para o princpio de prazer: inquestionavelmente, poupa ao ego uma grande quantidade de trabalho interno que  sentido 
como penoso. Na verdade, h casos em que at mesmo o mdico deve admitir que um conflito terminar em neurose constitui a soluo mais incua e socialmente mais tolervel. 
Os senhores no devem surpreender-se ao ouvir dizer que o prprio mdico, s vezes, pode tomar o partido da doena que est combatendo. No  sua funo limitar-se, 
em todas as situaes da vida, a ser um fantico defensor da sade. Ele sabe que no h apenas misria neurtica no mundo, mas tambm sofrimento real, irremovvel, 
que a necessidade pode mesmo exigir que uma pessoa sacrifique sua sade; e aprende que um sacrifcio dessa espcie, feito por uma nica pessoa, pode evitar incomensurvel 
infelicidade para muitas outras. Portanto, se podemos dizer que sempre que um neurtico enfrenta um conflito ele empreende uma fuga para a doena, assim mesmo devemos 
admitir que, em determinados casos, tal fuga se justifica plenamente, e um mdico que tenha reconhecido a maneira como se configura a situao, haver de se retirar, 
silencioso e apreensivo.Abandonemos, entretanto, esses casos excepcionais e prossigamos com nossa exposio. Em circunstncias comuns, reconhecemos que, refugiando-se 
na neurose, o ego obtm internamente um certo 'ganho proveniente da doena'. Em algumas circunstncias da vida, isto se acompanha, ademais, de uma aprecivel vantagem 
externa que assume um valor real maior ou menor. Considerem o exemplo mais comum desse tipo.  muito comum uma mulher, tratada com rudeza e explorada de forma desumana 
por seu marido, encontrar uma sada na neurose, se sua constituio o possibilita, se  excessivamente covarde ou excessivamente honrada para procurar um consolo 
secreto com outro homem, se em virtude de todos os empecilhos externos no  suficientemente forte para separar-se de seu marido, se no tem perspectivas de se sustentar 
a si prpria ou de conseguir um marido melhor, e se, alm do mais, ainda est, atravs de seus sentimentos sexuais, vinculada a seu cruel marido. Ento a sua doena 
se converte em arma na batalha contra o marido dominador - arma que ela pode usar para sua defesa e da qual pode abusar para sua vingana.  permissvel ela queixar-se 
de sua doena, embora provavelmente no fosse permissvel lamentar o casamento. Ela encontra no mdico um aliado, fora o marido, habitualmente indiferente, a cuidar 
dela, a gastar dinheiro com ela, a permitir-lhe que de tempos em tempos se afaste de casa e com isso se liberte da opresso de estar casada. Quando semelhante ganho 
externo ou secundrio proveniente da doena atinge essas propores e no h nenhum substituto real disponvel, os senhores no devem contar com possibilidades muito 
grande de influenciar a neurose por meio do tratamento que empreenderem.
         Os senhores protestaro, agora, que aquilo que lhes disse a respeito do ganho proveniente da doena, fala completamente em favor do ponto de vista que rejeitei 
- o de que o prprio ego deseja e cria a neurose [ver em [1]]. Devagar, senhores! Talvez no signifique seno que o ego tolera a neurose, que, afinal, no pode evitar; 
e que ele faz o melhor que pode, se  que, no final das contas, algo pode ser feito. Este  apenas um dos lados da questo, o lado agradvel, para dizer a verdade. 
Na medida em que a neurose traz vantagens, o ego, sem dvida, aceita-a; porm, no traz apenas vantagens. Via de regra, logo se verifica que o ego fez mau negcio 
ao optar pela neurose. Ele pagou caro demais por um alvio do conflito, e os sofrimentos ligados aos sintomas so, talvez, um substituto equivalente dos tormentos 
do conflito, mas provavelmente importam em aumento de desprazer. O ego preferiria libertar-se desse desprazer dos sintomas, sem desistir do ganho que lhe d a doena, 
e isto  justamente o que no pode obter. Isto mostra, ento, que o ego no era to completamente ativo como imaginava ser; devemos considerar atentamente esse aspecto.
         Senhores, em seu contato com as neuroses, na qualidade de mdicos, logo desistiro de esperar que aqueles que exibem as maiores lamentaes e queixas acerca 
de sua doena sejam os mais desejosos de cooperar e mostrem a menor resistncia.  bem o inverso disso. Naturalmente, os senhores, contudo, reconhecero com facilidade 
que tudo aquilo que contribui para o ganho proveniente da doena haver de intensificar a resistncia devido represso e aumentar as dificuldades do tratamento. 
 parcela de ganho decorrente da doena que, por assim, dizer, nasceu com a doena, temos de acrescentar uma outra parcela que surge posteriormente. Quando uma organizao 
psquica semelhante a uma doena durou algum tempo, ela termina por funcionar como mecanismo independente; manifesta-se um tanto como instinto de autopreservao; 
estabelece uma espcie de modus vivendi entre si e as outras partes da mente, mesmo aquelas outras partes que lhe so hostis; e raramente deixa de haver ocasies 
em que se comprova que a doena, repetidas vezes, se torna til e adequada, e adquire, por assim dizer, uma funo secundria que refora novamente sua estabilidade. 
Em vez de um exemplo extrado da patologia, tomemos um exemplo flagrante da vida diria. Um operrio, que com sua capacidade ganha sua vida, vem a sofrer uma mutilao 
num acidente ocorrido durante o trabalho. Esse homem, assim aleijado, no pode mais trabalhar; porm, afinal, consegue uma pequena penso por invalidez e aprende 
como explorar sua mutilao pedindo esmolas. Seu novo, embora piorado, meio de vida se baseia justamente naquela mesma coisa que o privou de seu meio de vida anterior. 
Se os senhores pudessem pr fim  sua mutilao, poderiam fazer, inicialmente, com que ele ficasse sem seu meio de vida; surgiria ento a questo de saber se ele 
ainda seria capaz de retomar seu trabalho anterior. No caso das neuroses, o que corresponde a uma semelhante explorao secundria de uma doena pode ser descrito 
como ganho secundrio da doena em contraste com o ganho primrio.Em geral, porm, gostaria de recomendar que, conquanto no subestimando a importncia prtica do 
ganho proveniente da doena, os senhores no devem deixar-se impressionar pelo mesmo, teoricamente. Afinal,  parte as excees que apontei anteriormente [ver em 
[1]], isto sempre leva a pensar nos exemplos de 'inteligncia animal' ilustrados por Oberlnder em Fliegende Bltter.Uma rabe ia montado em seu camelo, percorrendo 
uma trilha estreita cortada na encosta ngreme de uma montanha. Numa curva da trilha, subitamente se viu frente a frente com um leo que j se preparava para dar 
o salto. Ele no via escapatria: de um lado, um rochedo perpendicular e, de outro, um precipcio; fuga e luta eram impossveis. Considerou-se perdido. Mas o camelo 
pensou diferente. De um salto, lanou-se com o rabe ao abismo - e o leo ficou sem nada. A ajuda que proporciona uma neurose no representa, geralmente, melhor 
soluo para o paciente. Isto pode suceder porque lidar com um conflito produzindo sintomas , afinal, um processo automtico que no pode se mostrar adequado para 
arrostar as exigncias da vida e no qual a pessoa abandonou o uso das sua melhores e mais elevadas capacidades. Se houvesse uma escolha, seria prefervel descer 
 lia para uma honrosa luta com o destino.
         Entretanto, ainda lhes devo outros esclarecimentos do motivo por que no iniciei minha exposio da teoria das neuroses com o estado neurtico comum. Os 
senhores podem supor, talvez, que isto sucedeu porque, nesse caso, eu teria tido maior dificuldade de provar a causao sexual das neuroses. Mas nisso os senhores 
poderiam estar enganados. No caso das neuroses de transferncia, deve-se achar a soluo atravs da interpretao dos sintomas, antes de se poder chegar a essa descoberta. 
Nas formas comuns daquilo que se conhece como 'neuroses atuais' a significao etiolgica da vida sexual  um fato indisfarado que salta aos olhos do observador. 
Encontrei-a h mais de vinte anos, quando, certo dia, indagava a mim prprio da razo por que, no exame dos neurticos, suas atividades sexuais so to regularmente 
excludas de qualquer considerao. Naquela poca, sacrifiquei minha popularidade junto a meus pacientes, em benefcio dessas investigaes; bastou apenas um breve 
esforo para que pudesse declarar que, 'se a vita sexualis  normal, no pode haver neurose' - e, como isso, eu quis dizer 'neurose atual'. Sem dvida, essa afirmao 
passa muito de leve sobre as diferenas individuais das pessoas; e padece, tambm, da impreciso, que  inseparvel do julgamento daquilo que  'normal'. Vista como 
diretriz geral, mantm, contudo, o seu valor at hoje. Naquela poca, eu chegara a estabelecer relaes especficas entre determinadas formas de neuroses e determinadas 
influncias nocivas sexuais; e no tenho dvidas de que poderia, hoje, repetir as mesmas observaes, se ainda estivesse  minha disposio um material patolgico 
parecido. Muitssimas vezes verifiquei que um homem que se excedeu em determinado tipo de satisfao sexual incompleta (por exemplo, masturbao manual) havia adoecido 
de determinada forma de 'neurose atual', e que essa neurose prontamente dava lugar a uma outra, se substitusse seu regime sexual por outro igualmente nada irrepreensvel. 
Naquele tempo, estava em situao de concluir que, no paciente, havia se operado uma mudana na sua vida sexual, a partir de uma modificao em sua condio. Tambm 
aprendi, nessa poca, a manter obstinadamente minha hiptese, at haver vencido a insinceridade dos pacientes e hav-los compelido a confirmar meus pontos de vista. 
 verdade que, depois disso, eles preferiram ir a outros mdicos que no fizeram essas indagaes meticulosas sobre sua vida sexual.Mesmo nessa poca, no pude deixar 
de perceber que a causao da doena nem sempre aponta para a vida sexual. Uma pessoa,  fato, adoeceu por uma influncia nociva sexual direta; mas uma outra adoeceu 
porque perdeu sua fortuna ou porque sofreu uma doena orgnica exaustiva. A explicao dessas diferenas veio posteriormente, quando compreendemos as inter-relaes, 
de que j suspeitvamos, entre o ego e a libido, e a explicao se tornou mais satisfatria  medida que essa compreenso se aprofundava. Uma pessoa somente adoece 
de uma neurose se seu ego perdeu a capacidade de diversificar, de algum modo, sua libido. Quanto mais forte  seu ego, mais fcil lhe ser executar essa tarefa. 
Qualquer enfraquecimento do seu ego por qualquer causa deve ter o mesmo efeito, agindo como um aumento excessivo das exigncias da libido, e, por isso, lhe possibilitar 
adoecer de uma neurose. Existem outras relaes, mais ntimas, entre o ego e a libido; estas, porm, ainda no se enquadram em nosso objetivo, de modo que no as 
abordarei como parte desta minha presente explanao. O que continua essencial e nos esclarece coisas  que, em todos os casos, e seja qual for o modo como a doena 
se ps em marcha, os sintomas da neurose so mantidos pela libido, e, por conseguinte, so prova de que ela est sendo utilizada anormalmente.
         Agora, entretanto, devo chamar a ateno dos senhores para a decisiva diferena entre os sintomas das neuroses 'atuais' e os das psiconeuroses, das quais 
o primeiro grupo, as neuroses de transferncia, nos manteve to ocupados at agora. Em ambos os casos, os sintomas se originam da libido, e constituem, portanto, 
empregos anormais da mesma; so satisfaes substitutivas. Mas os sintomas das neuroses 'atuais' - presso intracraniana, sensaes de dor, estado de irritao em 
um rgo, enfraquecimento ou inibio de uma funo - no tm nenhum 'sentido', nenhum significado psquico. No s se manifestam predominantemente no corpo (como, 
por exemplo, os sintomas histricos, entre outros), como tambm constituem, eles prprios, processos inteiramente somticos, em cuja origem esto ausentes todos 
os complicados mecanismos mentais que j conhecemos. Assim, realmente so a mesma coisa que h tanto tempo acreditava-se serem os sintomas psiconeurticos. Mas, 
sendo assim, com podem eles corresponder a empregos da libido, que reconhecemos como fora que opera na mente? Bem, senhores, isto  algo muito simples. Permitam-me 
lembrar-lhes uma das primeiras objees levantadas contra a psicanlise. Foi dito, ento, que esta se ocupava em encontrar uma teoria puramente psicolgica dos fenmenos 
neurticos, e que isso era uma causa perdida, de vez que as teorias psicolgicas jamais poderiam explicar uma doena. As pessoas haviam optado por esquecer que a 
funo sexual no  uma coisa puramente psquica, da mesma forma como no  uma coisa puramente somtica. Influencia igualmente a vida corporal e mental. Se, nos 
sintomas das psiconeuroses, nos familiarizamos com as manifestaes de distrbios na atuao psquica da funo sexual, no nos surpreenderemos ao encontrar nas 
neuroses 'atuais' as conseqncias somticas diretas dos distrbios sexuais.A clnica mdica deu-nos uma indicao valiosa para uma interpretao desses distrbios, 
uma indicao que foi objeto de consideraes por vrios investigadores. As neuroses 'atuais', nos detalhes de seus sintomas e tambm em sua caracterstica de exercer 
influncia em todo sistema orgnico e toda funo, mostram uma inconfundvel semelhana com os estados patolgicos que surgem da influncia crnica de substncias 
txicas externas e de uma suspenso brusca das mesmas - as intoxicaes e as situaes de abstinncia. Os dois grupos de distrbios se aproximam mais intimamente 
por meio de condies intermedirias, tal como a doena de Grave, que sabemos ser, tambm ela, devida  ao de substncias txicas, porm de toxinas no introduzidas 
no corpo, mas originadas no prprio metabolismo da pessoa. Em vista dessa analogias, penso que no podemos evitar considerarmos as neuroses resultado de distrbios 
no metabolismo sexual, seja porque se produzem mais toxinas do que o indivduo pode metabolizar, seja porque as condies internas, e at mesmo as condies psquicas, 
limitam o emprego adequado dessas substncias. Desde tempos imemoriais, a concepo popular tem prestado homenagem a hipteses dessa espcie a respeito da natureza 
do desejo sexual, falando do amor como uma 'intoxicao' e crendo que o apaixonar-se  causado por filtros de amor - embora aqui o agente atuante esteja, em certa 
medida, externalizado. E para ns esta seria a ocasio de relembrar as zonas ergenas e nossa afirmao de que a excitao sexual pode ser gerada nos mais variados 
rgos [ver em [1]]. Mas, para o restante, a expresso 'metabolismo sexual' ou 'qumica da sexualidade'  um termo sem contedo; no sabemos nada a esse respeito, 
nem podemos dedicar se devemos supor a existncia de duas substncias sexuais, se seriam ento denominadas 'masculina' e 'feminina', ou se poderamos nos contentar 
com uma toxina sexual que deveramos reconhecer como veculo de todos os efeitos estimulantes da libido. A estrutura terica da psicanlise, que criamos, , com 
efeito, uma superestrutura, que um dia ter de se erguer sobre seus fundamentos essenciais. Acerca disso, porm, nada sabemos ainda.O que caracteriza a psicanlise 
como cincia no  o material de que trata, mas sim a tcnica com a qual trabalha. Pode ser aplicada  histria da civilizao,  cincia da religio e da mitologia 
no em menor medida do que  teoria das neuroses, sem forar sua natureza essencial. Aquilo a que ela visa, aquilo que realiza, no  seno descobrir o que  inconsciente 
na vida mental. Os problemas das neuroses 'atuais', cujos sintomas provavelmente so gerados por uma leso txica direta, no oferecem  psicanlise qualquer ponto 
de ataque. Ela pouco pode fazer para esclarec-los e deve deixar a tarefa para a pesquisa biolgica-mdica.E ento, talvez os senhores entendam melhor por que decidi 
no ordenar meu material de outro modo. Se lhes tivesse prometido uma 'Introduo  Teoria das Neuroses', o caminho correto certamente teria levado desde as formas 
simples das neuroses 'atuais' s doenas psquicas mais complicadas, devidas  perturbao da libido. No que concerne s primeiras, deveria ter coligido de fontes 
vrias aquilo que temos aprendido ou pensamos saber e, com relao s psiconeuroses, a psicanlise surgiria na discusso, como o recurso tcnico mais importante 
para esclarecer esses estados. No entanto, o que eu pretendi dar, e anunciei, foi uma 'Introduo  Psicanlise'. Para mim, era mais importante os senhores formarem 
uma idia sobre a psicanlise, do que obterem algum conhecimento das neuroses; e, por essa razo, as neuroses 'atuais', improdutivas no que concerne  psicanlise, 
no podiam mais ocupar um lugar em primeiro plano. Penso tambm que fiz a melhor escolha para os senhores. Isso porque, devido  profundidade de suas hipteses e 
ao alcance de duas conexes, a psicanlise merece um lugar no mbito dos interesses de toda pessoa culta, ao passo que a teoria das neuroses  um captulo da medicina 
como outro qualquer.
         Ainda assim, os senhores acertadamente esperaro que devamos dedicar tambm algum interesse s neuroses 'atuais'. A ntima conexo clnica dessas neuroses 
com as psiconeuroses nos compeliria a faz-lo. Posso informar-lhes, pois, que distinguimos trs formas puras de neuroses 'atuais': neurastenia, neurose de angstia 
e hipocondria. Mesmo essa assertiva no  isenta de contradies. Todos os nomes esto em uso,  verdade; porm, seu contedo  impreciso e instvel. Alis, existem 
mdicos que se opem a qualquer linha divisria no mundo catlico dos fenmenos neurticos, a qualquer separao das entidades clnicas ou das doenas individualizadas, 
e que nem sequer reconhecem a distino entre as neuroses 'atuais' e as psiconeuroses. Penso que nisto se excedem e no escolheram o caminho que conduz ao progresso. 
As formas de neurose, que mencionei, ocasionalmente ocorrem em sua forma pura; mais freqentemente, porm, esto mescladas umas com as outras e com algum distrbio 
psiconeurtico. Isto no deve levar-nos a abandonar a diferena entre elas. Pensem na diferena entre o estudo dos minerais e o das rochas, na mineralogia. Os minerais 
so descritos como substncias individualizadas, sem dvida com base no fato de que amide ocorrem na forma de cristais, nitidamente separadas de seu ambiente. As 
rochas consistem em um agregado de minerais, que, podemos ter certeza, no vieram a se juntar por acaso, mas em conseqncia daquilo que determinou sua origem. Na 
teoria das neuroses, ainda sabemos muito pouco sobre o curso de seu desenvolvimento para apresentar algo semelhante  petrologia. Estaremos, contudo, certamente 
agindo de forma correta, se comearmos por isolar do conjunto as entidades clnicas individuais que reconhecemos e que se podem comparar aos minerais.Uma notvel 
relao entre os sintomas das neuroses atuais e os das psiconeuroses oferece mais uma importante contribuio ao nosso conhecimento da formao dos sintomas nestas 
ltimas. Pois um sintoma de uma neurose 'atual'  freqentemente o ncleo e o primeiro estdio de um sintoma psiconeurtico. Uma relao dessa espcie pode ser observada 
com muita nitidez entre a neurastenia e a neurose de transferncia, conhecida como 'histeria de converso', entre a neurose de angstia e a histeria de angstia, 
contudo tambm entre a hipocondria e as formas de distrbio que sero mencionadas posteriormente [ver em [1] e segs.] sob o nome de parafrenia (demncia precoce 
e parania). Tomemos como exemplo um caso de dor de cabea ou dor lombar histrica. A anlise nos mostra que, pela condensao e pelo deslocamento, o sintoma tornou-se 
satisfao substitutiva de toda uma srie de fantasias e recordaes libidinais. Mas essa dor, em determinada poca, era tambm uma dor real e era, ento, um sintoma 
sexual-txico direto, expresso somtica de uma excitao libidinal. Longe estamos de afirmar que todos os sintomas histricos contm um ncleo dessa espcie. Mas 
persiste o fato de que este , com especial freqncia, o caso, e que quaisquer influncias somticas (normais ou patolgicas) causadas por excitaes libidinais 
so preferidas na construo dos sintomas histricos. Em tais casos, desempenham o papel do gro de areia que um molusco cobre de camadas de madreprola. Da mesma 
forma, as transitrias indicaes de excitao sexual que acompanham o ato sexual no utilizadas pela psiconeurose como o material mais conveniente e apropriado 
para a construo dos sintomas.Semelhante sucesso de fatos reveste-se de especial interesse diagnstico e teraputico. No  absolutamente raro acontecer, no caso 
de uma pessoa que est predisposta a uma neurose sem realmente sofrer de uma neurose manifesta, que uma modificao somtica patolgica (talvez por inflamao ou 
leso) pe em marcha a atividade da formao do sintoma; assim, essa atividade prontamente transforma o sintoma, que lhe foi apresentado pela realidade, em representante 
de todas as fantasias inconscientes que estavam apenas aguardando a ocasio de lanar mo de algum meio de expresso. Num caso destes, o mdico adotar ora uma, 
ora outra linha de tratamento. Ou se esforar por abolir a base orgnica, sem importar-se com a ruidosa elaborao neurtica; ou atacar a neurose que aproveitou 
essa oportunidade favorvel para surgir, e prestar pouca ateno  sua causa precipitante orgnica. O resultado mostrar que uma ou outra linha de conduta est 
certa ou errada;  impossvel fazer recomendaes gerais para abordar esses casos mistos.
         
         
         
         
         
         CONFERNCIA XXV  
         A  ANSIEDADE
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         O que lhes disse em minha ltima conferncia a respeito do estado neurtico geral deve t-los surpreendido, sem dvida, como o mais incompleto e inadequado 
de todos os meus pronunciamentos. Sei que  verdade, e nada deve t-los surpreendido mais, segundo espero, do que no haver nessa conferncia nada a respeito da 
ansiedade, da qual todos os neurticos se queixam, e descrevem como sendo seu pior sofrimento e que, de fato, neles atinge enorme intensidade, e pode resultar nas 
atitudes mais loucas. Entretanto, ali, pelo menos, no tive a inteno de oferecer-lhes resumos. Ao contrrio, foi minha inteno abordar o problema da ansiedade 
nos neurticos de forma especialmente acurada e discuti-lo em profundidade com os senhores.A ansiedade, como tal, no h por que apresent-la Aos senhores. Cada 
um de ns experimentou essa sensao, ou, para expressar com maior correo, esse estado afetivo, numa ou noutra poca, por nossa prpria conta. Penso, porm, que 
jamais com seriedade suficiente levantou-se a questo de saber por que os neurticos, em particular, sofrem de ansiedade tanto mais e to mais intensamente do que 
outras pessoas. Talvez tenha sido considerado como algo evidente poR si mesmo: as palavras 'nervs' e 'angstlich' so usadas comumente de modo intercambivel, como 
se significassem a mesma coisa. Mas no temos o direito de faz-lo: existem pessoas 'ngstliche' que, de outro modo, no so absolutamente 'nervs', e ademais, no 
inclui pessoas 'nervse' que padecem de muitos sintomas, entre os quais uma tendncia  'Angst'.Qualquer que seja o caso, no h dvida de que o problema da ansiedade 
 um ponto nodal para o qual convergem as mais diversas e importantes questes, um enigma cuja soluo dever inundar de luz toda nossa existncia mental. No afirmarei 
que lhes possa dar essa soluo completa; certamente, porm, os senhores esperaro que a psicanlise empreenda, em relao a esse tema, uma abordagem muito diferente 
da realizada pela medicina acadmica. Parece que o interesse se manteve centrado em traar as vias anatmicas ao longo das quais o estado de ansiedade se concretiza. 
Foi-nos dito que a medula ablonga  estimulada, e o paciente conhece que est sofrendo de uma neurose de nervo vago. A medula oblonga  algo muito srio e atraente. 
Recordo-me, muito vivamente, de quanto tempo e preocupao dediquei ao seu estudo, h muitos anos passados. Hoje em dia, entretanto, devo observar que no conheo 
nada que possa ter menos interesse para mim, ao tratar-se da compreenso psicolgica da ansiedade, do que o conhecimento dos trajetos dos nervos, por cuja extenso 
passam suas excitaes.
          possvel, no princpio, trabalhar o tema da ansiedade, por um tempo considervel, sem absolutamente pensar nos estados neurticos. De imediato, os senhores 
me entendero, quando eu descrever essa espcie de ansiedade como ansiedade 'realstica', em contraste com ansiedade 'neurtica'. A ansiedade realstica atrai nossa 
ateno como algo muito racional e inteligvel. Podemos dizer que ela  uma reao  percepo de um perigo externo - isto , de um dano que  esperado e previsto. 
Est relacionada ao reflexo de fuga e pode ser visualizada como manifestao do instinto de autopreservao. Saber em que ocasies a ansiedade aparece - isto , 
em face de que objetos e de que situaes - depende, naturalmente, em grande medida, do estado de conhecimento da pessoa e do seu senso de poder vis--vis com o 
mundo externo. Podemos compreender muito bem como um selvagem tem medo de um canho e fica temeroso de um eclipse do sol, ao passo que o homem branco, que sabe como 
manejar a arma e pode prever o eclipse, permanece sem ansiedade nessas circunstncias. Em outras ocasies,  realmente o conhecimento superior que promove a ansiedade, 
porque possibilita um reconhecimento muito precoce do perigo. Assim, o selvagem ficar aterrorizado com um rastro na floresta, porque este o avisa da proximidade 
de um animal bravio; o mesmo rastro nada indica para uma pessoa desinformada dessas coisas; e um marinheiro experimentado sentir temor ao ver uma pequena nuvem 
no cu, porque ela lhe fala de um tufo aproximando-se; para um passageiro, a nuvem parecer algo banal.
         Numa ponderao adicional, devemos dizer a ns mesmos que nosso julgamento, segundo o qual a ansiedade realstica  racional e vantajosa, requer uma reviso 
drstica. Isto porque o nico comportamento vantajoso, quando surge a ameaa de um perigo, seria uma fria avaliao da fora da prpria pessoa em comparao com 
a magnitude da ameaa; e, com base nisto, a deciso de fugir, ou de se defender, ou mesmo, possivelmente, de passar ao ataque, oferecem a melhor perspectiva de uma 
sada bem sucedida. Nessa situao, contudo, no h absolutamente lugar para a ansiedade; tudo o que acontece seria conseguido to bem e provavelmente melhor, se 
no tivesse surgido a ansiedade. E os senhores podem verificar, realmente, que, se a ansiedade for excessivamente grande, ela se revela inadequada no mais alto grau; 
paralisa toda ao, inclusive, at mesmo, a fuga. Em geral, a reao ao perigo consiste numa mistura de afeto de ansiedade e de ao defensiva. Um animal aterrorizado 
sente medo e foge; mas a parte adequada desse processo  a 'fuga' e no o 'estar com medo'.
         Assim, -se tentado a afirmar que a gerao da ansiedade nunca  uma coisa apropriada. Talvez nos possa ajudar a vermos mais claramente essa questo, dissecar 
mais cuidadosamente a situao de ansiedade. Nesta, a primeira coisa pertinente  o estudo de preparao para o perigo, que se manifesta por meio de um aumento da 
ateno sensria e da tenso motora. Esse estado de preparao expectante pode ser indubitavelmente reconhecido como uma vantagem; na realidade, sua ausncia pode 
ser responsabilizada por graves conseqncias. Dele decorrem, ento, por um lado, a ao motora - fuga, num primeiro caso, e, em nvel mais elevado, defesa ativa 
- e, por outro lado, o que sentimos como um estado de ansiedade. Quanto mais a gerao de ansiedade limitar-se a um incio meramente frustrado - a um sinal -, tanto 
mais o estado de preparao para a ansiedade se transformar, sem distrbio, em ao, e mais adequada ser a forma assumida pela totalidade da sucesso dos fatos. 
Por conseguinte, o estado de preparao para a ansiedade parece-me ser o elemento adequado daquilo que denominamos e a gerao de ansiedade, o elemento inadequado.Evitarei 
aprofundar-me na questo de saber se nosso uso idiomtico quer significar a mesma coisa, ou algo nitidamente diferente, com a palavra 'Angst [ansiedade]', 'Furcht 
[medo]' e 'Schreck [susto]'. Apenas direi que julgo 'Angst' referir-se ao estado e no considera o objeto, ao passo que 'Furcht' chama a ateno precisamente para 
o objeto. Parece que 'Schreck', por outro lado, tem sentido especial; isto , pe nfase no efeito produzido por um perigo com o qual a pessoa se defronta sem qualquer 
estado de preparao para a ansiedade. Portanto, poderamos dizer que uma pessoa se protege do medo por meio da ansiedade.No lhes ter passado despercebida alguma 
ambigidade e impreciso no uso da palavra 'Angst'. Por 'ansiedade' geralmente entendemos o estado subjetivo de que somos tomados ao perceber o 'surgimento da ansiedade', 
e a isto chamamos afeto. E o que  um afeto, no sentido dinmico? Em todo caso,  algo muito complexo. Um afeto inclui, em primeiro lugar, determinadas inervaes 
ou descargas motoras e, em segundo lugar, certos sentimentos; estes so de dois tipos: percepes das aes motoras que ocorreram e sensaes diretas de prazer e 
desprazer que, conforme dizemos, do ao afeto seu trao predominante. No penso, todavia, que com essa enumerao tenhamos chegado  essncia de um afeto. Parecemos 
ver em maior profundidade no caso de alguns afetos e reconhecer que o cerne que rene a combinao que descrevemos  a repetio de alguma experincia significativa 
determinada. Essa experincia s poderia ser uma impresso recebida num perodo muito inicial, de natureza muito genrica, situada na pr-histria, no do indivduo, 
mas da espcie. Para fazer-me mais inteligvel - um estado afetivo seria formado da mesma maneira que um ataque histrico, e, como esse, seria o precipitado de uma 
reminiscncia. Um ataque histrico pode, assim, ser equiparado a um afeto individual recentemente formado, e um afeto normal pode ser comparado  expresso de uma 
histeria geral que se tornou herana.No suponham que as coisas que lhes disse aqui, a respeito de afetos, so propriedade reconhecida da psicologia normal. Pelo 
contrrio, so pontos de vista que cresceram em solo psicanaltico e so originrios apenas da psicanlise. Aquilo que, a partir da psicologia, os senhores podem 
reunir acerca dos afetos - a teoria de James-Lange, por exemplo - para ns, psicanalistas, est muito alm do entendimento ou do debate. Tambm no consideramos 
muito firmados nossos conhecimentos a respeito dos afetos; esta  uma primeira tentativa de encontrar nossa orientao nessa regio obscura. Entretanto prosseguirei. 
Acreditamos que, no caso do afeto da ansiedade, sabemos qual  a vivncia original que ele repete. Acreditamos ser no ato do nascimento que ocorre a combinao de 
sensaes desprazveis, impulsos de descarga e sensaes corporais, a qual se tornou o prottipo dos efeitos de um perigo mortal, e que desde ento tem sido repetida 
por ns como rigor mortal, e que desde ento tem sido repetida por ns como o estado de ansiedade. O enorme aumento de estimulao devido  interrupo da renovao 
do sangue (respirao interna) foi, na poca, a causa da experincia da ansiedade; a primeira ansiedade foi, assim, uma ansiedade txica. O substantivo 'Angst' - 
'angustiae', 'Enge', - acentua a caracterstica de limitao da respirao que ento se achava presente em conseqncia da situao real, e , agora, quase invariavelmente 
recriada no afeto. Do mesmo modo, reconhecemos como altamente significativo que esse primeiro estado de ansiedade surgiu quando da separao da me. Naturalmente, 
estamos convencidos de que a tendncia a repetir o primeiro estado de ansiedade foi to firmemente incorporada no organismo, atravs de incontveis sries de geraes, 
que um nico indivduo no pode escapar do afeto de ansiedade, mesmo que, como o legendrio Macduff, ele 'tenha sido expulso do tero materno fora de tempo' e, portanto, 
no tenha experimentado o ato do nascimento. No sabemos dizer o que  que se tornou o prottipo do estado de ansiedade no caso de outros seres alm dos mamferos. 
E, do mesmo modo, no sabemos mesmo que complexo de sensao constitui, nesses seres, o equivalente de nossa ansiedade.Talvez lhes interesse saber como pde algum 
formar essa idia de que o ato do nascimento  a origem e o prottipo do afeto de ansiedade. Nisto a especulao teve muito escassa participao; antes, o que fiz 
foi tom-la emprestada da nave mente popular. H muitos anos atrs, numa ocasio em que me encontrava em um restaurante com diversos outros jovens mdicos do hospital, 
para uma refeio do meio-dia, um mdico assistente do departamento de obstetrcia contou-nos um episdio cmico, acontecido no ltimo exame para parteiras. Perguntou-se 
a uma candidata o que significava o aparecimento de mecnio (excrementos), no nascimento, quando da expulso das guas, e ela prontamente respondeu: 'significa que 
a criana est com medo.' Ela foi objeto de risos e foi reprovada no exame. Porm, silenciosamente, tomei o partido dela e comecei a suspeitar de que essa mulher 
simples, proveniente das classes mais humildes, tinha apontado com preciso para uma correlao importante.
         Se agora passarmos a considerar a ansiedade neurtica, que novas formas e situaes se manifestam na ansiedade dos neurticos? Aqui, h muita coisa a descrever. 
Em primeiro lugar, encontramos uma apreenso generalizada, uma espcie de ansiedade livremente flutuante, que est pronta para se ligar a alguma idia que seja de 
algum modo apropriada a esse fim, que influencia o julgamento, seleciona aquilo que  de se esperar, e est aguardando qualquer oportunidade que lhe permita justificar-se. 
A esse estado denominamos 'ansiedade expectante' ou 'expectativa ansiosa'. As pessoas atormentada por esse tipo de ansiedade sempre prevem as mais terrveis de 
todas as possibilidades, interpretam todos os eventos casuais como pressgio do mal e exploram todas as incertezas num mau sentido. Semelhante tendncia a uma expectativa 
do mal pode ser encontrada na forma de trao de carter em muitas pessoas de quem no se pode, de outro modo, dizer serem doentes; diz-se que so superansiosas ou 
pessimistas. Uma desmesurada quantidade de ansiedade, porm, compe um aspecto constante de um distrbio nervoso ao qual dei o nome de 'neurose de angstia' e que 
incluo entre as neuroses 'atuais'.Uma segunda forma de ansiedade, em oposio quela que acabei de descrever,  psiquicamente ligada e vinculada a determinados objetos 
e situaes. Esta  a ansiedade das 'fobias', extremamente multiformes e freqentemente muito estranhas. Stanley Hall [1914], o respeitvel psiclogo americano, 
recentemente deu-se ao trabalho de nos apresentar uma srie inteira dessas fobias em toda a magnificncia dos seus nomes gregos. Tal soa como uma lista da dez pragas 
do Egito, embora seu nmero v bem alm de dez.3 Ouam todas as coisas que se podem tornar objeto ou contedo de uma fobia: escurido, ar livre, espaos abertos, 
gatos, aranhas, lagartas, cobras, ratos, trovoadas, pontas agudas, sangue, espaos fechados, multides, solido, atravessar pontes, viagens martimas, viagens de 
trem, etc. etc. Uma primeira tentativa de orientao nessa balbrdia sugere que se faa uma diviso em trs grupos. Alguns dos objetos de situaes temidos tm em 
si algo de perigoso para as pessoas normais tambm, alguma relao com perigo; e tais fobias, portanto, no nos parecem ininteligveis, embora sua intensidade seja 
muito exagerada. Assim, a maioria dentre ns tem uma sensao de repulsa ao encontrar uma cobra. A fobia s cobras, poderamos dizer,  uma caracterstica humana 
generalizada; e Darwin [1889, 40] descreveu, de modo muito impressionante, como no conseguiu evitar sentir medo de uma que o atacou, embora soubesse que estava 
protegido dela por uma espessa lmina de vidro. Podemos situar em um segundo grupo os casos nos quais uma relao a uma situao de perigo ainda existe, embora estejamos 
acostumados a minimizar o perigo e a no prev-lo. A maioria das fobias de situao pertence a esse grupo. Sabemos que existe maior possibilidade de acidente quando 
estamos viajando de trem, do que quando estamos em casa - a possibilidade de uma coliso; tambm sabemos que um navio pode afundar, e, nesse caso, existe a probabilidade 
de afogamento; mas no pensamos nesses perigos, e viajamos de trem e de navio sem ansiedade.  indiscutvel que cairamos no rio, se a ponte russe no momento em 
que a estivssemos cruzando; isto, contudo, acontece to raramente, que no parece constituir um perigo. A solido tambm tem seus perigos e, em determinadas circunstncias, 
evitamo-la; no se d, porm, o caso de no sermos capazes de suport-la em quaisquer condies, nem que seja por um momento. A mesma coisa procede com relao s 
multides, aos espaos fechados, s trovoadas, e assim por diante. Em geral, nessas fobias dos neurticos, o que nos parece estranho no  tanto o seu contedo, 
 mais a sua intensidade. A ansiedade das fobias  efetivamente avassaladora. E s vezes temos a impresso de que aquilo que os neurticos temem no so absolutamente 
as mesmas coisas e situaes, que, em determinadas circunstncias, podem causar ansiedade tambm a ns, e que eles descrevem com as mesmas palavras.
         Resta-nos um terceiro grupo de fobias, o qual est alm de nossa compreenso. Quando um homem adulto e forte , por causa de sua ansiedade, incapaz de caminhar 
por uma rua ou de atravessar uma praa de sua conhecida cidade natal; quando uma mulher sadia, bem desenvolvida,  tomada de irracional ansiedade porque um gato 
roou na fmbria do seu vestido ou porque um rato correu atravs do aposento - como poderemos correlacionar essa coisas com o perigo que, evidentemente, constituem 
para a pessoa fbica? No caso dessas fobias a animais, no h dvida de que se trata de um exagero de averses humanas universais, pois, como que para demonstrar 
o contrrio, h numerosas pessoas que no podem passar por um gato sem afag-lo e acarici-lo. O rato, de que essas mulheres tm tanto medo, tambm  [em alemo] 
um dos principais termos de afeio; uma jovem que se delicia quando o namorado a chama de ratinho, muitas vezes haver de gritar aterrorizada quando enxergar a 
amvel criatura que leva esse nome. No caso do homem com agorafobia, a nica explicao que podemos obter  ele comportar-se como uma criana pequena. Uma criana 
realmente  ensinada, como parte de sua educao, a evitar essas situaes por serem perigosas; e nossa agorafbico ser, de fato, protegido de sua ansiedade se 
o acompanharmos atravs da praa.
         As duas formas de ansiedade que acabei de descrever - a ansiedade expectante livremente flutuante e o tipo que se liga s fobias - so independentes uma 
da outra. Uma no , por assim dizer, um estdio mais avanado da outra; e s aparecem simultaneamente em casos excepcionais e, diramos, de modo casual. O estado 
e apreenso geral mais intenso no necessita ser expresso em fobia; pessoas cuja existncia inteira  limitada por agorafobia podem ser inteiramente livres de ansiedade 
expectante pessimista. Algumas fobias - por exemplo, agorafobia e fobia a trens - conforme se pode demonstrar, so adquiridas em idade bastante madura, ao passo 
que outras - tais como medo de escurido, de trovoadas e de animais - parecem ter estado presentes desde o incio. As do primeiro tipo tm a significao de doenas 
graves; as ltimas surgem mais como excentricidades ou esquisitices. Se uma pessoa mostra possuir uma destas ltimas, pode-se suspeitar, via de regra, que ter outras 
parecidas. Devo acrescentar que classificamos todas essas fobias como histeria de angstia; ou seja, considerando-as um distrbio estreitamente relacionado com a 
conhecida histeria de converso [ver em [1]]. A terceira forma de ansiedade neurtica apresenta-nos o fato enigmtico de que, aqui, a conexo entre a ansiedade e 
um perigo ameaador foge completamente  nossa percepo. Por exemplo, a ansiedade pode aparecer, na histeria, como acompanhamento dos sintomas histricos, ou em 
alguma situao fortuita de excitao, na qual certamente esperaramos alguma manifestao de afeto, mas jamais de ansiedade; ou pode surgir separada de quaisquer 
fatores determinantes e ser incompreensvel tanto para ns como para o paciente, na forma de acesso de ansiedade isolado. Aqui no h nenhum sinal de qualquer perigo 
ou de qualquer causa que pudesse ser exagerada como perigo. E logo verificamos, a partir desses ataques espontneos, que o complexo que descrevemos como um estado 
de ansiedade  passvel de fracionamento. O ataque total pode ser representado por um nico sintoma, intensamente desenvolvido, por um tremor, uma vertigem, por 
palpitao ou por dispnia; e a sensao geral, pela qual reconhecemos a ansiedade, pode estar ausente ou haver-se tornado indistinta. Ento, essas condies que 
descrevemos como 'equivalentes da ansiedade' devem ser igualadas  ansiedade para todos os fins clnicos e etiolgicos.Surgem, agora, duas questes. Podemos correlacionar 
a ansiedade neurtica, na qual o perigo desempenha um papel mnimo ou nulo, com a ansiedade realstica que, invariavelmente,  uma reao ao perigo? E como iremos 
compreender a ansiedade neurtica? Certamente nos inclinaremos, no primeiro caso, a manter nossa expectativa de que, onde existe ansiedade, deve haver algo que se 
teme.A observao clnica nos proporciona certo nmero de indcios para a compreenso da ansiedade neurtica, e lhes indicarei o teor dos mesmos:(a) No  difcil 
comprovar a fato de que a ansiedade expectante, ou o estado de apreenso geral, depende estreitamente de determinados acontecimentos da vida sexual ou, digamos, 
de certos empregos da libido. O caso mais simples e mais instrutivo desse tipo ocorre em pessoas que se expem quilo que se conhece como excitao no-consumada 
- isto , pessoa nas quais violentas excitaes sexuais no encontram descarga suficiente, no conseguem chegar a um final satisfatrio -; homens, por exemplo, enquanto 
esto noivos, aguardando o casamento, e mulheres , cujos maridos so insuficientemente potentes ou executam o ato sexual, por precauo, de modo incompleto ou truncado. 
Em tais circunstncias, a excitao libidinal desaparece e a ansiedade aparece em seu lugar, seja na forma de ansiedade expectante, seja em ataques e equivalentes 
da ansiedade. A interrupo do ato sexual, como preocupao, se praticado como regime sexual,  causa to freqente de neurose de ansiedade em homens, mas mais especialmente 
em mulheres, que, na prtica mdica,  aconselhvel, nesses casos, comear por investigar essa etiologia. Ento se verificar, em inmeras ocasies, que a neurose 
de ansiedade desaparece quando a irregularidade sexual se interrompe.O fato de haver uma inter-relao entre o refreamento sexual e os estados de ansiedade, pelo 
que sei, j no  mais posto em dvida, nem sequer por mdicos que no tm contato algum com a psicanlise. Bem posso acreditar, contudo, que se faa uma tentativa 
de inverter a relao e de apresentar o ponto de vista de que as pessoas em questo so de tal modo, que j tm a tendncia ao estado de apreenso, e, por esse motivo, 
praticam o refreamento tambm nos assuntos sexuais. Isto, porm,  decisivamente contradito pela conduta das mulheres, cuja atividade sexual  de natureza essencialmente 
passiva - ou seja,  determinada pela maneira como so tratadas pelo homem. Quanto mais apaixonada  uma mulher - quanto mais, portanto, tiver disposio para a 
relao sexual e mais capaz de ser satisfeita -, tanto mais certamente reagir como manifestaes de ansiedade  impotncia do homem ou ao coito interrompido, ao 
passo que, no caso de mulheres frgidas ou sem muita libido, esse mau trato desempenha um papel muito menos importante.Naturalmente, a abstinncia sexual, atualmente 
recomendada com tanta nfase pelos mdicos, apenas tem a mesma importncia na gerao dos estados de ansiedade quando a libido, impedida de encontrar uma descarga 
satisfatria,  correspondentemente forte e no foi utilizada, em sua maior parte, pela sublimao. Na verdade, sempre depende de fatores quantitativos decidir se 
o resultado haver de ser ou no a doena. Mesmo nos casos em que a questo no  a doena, mas sim a forma assumida pelo carter da pessoa,  fcil reconhecer que 
a restrio sexual caminha de mos dadas com algum tipo de ansiosidade e indeciso, ao passo que a intrepidez e a ousadia atrevida trazem consigo um livre satisfao 
das necessidades sexuais. Por mais que essas correspondncias sejam modificadas e complicadas por numerosas influncias culturais, no obstante, para a mdia dos 
seres humanos, permanece a verdade de que a ansiedade tem estreita vinculao com a limitao sexual.Estou longe de lhes haver transmitido todas as observaes que 
falam a favor da relao gentica que afirmei existir entre a libido e a ansiedade. Entre outras, por exemplo, est a influncia, exercida sobre distrbios ansiosos, 
de determinadas fases da vida, s quais, como no caso da puberdade e na epca a menopausa, se pode atribuir considervel aumento na produo da libido. Tambm em 
alguns estados de excitao  possvel observar diretamente uma mistura de libido e ansiedade e a substituio final da libido pela ansiedade. A impresso que se 
tem de todos esses fatos  dupla: primeiro, o que est em questo  um acmulo de libido impedida de ser normalmente utilizada, e, em segundo lugar, que, nesse ponto, 
nos situamos inteiramente na esfera dos processos somticos. No  possvel, a princpio, discernir como a ansiedade surge da libido; apenas podemos reconhecer que 
a libido est ausente e que a ansiedade est em seu lugar.(b) Um segundo ponto de referncia pode ser encontrado na anlise das psiconeuroses, e especialmente da 
histeria. Temos visto que, nessa doena, a ansiedade freqentemente aparece junto com os sintomas; que, porm, tambm surge ansiedade desvinculada, manifestada em 
forma de ataque ou como uma condio crnica. Os pacientes no sabem dizer de que  que tm medo, e, com auxlio de uma elaborao secundria inconfundvel [ver 
em [1]], vinculam-no s primeiras fobias que lhes vm  mente - tais como medo de morrer, de enlouquecer ou de ter um ataque. Se a situao, a partir da qual a ansiedade 
(ou os sintomas acompanhados de ansiedade) surgiu,  submetida  anlise, podemos, quase sempre, descobrir que o curso normal dos eventos psquicos deixou de ocorrer 
e foi substitudo por fenmenos de ansiedade. Podemos expressar isto de outro modo: construmos o processo inconsciente, como ele teria sido se no houvesse experimentado 
represso alguma e tivesse prosseguido, sem ser tolhido, rumo  conscincia. [ver em [1]]. Esse processo ter-se-ia acompanhado de um afeto especfico e agora constatamos, 
para nossa surpresa, que esse afeto que acompanha o curso normal dos acontecimentos, seja qual for sua qualidade prpria, invariavelmente  substitudo por ansiedade, 
aps a incidncia da represso. Assim, quando temos diante de ns um estado de ansiedade histrico, seu correspondente inconsciente pode ser um impulso de caractersticas 
semelhantes - ansiedade, vergonha, embarao - ou, com a mesma facilidade, uma definida excitao libidinal ou agressiva, hostil, como raiva ou irritao. Portanto, 
a ansiedade constitui moeda corrente universal pela qual  ou pode ser trocado qualquer impulso, se o contedo ideativo vinculado a ele estiver sujeito a represso.(c) 
Fazemos uma terceira descoberta quando examinamos pacientes que sofrem de atos obsessivos e que parecem notavelmente isentos de ansiedade. Se tentarmos impedir-lhes 
a execuo de seu ato obsessivo - o ato de lavar-se ou o ritual -, ou se eles prprios arriscam-se a uma tentativa de abandonar uma de sua compulses, vem-se compelidos 
pela mais terrvel ansiedade a submeter-se  compulso. Podemos ver que a ansiedade estava encoberta pelo ato obsessivo e que este s foi executado com o fito de 
evitar a ansiedade. Numa neurose obsessiva, portanto, a ansiedade, que de outra forma se instalaria inevitavelmente,  substituda pela formao de um sintoma; e, 
se voltarmos  histeria, encontraremos uma relao semelhante: o resultado do processo de represso  ou a gerao da ansiedade pura e simples; ou a ansiedade acompanhada 
pela formao de um sintoma, ou a formao mais completa de um sintoma sem ansiedade. Assim, pareceria no ser errado, em sentido abstrato, afirmar que em geral 
os sintomas so formados para fugir a uma gerao de ansiedade, de outro modo inevitvel. Se adotarmos esse ponto de vista, a ansiedade se coloca, por assim dizer, 
no prprio centro de nosso interesse pelos problemas da neurose.Nossas observaes a respeito da neurose de angstia levaram-nos a concluir que a deflexo da libido 
de seu emprego normal, que causa o desenvolvimento da ansiedade, se passa na regio dos processo somticos [ver em [1]] e  de histeria e de neurose obsessiva apresentaram 
a concluso adicional de que uma reflexo semelhante, com o mesmo efeito, tambm pode ser o resultado de uma rejeio por parte das instncias psquicas. Portanto, 
isto  tudo o que sabemos acerca da origem da ansiedade neurtica. Parece ainda muito indefinido tudo isso, mas, por agora, no vejo onde prosseguir. O segundo problema 
que nos colocamos - o de estabelecer uma conexo entre a ansiedade realstica, que corresponde a uma reao ao perigo - parece ainda mais difcil de solucionar. 
Poder-se-ia supor que essas coisas fossem muito dessemelhantes; e sequer temos meios de distinguir, em nossos sentimentos, entre ansiedade realstica e ansiedade 
neurtica.Finalmente chegamos  conexo que estamos procurando se tomamos como nosso ponto de partida a oposio, que tantas vezes afirmamos existir, entre o ego 
e a libido. Conforme sabemos, a gerao de ansiedade  a reao do ego ao perigo e o sinal para empreender a fuga. [ver em [1].] Assim sendo, parece plausvel supor 
que, na ansiedade neurtica, o ego faz uma tentativa semelhante de fuga da exigncia feita por sua libido, que o ego trata este perigo interno como se fora um perigo 
externo. Portanto, isto corresponderia  nossa expectativa [ver em [1] e [2]] de que, onde se manifesta ansiedade, a existe algo que se teme. Ma a analogia poderia 
ser ampliada ainda mais. Assim como a tentativa de fuga de um perigo externo  substituda pela adoo de uma atitude firme e de medidas apropriadas de defesa, tambm 
a gerao de ansiedade neurtica d lugar  formao de sintomas, e isto resulta em que a ansiedade seja vinculada.
         A dificuldade de entender situa-se, agora, em outra parte. A ansiedade, que significa uma fuga do ego para longe de sua libido, segundo se supe, deriva-se, 
em ltima anlise, dessa mesma libido. Isto  obscuro e sugere-nos no esquecermos que, afinal de contas, a libido de uma pessoa  fundamentalmente algo seu e no 
pode ser posta em contraste com a mesma pessoa, como se fosse algo externo.  a dinmica topogrfica da gerao da ansiedade que ainda  obscura para ns - a questo 
 saber que energias mentais so produzidas nesse processo, e de que sistemas mentais elas derivam. Esta, mais uma vez,  uma questo que no posso prometer responder: 
h, contudo duas outras pistas que no devemos deixar de seguir, e, assim procedendo, mais uma vez estaremos fazendo uso da observao direta e da investigao analtica 
para auxiliar nossas indagaes. Voltaremos  gnese da ansiedade em crianas e  origem da ansiedade neurtica que se vincula s fobias.
         O estado de apreenso em crianas constitui-se em algo muito freqente, e parece muito difcil distinguir se se trata de ansiedade neurtica ou realstica. 
Na verdade, o valor de tal distino  posto em dvida pela conduta das crianas. Pois, de um lado, no nos surpreendemos se uma criana se assusta com todos os 
estranhos ou com situaes e coisas novas; e muito facilmente justificamos essa reao como sendo devido  sua fragilidade e ignorncia. Assim, atribumos s crianas 
uma forte tendncia  ansiedade realstica e deveramos consider-la um dispositivo muito adequado se esse estado de apreenso fosse, nelas, uma herana inata. As 
crianas, com isso, estariam simplesmente repetindo o comportamento do homem pr-histrico e dos povos primitivos atuais que, em conseqncia de sua ignorncia e 
debilidade, receiam todas as coisas novas e muitas coisas conhecidas que a ns no nos causam mais ansiedade, atualmente. E isto se ajustaria perfeitamente  nossa 
expectativa, se as fobias de crianas, pelo menos em parte, fossem as mesmas que aquelas que podemos atribuir aos perodos primitivos do desenvolvimento humano.
         Por outro lado, no podemos menosprezar o fato de que nem todas a crianas so ansiosas em igual intensidade, e de que  precisamente as crianas que mostram 
especial pusilanimidade para com objetos e em situaes de toda espcie, que posteriormente vm a se tornar neurticas. Assim, a tendncia neurtica revela-se tambm 
por uma pronunciada tendncia  ansiedade realstica; o estado de apreenso parece ser a coisa primria, e chegamos  concluso de que a razo por que as crianas 
e, depois, os adolescentes e as adolescentes em crescimento, temem a magnitude de sua libido reside em que, de fato, eles temem tudo. Dessa forma, seria desmentida 
a origem da ansiedade na libido; e, se fossem examinadas as causas determinantes da ansiedade realstica, a coerncia com os fatos conduziria ao ponto de vista segundo 
o qual a conscincia da prpria fraqueza e desvalia - inferioridade, segundo a terminologia de Adler -, quando se prolonga da infncia  idade adulta,  a base final 
das neuroses.Isto soa to simples e sedutor, que at exige nossa ateno.  verdade que implicaria um deslocamento do enigma do estado neurtico. A existncia continuada 
do sentimento de inferioridade - e, portanto, daquilo que causa a ansiedade e a formao dos sintomas - parece to bem assegurada, que os itens que exigem uma explicao 
consistem, com efeito, em saber o modo como, por exceo, pode advir aquilo que conhecemos como sade. No entanto, que coisa se revela a um exame cuidadoso do estado 
de apreenso das crianas? Bem no incio, o que as crianas temem so as pessoas estranhas; as situaes s se tornam importantes porque nelas se incluem pessoas, 
e coisas impessoais no entram em conta, em absoluto, a no ser posteriormente. Uma criana, contudo, no teme esses estranhos porque lhes atribua ms intenes 
e compare a sua fraqueza com a fora deles, e, por conseguinte, os considere um perigo para sua existncia, sua segurana e sua iseno de sofrimento. Uma criana 
assim desconfiada e amedrontada com o instinto agressivo que domina o mundo constitui uma formulao terica muito mal fundada. Uma criana tem medo de um rosto 
estranho porque est habituada  vista de uma figura familiar e amada - basicamente sua me.  seu desapontamento e seu anelo pela me que se transformam em ansiedade 
- sua libido, de fato, que se tornou inaplicvel, no podendo, assim, ser mantida em estado de suspenso, sendo descarregada sob forma de ansiedade. E dificilmente 
pode tratar-se de uma casualidade o fato de, nessa situao que constitui o prottipo da ansiedade de crianas, ocorrer uma repetio do fator determinante do primeiro 
estado de ansiedade, durante o ato do nascimento - quer dizer, a separao da me.
         Em crianas, as primeiras fobias relativas a situaes so aquelas provocadas pela escurido e pela solido. A primeira destas freqentemente persiste por 
toda a vida; ambas esto envolvidas quando a criana sente a ausncia de alguma pessoa amada, que cuida dela - ou seja, sua me. Enquanto encontrava-me no aposento 
ao lado, ouvi uma criana, com medo do escuro, dizer em voz alta: 'Mas fala comigo, titia. Estou com medo!' 'Por que? De que adianta isso? Tu nem ests me vendo.' 
A isto a criana respondeu: 'Se algum fala, fica mais claro.' Assim, um anelo sentido no escuro se transforma em medo do escuro. Longe de tratar-se do caso de a 
ansiedade neurtica ser apenas secundria e ser um caso especial de ansiedade realstica, vemos, pelo contrrio, que, numa criancinha, algo que se comporta como 
ansiedade realstica compartilha seu aspecto essencial - a origem a partir da libido no empregada - com a ansiedade neurtica. Parece que as crianas tm pouca 
ansiedade realstica verdadeira inata. Em todas as situaes que, posteriormente, podem tornar-se fatores determinantes de fobias (alturas, pontes estreitas sobre 
a gua, viagens de trem, navios), as crianas no demonstram ansiedade; e, para dizer a verdade, quanto maior sua ignorncia, menos sua ansiedade. Teria sido muito 
bom se tivessem herdado mais desses instintos de preservao da vida, porque tal circunstncia teria facilitado em muito a tarefa de se cuidar delas, de evitar que 
corram um perigo aps outro. O fato consiste em que as crianas inicialmente superestimam suas foras e se comportam sem medo, por ignorarem os perigos. Correm  
beira da gua, sobem ao peitoril da janela, brincam com objetos cortantes e com fogo - em suma, fazem tudo o que  capaz de feri-las e de preocupar a quem delas 
est cuidando. Quando, por fim, nelas desperta a ansiedade realstica, tal resulta inteiramente da educao; isso porque no se pode permitir-lhes que elas prprias 
realizem as experincias de instruo.Portanto, haver crianas que demoram um pouco para encontrar essa educao para a ansiedade, e que continuam a ir ao encontro 
de perigos para os quais no haviam sido alertados, so aspectos que se explicam suficientemente pelo fato de possurem elas uma quantidade maior de exigncias libidinais 
inatas em sua constituio, ou de terem sido prematuramente mimadas em excesso pela satisfao libidinal. No  de admirar se tais crianas vierem a contar-se, tambm, 
entre os futuros neurticos: conforme sabemos, o que mais facilita o desenvolvimento de uma neurose  uma incapacidade de tolerar um considervel represamento da 
libido, por um perodo maior de tempo. Os senhores observaro que, aqui, mais uma vez, o fator constitucional mostra toda a sua influncia - e esta, realmente, jamais 
pensamos pr em dvida. Apenas ficamos de sobreaviso contra aqueles que, a favor do fator constitucional, desprezam todos os demais requisitos, e introduzem o fator 
constitucional em pontos onde os resultados combinados da observao e da anlise mostram que ele no cabe, ou deve situar-se em ltimo lugar.
         Permitam-me sumarizar o que nossas observaes relativas ao estado de apreenso das crianas nos tm ensinado. A ansiedade infantil tem escassa relao 
com a ansiedade realstica, mas, por outro lado, relaciona-se estreitamente com a ansiedade neurtica dos adultos. Assim como esta, deriva-se da libido no-utilizada 
e substitui o objeto de amor ausente por um objeto externo, ou por uma situao.
         Os senhores ficaro satisfeitos ao ouvir que a anlise de fobias no apresenta muitas novidades mais, para ensinar-nos. Assim, com elas acontece a mesma 
coisa que com a ansiedade de crianas; a libido no utilizvel  constantemente transformada em uma ansiedade aparentemente realstica; assim, um perigo externo 
insignificante  introduzido para representar as exigncias da libido. No h nenhum motivo para admirao nessa concordncia [entre as fobias e a ansiedade de crianas], 
pois as fobias infantis no so apenas o prottipo de fobias ulteriores, que classificamos como 'histeria de angstia', mas, na realidade, so a sua precondio 
e seu preldio. Toda fobia histrica remonta a uma ansiedade infantil e  continuao da mesma, ainda que tenha um contedo diferente e deva, pois, receber nome 
diverso. A diferena entre os dois distrbios reside em seu mecanismo. A fim de que a libido se transforme em ansiedade, j no basta, no caso de adultos, que a 
libido se tenha tornado momentaneamente no-utilizvel na forma de um anelo. Os adultos h muito aprenderam a manter em suspenso essa libido ou a empreg-la de algum 
outro modo. Se, entretanto, a libido pertence a um impulso psquico que esteve sujeito a represso, ento se restabelecem condies semelhantes s que se observam 
numa criana em quem ainda no existe distino entre consciente e inconsciente; e, por meio da regresso  fobia infantil, abre-se uma passagem, por assim dizer, 
atravs da qual pode realizar-se comodamente a transformao da libido em ansiedade. 
         Conforme os senhores se recordaro, lidamos extensamente com a regresso, mas, ao faz-lo, sempre seguimos apenas as vicissitudes da idia a ser reprimida 
- de vez que isto, naturalmente, era mais fcil de reconhecer e descrever. Sempre deixamos de lado a questo referente quilo que acontece ao afeto que estava vinculado 
 idia reprimida; e apenas agora verificamos [ver em [1]] que a vicissitude imediata desse afeto  ser ele transformado em ansiedade, qualquer que seja a qualidade 
que, fora disso, ele exibia no curso normal dos acontecimentos. Essa transformao do afeto , todavia, em grande escala a parte mais importante do processo de represso. 
No  to fcil falar a seu respeito, visto no poderemos afirmar a existncia de afetos inconscientes no mesmo sentido em que afirmamos a existncia de idias inconscientes. 
Uma idia permanece a mesma, exceto quanto a uma diferena, no importa que seja idia consciente ou inconsciente; podemos ajuizar que coisa corresponde a uma idia 
inconsciente. Um afeto , contudo, um processo de descarga e deve ser julgado muito diferentemente de uma idia; o que corresponde a ele, no inconsciente, no pode 
ser dito sem uma reflexo mais profunda e sem esclarecimento de nossas hipteses referentes aos processos psquicos. E isto no podemos empreender aqui. Entretanto, 
enfatizaremos a impresso, que agora obtivemos, de que a gerao da ansiedade est intimamente vinculada ao sistema do inconsciente.Tenho afirmado que a transformao 
em ansiedade - seria melhor dizer, descarga sob a forma de ansiedade -  o destino imediato da libido quando sujeita  represso. Devo acrescentar que esse destino 
no  o nico nem o definitivo. Nas neuroses, esto em ao processos que se esforam por vincular essa gerao de ansiedade, e at mesmo conseguem faz-lo de diversas 
maneiras. Nas fobias, por exemplo, podem ser distinguidas nitidamente duas fases do processo neurtico. A primeira diz respeito  represso e  modificao da libido 
em ansiedade, que ento  vinculada a um perigo externo. A segunda consiste em tomar todas as precaues e garantias, mediante as quais se possa evitar todo contato 
com esse perigo, que  tratado como a coisa externa que . A represso corresponde a uma tentativa, feita pelo ego, de fugir da libido sentida como um perigo. Uma 
fobia pode ser comparada a um entrincheiramento contra um perigo externo que agora representa a libido temida. A fragilidade do sistema defensivo nas fobias reside, 
naturalmente, no fato de a fortaleza, que foi to fortificada em relao ao exterior, permanecer to vulnervel a um ataque vindo de dentro. Uma projeo do perigo 
da libido, para fora, jamais consegue realizar-se com segurana. Por essa razo, em outras neuroses outros sistemas de defesa so usados contra a possvel gerao 
de ansiedade. Esta  uma parte muito interessante da psicologia das neuroses; mas, infelizmente, levar-nos-ia muito longe e pressupe um conhecimento especialmente 
mais profundo. Acrescentei apenas mais uma coisa. J lhes falei [ver em [1] e [2]] a respeito da anticatexia utilizada pelo ego no processo de represso, e que deve 
ser permanentemente mantida, a fim de que a represso possa ter estabilidade. Essa anticatexia tem a funo de completar as diversas formas de defesa contra a gerao 
de ansiedade, aps a represso.Retornemos s fobias. Seguramente posso dizer que agora os senhores vem como  inadequado buscar simplesmente explicar seu contedo, 
no interessar-se em outra coisa seno no modo como sucede esse ou aquele objeto, essa determinada situao ou aquela outra, haver-se tornado o objeto da fobia. 
O contedo de uma fobia tem mais ou menos tanta importncia em relao  mesma, quanto a fisionomia manifesta de um sonho tem em relao ao sonho. Deve-se admitir, 
com as necessrias restries, que, entre os contedos das fobias, h alguns que, conforme insiste Stanley Hall [1914, ver pg. 399], so destinados a servir como 
objetos de ansiedade devido  herana filogentica. Condiz com isto o fato de que, realmente, muitos desses objetos de ansiedade s podem estabelecer sua conexo 
com o perigo por meio de uma ligao simblica.Assim, achamo-nos convencidos de que o problema da ansiedade ocupa, na questo da psicologia das neuroses, um lugar 
que pode justificadamente ser classificado como central. Impressionou-nos intensamente a forma como a gerao de ansiedade se vincula s vicissitudes da libido e 
ao sistema do inconsciente. Existe apenas um ponto que julgamos desconexo - uma lacuna em nossos pontos de vista: o fato nico, praticamente inegvel, de que a ansiedade 
realstica deve ser considerada manifestao dos instintos de autopreservao do ego.
         
         CONFERNCIA XXVI
         A TEORIA DA LIBIDO E O NARCISISMO
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Repetidas vezes (e, bem recentemente, mais uma vez [ver em [1] e [2]]), tivemos de tratar da diferena entre os instintos do ego e os instintos sexuais. 
Em primeiro lugar, a represso nos mostrou que esses dois instintos podem opor-se um ao outro, que os instintos sexuais so ostensivamente reprimidos e so obrigados 
a encontrar satisfao por si mesmos, por vias regressivas e indiretas, e que, com isso, eles so capazes de encontrar compensao por haverem sido frustrados em 
sua inflexibilidade. A seguir, verificamos que os dois tipos de instintos, desde o incio, relacionam-se diversamente com a Necessidade, a educadora [ver em [1]], 
de modo que a sua trajetria evolutiva no  a mesma, e que no estabelecem a mesma relao com o princpio de realidade. Por fim, pensamos haver reconhecido que 
os instintos sexuais, mais do que os instintos do ego, tm estreitos laos a vincul-los ao estado afetivo de ansiedade - e essa concluso parece incompleta em apenas 
um importante aspecto. A fim de estabelec-la com mais firmeza, portanto, aduzo o fato ainda mais significativo de que, se a fome e a sede (os dois instintos de 
autopreservao mais elementares) esto insatisfeitas, o resultado nunca  a sua transformao em ansiedade, ao passo que a modificao da libido insatisfeita em 
ansiedade , conforme vimos, um dos fenmenos mais bem conhecidos e mais freqentemente observados.
         Nosso direito de separar os instintos do ego dos instintos sexuais no pode, sem dvida, ser abalado: est implcito na existncia da vida sexual como atividade 
distinta do indivduo. A nica questo  saber qual a importncia que atribuiremos a essa separao, e quo detalhadamente desejamos considerar a seu respeito. A 
resposta a essa questo, todavia, se orientar pela medida em que podemos estabelecer o grau em que os instintos sexuais se comportam, relativamente a suas manifestaes 
somticas e mentais, de modo diferente dos outros instintos com os quais estamos comparando-os; e pela importncia de que se revestem as conseqncias decorrentes 
dessas diferenas. Ademais, naturalmente, no temos motivo algum para afirmar que existe entre os dois grupos de instintos uma diferena essencial que no seja plenamente 
perceptvel. Ambos se nos apresentam simplesmente como designaes de fontes de energia operante no indivduo; e as discusses referentes a saber se so fundamentalmente 
um s, ou essencialmente diferentes, e saber quando, no caso de serem um s, vieram a separar-se um do outro, no podem ser conduzidas com base na conotao dos 
termos, devendo-se, porm, ater-se aos fatos biolgicos subjacentes aos instintos. No momento atual, sabemos muito pouco a respeito deles, e, ainda que soubssemos 
mais, isto teria pouca importncia para nosso trabalho analtico. , tambm, bvio que obteremos muito pouco proveito se, seguindo o exemplo de Jung, insistirmos 
na unidade original de todos os instintos e dermos o nome de 'libido'  energia que se manifesta em todos eles. De vez que artifcio algum ser capaz de eliminar 
da vida mental a funo sexual, ver-nos-emos obrigados, nesse caso, a falar em libido sexual e assexual. O nome libido , contudo, especialmente reservado para designar 
as foras instintuais da vida sexual, conforme at aqui tem sido nosso costume. (Cf. Jung. [1911-12].)Em minha opinio no , por conseguinte, de muita importncia 
para a psicanlise saber at onde levamos a diferena, indubitavelmente acertada, entre os instintos sexuais e os de autopreservao. E no  a psicanlise que tem 
competncia para responder  questo. A biologia, no entanto, oferece diversas possibilidades sugestivas que falam em favor de alguma importncia em se fazer a distino. 
Na verdade, a sexualidade  a nica funo do organismo vivo que se estende alm do indivduo e se refere  relao deste com sua espcie.  fato inequvoco que 
ela nem sempre, como as demais funes do organismo individualizado, lhe traz vantagens, mas, em compensao por um grau extraordinariamente elevado de prazer, ocasiona 
perigos que ameaam a vida do indivduo e, amide, a destroem. Tambm  provvel que sejam necessrios processos metablicos muito especiais, diferentes de todos 
os outros, a fim de se manter uma parte da vida individual  disposio de seus descendentes. E, finalmente, o organismo individualizado, que propriamente se considera 
como a coisa principal, e sua sexualidade como um meio, igual a outro qualquer, de obter sua prpria satisfao, , do ponto de vista da biologia, apenas um episdio 
numa sucesso de geraes, um fugaz acrscimo a um plasma germinativo dotado de virtual imortalidade - como detentor temporrio de um legado que lhe sobreviver.A 
explicao psicanaltica das neuroses, todavia, no requer essas consideraes de to grande alcance. O rastreamento em separado dos instintos sexuais e dos instintos 
do ego auxiliou-nos a encontrar a chave para a compreenso do grupo das neuroses de transferncias. Temos conseguido remet-los  situao bsica na qual os instintos 
entraram em litgio com os instintos de autopreservao ou, para express-lo em termos biolgicos (conquanto menos precisos), a uma situao em que um aspecto do 
ego, como um organismo individualizado independente, entre em conflito com seu outro aspecto, como um membro de um sucesso de geraes, Uma dissenso desse tipo 
talvez possa ocorrer apenas em seres humanos, e, por esse motivo, falando genericamente, a neurose pode constituir sua prerrogativa sobre os animais. O excessivo 
desenvolvimento da libido dos seres humanos e - o que, talvez, se torna possvel precisamente em virtude disso - seu desenvolvimento de uma vida mental ricamente 
complexa parecem haver criado os fatores determinados do surgimento de um tal conflito. Torna-se logo evidente que estes so tambm os fatores determinantes dos 
grandes progressos que os seres humanos fizeram para alm daquilo que tm em comum com os animais; de modo que sua susceptibilidade  neurose seria somente o reverso 
de suas outras dotaes. Estas so, contudo, tambm apenas especulaes que nos esto afastando de nossa tarefa imediata.At aqui tem-se constitudo em premissa 
de nosso trabalho podermos distinguir os instintos do ego dos instintos sexuais, por suas manifestaes. Quanto s neuroses de transferncia, isso poder-se-ia efetuar 
sem dificuldade. As catexias de energia que o ego dirige aos objetos de seus desejos sexuais, ns as denominamos 'libido'; todas as outras catexias, emanadas dos 
instintos de autopreservao, denominamos 'interesse'. Traando a trajetria das catexias libidinais, com suas taransformaes e vicissitudes finais, podemos obter 
uma primeira compreenso interna (insight) dos mecanismos das foras mentais. Para esse propsito, as neuroses de transferncia nos ofereceram o material mais adequado. 
O ego, sua composio originria de diferentes organizaes e a formao e modo de funcionamento destas permaneceram, contudo, ocultas para ns; e fomos levados 
a supor que s a anlise de outros distrbios neurticos seria capaz de nos proporcionar a necessria compreenso interna (insight).Em pocas iniciais de nosso trabalho 
comeamos a estender as observaes psicanalticas a essas outras doenas. J em 1908, Karl Abraham, aps um intercmbio de idias comigo, declarou que a principal 
caracterstica da demncia precoce (que se contava entre as psicoses) era que nela a catexia libidinal de objetos estava ausente. No entanto, a surgiu a questo 
que consistia em saber o que acontecia  libido nos pacientes com demncia precoce, retirada dos objetos. Abraham no hesitou em dar a resposta: ela se volta novamente 
para o ego e esse retorno reflexivo  a fonte da megalomania na demncia precoce. A megalomania , em todos os aspectos, comparvel  conhecida supervalorizao 
sexual do objeto na vida ertica [normal]. Desse modo, pela primeira vez chegamos a compreender um trao de uma doena psictica relacionando-o com a vida ertica 
normal.Posso dizer-lhes, de imediato, que essas primeiras explicaes de Abraham tm sido aceitas na psicanlise e se tornaram a base de nossa atitude relativa s 
psicoses. Assim, aos poucos nos familiarizamos com a noo de que a libido, que encontramos ligada aos objetos e que  expresso de um esforo para obter satisfao 
em conexo com esses objetos, tambm pode deixar os objetos e colocar o prprio ego da pessoa em lugar deles: a essa noo foi-se firmando gradualmente, sempre com 
maior coerncia. O nome para essa forma de distribuir a libido - narcisismo -, ns o tomamos de emprstimo de uma perverso descrita por Paul Ncke [1899], na qual 
um adulto trata seu corpo com todos os mimos que usualmente so dedicados a um objeto sexual externo.
         A reflexo logo sugere que, se ocorre uma fixao da libido ao prprio corpo e  personalidade da pessoa, em vez de se fazer a um objeto, ela no pode constituir 
um evento excepcional ou trivial. Pelo contrrio,  provvel que esse narcisismo constitui a situao universal e original a partir da qual o amor objetal s se 
desenvolve posteriormente, sem que, necessariamente, por esse motivo o narcisismo desaparea. Com efeito, tivemos de recordar, a partir da histria da evoluo da 
libido objetal, que muitos instintos sexuais comeam encontrando satisfao no prprio corpo da pessoa auto-eroticamente, conforme dizemos [ver em [1]] - e que essa 
capacidade para o auto-erotismo  a base do atraso da sexualidade no processo de educao no princpio de realidade [ver em [1]]. O auto-erotismo seria, pois, a 
atividade sexual do estdio narcsico da distribuio da libido.
         Para resumir o assunto, configuramos a relao entre a libido do ego e a libido objetal numa forma tal que me possibilita faz-la compreensvel para os 
senhores, usando de uma analogia extrada da zoologia. Pensem nesses simplicssimos organismos vivos [as amebas] que consistem em um glbulo, muito pouco diferenciado, 
de substncia protoplsmica. Eles emitem protruses, conhecidas como pseudpodos, para dentro dos quais eles fazem fluir a substncia de seu corpo. So capazes, 
no entanto, de retrair essas protruses, novamente, e de se transformar de novo em um glbulo. Comparamos a emisso dessas protruses, portanto,  emisso de libido 
em direo aos objetos enquanto a massa principal de libido pode permanecer no ego; e supomos que, em circunstncias normais, a libido do ego pode ser transformada, 
sem impedimento, em libido objetal, e que esta pode novamente ser devolvida ao ego.Com o auxlio dessas idias, agora podemos explicar numerosos estados mentais, 
ou, para express-lo de modo mais modesto, descrev-los em termos da teoria da libido - estados que devemos considerar como pertencentes  vida normal, tal como 
o comportamento psicolgico de uma pessoa que est apaixonada, ou de outra pessoa que passa por uma doena orgnica, ou, ainda, o de outra em estado de sono. No 
que concerne ao estado de sono, supusemos que ele se baseava em um retrair-se do mundo externo e no aceder ao desejo de dormir [ver em [1]]. A atividade mental durante 
a noite, que se manifesta em sonhos, realiza-se, conforme verificamos, em obedincia a um desejo de dormir e , sobretudo, regida por motivos puramente egostas 
[ver em [1]]. Podemos acrescentar, agora na linha da teoria da libido, que o sono  um estado no qual todas as catexias de objeto, tanto as libidinais como as egosticas, 
so abandonadas e retiradas para dentro do ego. Ser que isto no lana uma nova luz sobre o efeito restaurador do sono e sobre a natureza da fadiga em geral? O 
quadro do isolamento bem-aventurado da vida intra-uterina que, no sono, toda pessoa mais uma vez evoca diante de ns, a cada noite, completa-se, assim, tambm em 
seu lado psquico. Em uma pessoa que dorme, reconstitui-se o primitivo estado de distribuio da libido - narcisismo total, no qual a libido e o interesse do ego, 
ainda unidos e indiferenciveis, habitam o ego autosuficiente.Cabem, aqui, dois comentrios. Primeiro, como distinguirmos os conceitos de narcisismo e de egosmo? 
Bem, o narcisismo, segundo penso,  o complemento libidinal do egosmo. Quando falamos em egosmo, temos em vista apenas a vantagem do indivduo; quando falamos 
em narcisismo, tambm estamos levando em considerao sua satisfao libidinal. Enquando motivos prticos, ambos podem ser mantidos separados por uma distncia considervel. 
 possvel ser absolutamente egosta e, mesmo assim, manter poderosas catexias de objeto, na medida em que a satisfao libidinal em relao ao objeto faz parte 
das necessidades do ego. Nesse caso, o egosmo procurar fazer com que o esforo por obter um objeto no envolva prejuzo para o ego.  possvel ser egosta e, ao 
mesmo tempo, ser desmesuradamente narcisista - isto , ter muito pouca necessidade de um objeto, seja para o propsito de satisfao sexual direta, seja com relao 
a aspiraes mais elevadas, derivadas da necessidade sexual, que, s vezes, costumamos, sob o nome de 'amor', fazer contrastar com 'sensualidade'. Em todas essas 
correlaes, o egosmo  aquilo que  evidente por si mesmo e constante, ao passos que o narcisismo  o elemento varivel. O contrrio do egosmo, altrusmo, no 
coincide, enquanto conceito, com catexia objetal libidinal, mas se distingue desta pela ausncia de desejos de satisfao sexual. Quando algum est totalmente apaixonado, 
entretanto, o altrusmo se superpe  catexia objetal libidinal. Via de regra, o objeto sexual atrai para si uma parte do narcisismo do ego, e isto se torna visvel 
naquilo que se conhece por 'supervalorizao sexual' do objeto. [Ver acima, em [1].] Se, ademais disso, existe uma transposio altrusta do egosmo para o objeto 
sexual, o objeto se torna extremamente poderoso;  como se ele tivesse absorvido o ego.
         Os senhores acharo reconfortante, segundo penso, se, depois daquilo que constitui imagem seca da cincia, eu apresentar-lhes uma representao potica 
do contraste econmico entre o narcisismo e o estar apaixonado. Eis uma citao do West-stliche Diwan, de Goethe:ZULEIKAO servo e o senhor vitorioso,Como o povo, 
confessam, se indagados:Sorte suprema dos filhos da Terra,S pode ser a personalidade.
         A vida  p'ra viver, no se a recusa,Se em ns mesmos equvocos no h;Ningum pode escapar de algo  perda,Se seu ser se mantm sem mutao.HATEM
          um fato, pode ser; assim o dizem;Mas noutra senda, hoje, esto meus passos:A sntese da sorte e plenitudeS em Zuleika encontro, to-somente.
         De seu ser, em mim, o investimentoTorna meu eu crescido e valioso;Se a mim, ento, sua face recusasse,Num instante eu estarei perdido.
         Hatem, assim, seu fim encontraria;Eu, no entanto, minha condio mudava;Me incorporava, veloz, quele amanteQue ela, desde agora, obsequiasse.
         Meu segundo comentrio  um suplemento  teoria dos sonhos. No podemos explicar a origem dos sonhos, a menos que adotemos a hiptese de que o inconsciente 
reprimido alcanou determinadno grau de independncia do ego, de modo que ele no concorda com o desejo de dormir e conserva suas catexias, mesmo quando todas as 
catexias objetais dependentes do ego foram retiradas, a fim de facilitar o sono. Apenas assim conseguiremos compreender como o inconsciente pode fazer uso da abolio 
ou da reduo da censura, que ocorre  noite, e consegue obter controle sobre os resduos diurnos, de forma a expressar um desejo onrico proibido a partir do material 
desses resduos diurnos. Por outro lado, pode ser que esses resduos diurnos tenham de agradecer a uma j existente conexo com o inconsciente reprimido, por alguma 
resistncia dos mesmos  retirada da libido determinada pelo desejo de dormir. Portanto, a modo de suplemento, acrescentaremos esse aspecto, dinamicamente importante, 
 nossa viso da formao dos sonhos.A doena orgnica, a estimulao dolorosa ou a inflamao de um rgo criam a condio que resulta nitidamente em um desligamento 
da libido, de seus objetos. A libido que  retirada,  encontrada novamente no ego, como catexia aumentada da parte doente do corpo. Na realidade,  possvel arriscar 
a assertiva de que a retirada da libido de seus objetos, nessas circunstncias,  mais visvel do que o desvio do interesse egosta em relao ao mundo externo. 
Isto parece nos oferecer um caminho para ao compreenso da hipocondria, na qual um rgo, de forma semelhante, atrai a ateno do ego, sem que, pelo menos na medida 
em que podemos perceber, esse rgo esteja doente.Resistirei, contudo,  tentao de estender-me mais nesse ponto, ou de discorrer sobre outras situaes que podem 
ser compreendidas ou descritas com a adoo da hiptese de que a libido objetal pode retirar-se para dentro do ego - pois sou obrigado a refutar duas objees que, 
conforme sei, atraem agora sua ateno. Em primeiro lugar, os senhores desejam chamar-me a prestar contas, pois, ao falar em sono, doena e situaes parecidas, 
invariavelmente tento separar a libido do interesse, instintos sexuais de instintos do ego, ali onde um exame pode mostrar ser inteiramente satisfatria a hiptese 
de uma energia nica e uniforme que, sendo livremente mvel, catexiza ora o objeto, ora o ego, em obedincia a um ou a outro instinto. E, em segundo lugar, os senhores 
desejam saber como posso aventurar-me a lidar com o desligamento da libido de seu objeto como sendo a origem de um estado patolgico, quando uma transposio dessa 
categoria da libido objetal para libido do ego (ou, mais genericamente, para energia do ego) situa-se entre os processos normais da dinmica mental, que se repetem 
diariamente e a cada noite.Eis minha respostas. Sua primeira objeo parece muito correta. Uma reflexo a respeito dos estados de sono, de doena e de apaixonamento, 
provavelmente, em si, no nos teria levado jamais a distinguir uma libido objetal, ou a distinguir libido de interesse. Mas, a os senhores esto desprezando as 
investigaes pelas quais comeamos e  luz das quais vemos agora as situaes mentais em questo. A diferenciao entre libido e interesse - isto , entre instintos 
sexuais e instintos de autopreservao - se nos imps atravs de nossa descoberta do conflito, do qual se originam as neuroses de transferncia. Desde ento, no 
conseguimos abandonar tal diferenciao. A hiptese de que a libido objetal se possa transformar em libido do ego e, portanto, que temos de levar em conta uma libido 
do ego, parece-nos, pois, ser a nica que pode resolver o enigma daquilo que se denomina de neuroses narcsicas - demncia precoce, por exemplo - e explicar as semelhanas 
e dessemelhanas entre elas e a histeria ou as obsesses. Estamos agora aplicando  doena, ao sono e  paixo o que alhures verificamos estar iniludivelmente estabelecido. 
Deveramos prosseguir com aplicaes dessa natureza e verificar at onde elas nos conduzem. A nica tese que no constitui um precipitado imediato de nossa experincia 
analtica,  no sentido de que a libido permanece libido, seja ela orientada para objetos, seja para o prprio ego da pessoa, e de que ela jamais se transforma em 
interese egosta, sendo que o inverso tambm procede. Essa tese, no entanto,  equivalente  separao entre instintos sexuais e instintos do ego, que j avaliamos 
sob um ponto de vista crtico e a que continuaremos a aderir, por motivos heursticos, at sua possvel falncia.A segunda observao dos senhores tambm suscita 
uma questo justificvel; porm, est orientada para uma direo errnea.  verdade que uma retirada da libido objetal para dentro do ego no  diretamente patognica; 
na realidade, conforme sabemos, ela se realiza todas as vezes antes de adormecermos, para inverter-se quando despertamos. A ameba retira suas protruses, para, ento, 
emiti-las novamente na primeira oportunidade. Trata-se, porm, de algo bem diferente quando determinado processo muito vigoroso fora uma retirada da libido, dos 
objetos. Aqui, a libido que se tornou narcsica no consegue retornar aos objetos, e essa interferncia na mobilidade da libido certamente se torna patognica. Parece 
no ser tolerada uma acumulao de libido narcsica alm de um determinado nvel. Podemos at supor ter sido por essa mesma razo que se efetuaram originalmente 
essas catexias objetais, que o ego foi obrigado a emitir sua libido, de forma a no adoecer em conseqncia do represamento da mesma. Se constasse de nosso plano 
aprofundarmo-nos mais na demncia precoce, eu lhes demonstraria que o processo que desliga a libido de seus objetos e bloqueia seu retorno a eles,  estreitamente 
relacionado ao processo de represso, devendo, assim, ser considerado a sua contrapartida. Os senhores, sem dvida, podero, contudo, situar-se em terreno conhecido 
quando verificam que os fatores determinantes desse processo so quase idnticos - pelo que sabemos, atualmente - aos da represso. O conflito parece ser o mesmo 
e efetuar-se entre as mesmas foras. Se o resultado  to diferente, por exemplo, da histeria, o motivo s pode estar na dependncia de uma diferena na disposio 
inata. O ponto fraco no desenvolvimento libidinal desses pacientes situa-se numa fase diferente; a fixao determinante que, conforme os senhores se lembraro [ver 
em [1]], permite a irrupo que leva  formao dos sintomas, situa-se em outro lugar, provavelmente na fase de narcisismo primitivo, ao qual a demncia precoce 
retorna em seu resultado final.  bem surpreendente que, no caso de todas as neuroses narcsicas, temos de supor que os pontos de fixao da libido remontam a fases 
muito anteriores do desenvolvimento, em comparao com o que se observa na histeria e na neurose obsessiva. Todavia, conforme  de seu conhecimento, os conceitos 
a que chegamos em nosso estudo das neuroses de transferncia so adequados para ajudar-nos a nos orientarmos nas neuroses narcsicas, que, na prtica, so to mais 
graves. As semelhanas vo muito longe; no fundo, o campo de fenmenos  o mesmo. E os senhores podem imaginar quo reduzida  a perspectiva que tem algum para 
examinar esses distrbios (que pertencem  esfera da psiquiatria), se no estiver preparado para essa tarefa por um conhecimento analtico das neuroses de transferncia.
         O quadro clnico da demncia precoce (que, alis,  muito mutvel) no  determinado exclusivamente pelos sintomas que emergem da retrao da libido para 
longe de seus objetos, e de sua acumulao no ego sob forma de libido narcsica. Uma grande parte , antes, desempenhada por outros fenmenos derivados dos esforos 
da libido no sentido de, novamente, alcanar os objetos, portanto correspondendo a uma tentativa de reintegrao ou recuperao. Esses ltimos sintomas so, na verdade, 
os mais notveis e ruidosos; mostram inequvoca similitude com a histeria ou, com menos freqncia, com os da neurose obsessiva; porm, ainda assim diferem destas 
em todos os sentidos.  como se, na demncia precoce, a libido, em seus esforos por alcanar novamente os objetos (isto , as representaes dos objetos), de fato 
agarra-se alguma coisa desses objetos, que, por assim dizer, seria, no entanto, apenas suas sombras - quero dizer, as representaes verbais pertencentes aos objetos. 
No posso, agora, expressar mais coisas a esse respeito; acredito, todavia, que esse comportamento da libido, a maneira como luta por encontrar seu caminho de volta, 
nos possibilitou entender aquilo que realmente constitui a diferena entre idia consciente e idia inconsciente.Acabo de conduzi-los  regio em que se espera venham 
a realizar-se os prximos progressos no trabalho da anlise [ver em [1]]. Porque nos aventuramos a trabalhar com o conceito de libido do ego, as neuroses narcsicas 
se nos tornaram acessveis; a tarefa que nos espera  chegar a uma elucidao dinmica desses distrbios e, ao mesmo tempo, completar nosso conhecimento da vida 
mental, conseguindo compreender o ego. A psicologia do ego, que andamos investigando, no deve basear-se nos dados de nossas autopercepes, mas sim (como no caso 
da libido) na anlise dos distrbios e nas rupturas do ego.  provvel que, quando tivermos conseguindo realizar essa tarefa maior, teremos uma opinio modesta de 
nosso presente conhecimento das vicissitudes da libido, que adquirimos no estudo das neuroses de transferncia. At agora, contudo, no fizemos muito progesso. As 
neuroses narcsicas dificilmente podem ser acometidas mediante a tcnica que nos foi de utilidade nas neuroses de transferncia. Em breve os senhores sabero por 
qu. [ver em [1], adiante.] Com elas, o que sempre acontece , aps avanarmos uma curta distncia, depararmos com um muro que nos fora a parar. Nas neuroses de 
transferncia, como sabem, tambm nos defrontamos com barreiras de resistncia, mas conseguimos demoli-las, parte por parte. Nas neuroses narcsicas, a resistncia 
 intransponvel; quando muito, somos capazes de lanar um olhar perscrutador por cima do topo do muro e divisar o que se est passando no outro lado. Nossos mtodos 
tcnicos, por conseguinte, devem ser substitudos por outros; e nem sequer sabemos se seremos bem sucedidos na busca de um substituto. Ainda assim, no nos falta 
material referente a tais pacientes. Eles fazem um grande nmero de observaes, ainda que no respondam s nossas perguntas; provisoriamente compete-nos interpretar 
essas observaes com auxlio da compreenso que adquirimos com os sintomas das neuroses de transferncia. A concordncia  suficientemente grande para nos garantir 
algum progresso inicial. Resta ver at onde essa tcnica nos levar.
         Existem dificuldades adicionais que impedem nosso avano. Os distrbios narcsicos e as psicoses relacionadas a eles s podem ser decifrados por observadores 
formados no estudo analtico das neuroses de transferncia. Nossos psiquiatras, porm, no so candidatos  formao psicanaltica, e ns, psicanalistas, vemos muito 
poucos casos psquitricos. Primeiro ser necessrio que se forme uma gerao de psiquiatras que tenha passado pela escola da psicanlise como cincia preparatria. 
Um comeo nesse sentido est realizando-se, atualmente, na Amrica, onde grande nmero de psiquiatras influentes lecionam aos estudantes as teorias da psicanlise, 
e onde os donos de instituies e os diretores de hospitais psiquitricos esforam-se por observar seus pacientes em conformidade com essas teorias. No obstante, 
tambm por aqui temos logrado, vez e outra, lanar um olhar por sobre o muro narcsico, e, no que se segue, lhes falarei um pouco daquilo que pensamos haver descoberto.A 
forma de doena conhecida como paranida, loucura sistematizada crnica, ocupa uma posio no-estabelecida nas tentativas de classificao feitas pela psiquiatria 
contempornea. Entretanto, no h dvida quanto  sua grande afinidade com a demncia precoce. Em certa poca, aventurei-me a sugerir que se devesse agrupar a parania 
e a demncia precoce sob a designao comum de 'parafrenia'. As formas de parania so descritas, segundo seus contedos, como megalomania, mania de perseguio, 
erotomania, delrios de cime, e assim por diante. Da psiquiatria no haveremos de esperar que ela nos venha a esclarecer muita coisa a esse respeito. Eis um exemplo 
de um desses casos, embora seja, na realidade, um caso desatualizado e no de muita valia - uma tentativa de derivar um sintoma de outro por meio de uma racionalizao: 
sugere-se que o paciente, devido a uma disposio primria, acredita estar sendo perseguido e conclui, a partir dessa sua perseguio, que ele deve ser algum dotado 
de importncia muito especial, com isto desenvolvendo megalomania. Consoante nossa viso analtica, a megalomania  o resultado direto de uma expanso do ego, devido 
 circunstncia de se haverem recolhido a ele as catexias objetais libidinais - um narcisismo secundrio que  um retorno do narcisismo infantil, primitivo, original. 
Entretanto, temos feito algumas observaes sobre mania de perseguio, que nos induziram a seguir um determinado rumo. A primeira coisa que nos chamou a ateno 
foi, na grande maioria dos casos, o perseguidor ser ento do mesmo sexo que o paciente perseguido. Isso ainda podia ser passvel de uma explanao inocente; mas, 
em alguns casos detidamente estudados, ficou claro que a pessoa do mesmo sexo a quem o paciente mais amava, se tornara, a partir de sua doena, seu perseguidor. 
Isto possibilitou um novo desenvolvimento, ou seja, a substituio da pessoa amada, segundo a linha de semelhanas familiares, por alguma outra pessoa - por exemplo, 
um pai por um professor ou por algum superior. Experincias dessa natureza, em casos sempre mais numerosos, nos levaram a concluir que a parania persecutria  
a forma da doena na qual uma pessoa se defende contra um impulso homossexual que se tornou por demais intenso. A mudana de afeio em dio, a qual, conforme j 
se sabe, pode tornar-se sria ameaa  vida do objeto amado e odiado, corresponde, nesses casos,  transformao dos impulsos libidinais em ansiedade, que  o resultado 
constante do processo de represso. Ouam, por exemplo, este que , alis, o caso mais recente de minhas observaes nessa rea.Um jovem mdico teve de ser expulso 
da cidade na qual vivia, porque ameaara a vida do filho de um professor universitrio ali residente, o qual at ento havia sido seu maior amigo. Atribua intenes 
realmente hostis e poderes demonacos ao amigo de antes, a quem considerava responsvel por todas as desgraas que haviam atingido sua famlia nos ltimos anos, 
por toda m sorte, seja em sua casa, seja em sua vida social. Isto, porm, no era tudo. Acreditava que esse mau amigo e seu pai, o professor, haviam causado a guerra, 
tambm, e introduzido os russos no pas. Seu amigo havia merecido pagar com a vida milhares de vezes, e nosso paciente se convencera de que a morte criminosa haveria 
de cessar com todos os males. Assim mesmo, sua afeio por ele era ainda to intensa, que lhe paralisou a mo quando, em uma ocasio, teve a oportunidade de fulminar 
seu inimigo com um tiro  queima-roupa. No decorrer das breves conversaes que tive com o paciente, constatou-se que sua amizade havia comeado nos primeiros tempos 
de escola. Uma vez, pelo menos, havia ultrapassado os limites da amizade: uma noite, que os dois passaram juntos, tinha servido de ocasio para uma relao sexual 
completa. Nosso paciente jamais havia conseguido estabelecer relao emocional com mulheres que correspondesse a sua idade e  sua atraente personalidade. Em certa 
poca, esteve noivo de uma formosa jovem de boa posio social; ela, contudo, rompera o noivado por achar que seu fianc no possua qualquer afeio. Anos depois, 
sua doena irrompeu precisamente no momento em que havia conseguido, pela primeira vez, satisfazer completamente uma mulher. Quando essa mulher, numa atitude de 
gratido e devoo, abraou-o, ele, subitamente, sentiu uma dor misteriosa que se situou no alto da cabea como aguda cutilada. Da em diante, interpretou essa sensao 
como se uma inciso estivesse sendo feita numa autpsia para expor seu crebro. E como seu amigo se havia tornado anatomopatologista, lentamente se apossou dele 
a idia de que s podia ter sido ele, o amigo, que lhe enviara essa ltima mulher para seduzi-lo. Desse ponto em diante, seus olhos se abriram s demais perseguies, 
das quais acreditava ter-se tornado vtima por meio das maquinaes do amigo de outros tempos.
         Mas, que dizer dos casos em que o perseguidor no  do mesmo sexo que o paciente, e que parecem, portanto, contradizer nossa explicao de que so uma defesa 
contra a libido homossexual? H pouco tempo, tive oportunidade de examinar um caso assim, e pude derivar uma confirmao da aparente contradio. Uma jovem, que 
acreditava estar sendo perseguida por um homem com o qual tinha tido encontros amorosos em duas ocasies, na realidade tivera, inicialmente, um delrio dirigido 
contra uma mulher que podia ser considerada uma substituta de sua me. Apenas aps seu segundo encontro  que ela deu o passo que consistiu em desvincular o delrio 
da mulher e transferi-lo para o homem. Em princpio, portanto, a precondio de o perseguidor ser do mesmo sexo que o paciente foi preenchida tambm nesse caso. 
Ao fazer uma queixa a um advogado e a um mdico, a paciente no fez qualquer meno a esse estdio preliminar de seu delrio, e assim deu origem  aparncia de contradio 
de nossa explicao da parania. A escolha objetal homossexual situa-se originalmente mais prxima do narcisismo, do que ocorre com a escolha heterossexual. Quando 
se trata, pois, de repelir um impulso homossexual indesejavelmente forte, torna-se sobremodo fcil o caminho de regresso ao narcisismo. At o momento, tive bem pouca 
oportunidade de falar-lhes acerca dos fundamentos da vida ertica, at onde ns os descobrimos; e  muito tarde para reparar essa omisso. O que posso enfatizar 
para os senhores, porm,  o seguinte. A escolha objetal, o passo adiante no desenvolvimento da libido, que se faz aps o estdio narcsico, pode realizar-se segundo 
dois tipos diferentes: um, segundo o tipo narcsico, no qual o prprio ego da pessoa  substitudo por um outro, que lhe  to semelhante quanto possvel; o outro, 
segundo o tipo ligao, no qual as pessoas que se tornaram valiosas, porque satisfizeram as outras necessidades vitais, so, tambm, escolhidas como objetos pela 
libido. Uma intensa fixao ao tipo narcsico de escolha objetal deve ser includa na predisposio ao homossexualismo manifesto.Os senhores estaro lembrados de 
que, em nosso primeiro encontro do presente ano acadmico, descrevi-lhes o caso de uma mulher que sofria de delrios de cime [ver em [1]]. Agora que estamos to 
prximos do final do ano, os senhores sem dvida gostariam de saber como os delrios so explicados pela psicanlise. A esse respeito, porm, eu tenho a lhes dizer 
menos do que esperam. O fato de que um delrio no pode ser abalado por argumentos lgicos ou experincias reais explica-se do mesmo modo que no caso de uma obsesso 
- por sua relao com o inconsciente, que  representado e mantido em sujeio pelo delrio ou pela obsesso. A diferena entre os dois baseia-se na diferena entre 
os aspectos topogrfico e dinmico das duas doenas.Como na parania, tambm na melancolia (da qual, alis, tm-se descrito muitas formas clnicas diferentes) encontramos 
um ponto no qual se tornou possvel obter alguma compreenso interna (insight) da estrutura interna da doena. Descobrimos que as autocensuras com que esses pacientes 
melanclicos se atormentam a si mesmos da maneira mais impiedosa, aplicam-se, de fato, a outra pessoa, o objeto sexual que perderam ou que se tornou sem valor para 
eles por sua prpria falha. Da podemos concluir que o melanclico, na realidade, retirou do objeto sua libido, mas que, por um processo que devemos chamar de 'identificao 
narcsica', o objeto se estabeleceu no ego, digamos, projetou-se sobre o ego. (Aqui posso apenas fazer-lhes uma descrio figurada e no uma exposio ordenada em 
linhas topogrficas e dinmicas.) o ego da pessoa ento  tratado  semelhana do objeto que foi abandonado e  submetido a todos os atos de agresso e expresses 
de dio vingativo, anteriormente dirigidos ao objeto. A tendncia do melanclico para o suicdio torna-se mais compreensvel se considerarmos que o ressentimento 
do paciente atinge de um s golpe seu prprio ego e o objeto amado e odiado. Na melancolia, bem como em outros distrbios narcsicos, emerge, com acento especial, 
um trao particular na vida emocional do paciente - aquilo que, de acordo com Bleuler, nos acostumamos a descrever como 'ambivalncia'. Com isso queremos significar 
que esto sendo dirigidos  mesma pessoa sentimentos contrrios - amorosos e hostis. Infelizmente, no tive possibilidade, no decurso destas conferncias, de lhes 
falar mais coisas a respeito dessa ambivalncia emocional. [ver em [1].]Alm da identificao narcsica, existe um tipo de identificao histrica que h conhecamos 
h muito mais tempo. Desejaria que houvesse possibilidade de ilustrar para os senhores as diferenas entre as duas formas mediante algumas descries minuciosas. 
Existe algo que posso lhes dizer a respeito das formas peridicas e cclicas da melancolia, que, tenho certeza, os senhores, gostaro de ouvir. Isto porque, em circunstncias 
favorveis - tive experincia disso, por duas vezes -,  possvel, pelo tratamento analtico, evitar nos intervalos lcidos o retorno da condio mrbida na mesma 
disposio emocional ou na disposio contrria. Com tais casos verificamos que, na melancolia e na mania, nos defrontamos novamente com um mtodo especial de abordar 
um conflito cujos fatores determinantes subjacentes concordam precisamente com os de outras neuroses. Os senhores podem imaginar quanto ainda a psicanlise tem a 
aprender nesse campo de conhecimento.Tambm lhes disse [ver em [1] e [2]] que espervamos desse-nos a anlise dos distrbios narcsicos uma compreenso interna (insight) 
da forma em que nosso ego  construdo a partir de diferentes instncias. J estabelecemos um comeo, em um ponto. Partindo da anlise dos delrios de observao 
['Beobachtungswahn'], tiramos a concluso de que h realmente no ego uma instncia que incessantemente observa, critica e compara, e desse modo se contrape  outra 
parte do ego. Acreditamos, por conseguinte, que o paciente nos est revelando uma verdade, ainda no suficientemente valorizada, quando se queixa de estar sendo 
espionado e observado em todos os seus passos e de que todos os seus pensamentos so denunciados e criticados. Seu nico erro consiste em considerar ele essa incmoda 
capacidade como algo alheio a si prprio e colocado fora dele. Percebe uma instncia que assume o domnio do seu ego e que mede seu ego real e cada uma de suas atividades 
mediantes um  ego ideal que ele, paciente, criou para si prprio no decorrer do seu desenvolvimento. Cremos tambm que essa criao foi feita com a inteno de restabelecer 
a auto-satisfao que estava vinculada ao narcisismo infantil primrio, mas que, desde ento, sofreu assim tantas perturbaes e mortificaes. Conhecemos a instncia 
auto-observadora como o censor do ego,  a conscincia;  este que exerce a censura de sonhos durante a noite,  dele que procedem as represses aos inadmissveis 
impulsos plenos de desejos. Quando, nos delrios de referncia, essa instncia censora se decompe em suas partes, ela nos revela sua origem nas influncias dos 
pais, dos educadores e do ambiente social numa identificao com algumas dessas figuras-modelo.Estas so algumas das descobertas que, at o momento, foram obtidas 
da aplicao da psicanlise aos distrbios narcsicos. Sem dvida, ainda so poucas e falta-lhes aquela preciso que s pode ser conseguida a partir de um conhecimento 
ntimo estabelecido nesse novo campo. Todas elas, devemo-las um uso do conceito de libido do ego ou libido narcsica, com cujo auxlio podemos estender s neuroses 
narcsicas os pontos de vista que se mostraram vlidos para as neuroses de transferncia. Todavia, agora os senhores perguntaro se nos  possvel conseguir subordinar 
todos os distrbios das doenas narcsicas e das psicoses  teoria da libido, considerar o fator libidinal na vida mental universalmente culpado da causao da doena, 
e se no devemos jamais atribuir a responsabilidade pela mesma a modificaes no funcionamento do instinto de autopreservao. Bem, senhoras e senhores, parece-me 
que essa questo no requer uma resposta urgente e, principalmente, que no est madura para um julgamento. Podemos confiantemente deixa-l para depois, na expectativa 
do progresso de nosso trabalho cientfico. Eu no me surpreenderia se fosse verificado que o poder de produzir efeitos patognicos de fato constitusse uma prerrogativa 
dos instintos libidinais, de modo que a teoria da libido pudesse celebrar seu triunfo por toda uma extenso que vai desde a mais simples neurose 'atual' at a mais 
grave alienao da personalidade. Afinal, sabemos que  uma faceta caracterstica da libido ela lutar contra uma sua submisso  realidade do universo -  Ananke 
[ver em [1]]. No entanto, considero extremamente provvel que os instintos do ego so arrastados secundariamente pela instigao patognica da libido e levados a 
perturbaes funcionais. E no penso que seria um desastre para o rumo de nossas pesquisas se aquilo que nos aguarda  a descoberta de que, nas psicoses graves, 
os prprios instintos do ego perderam sua orientao, como fato principal. O futuro dar a resposta - para os senhores, pelo menos.Entretanto, permitam-me novamente 
retornar, por um momento,  ansiedade, para lanar uma luz sobre um ltimo ponto obscuro que ali deixamos. Disse [ver em [1]] que existe algo no harmonizvel com 
a relao (to amplamente reconhecida, alis) entre ansiedade e libido: ou seja, o fato de que a ansiedade realstica em face de um perigo parece ser manifestao 
do instinto de autopreservao - o que, afinal, dificilmente pode ser objeto de controvrsia. Como seria, ento, se o responsvel pelo afeto de ansiedade no fossem 
os egosticos instintos do ego, mas a libido do ego? Afinal, o estado de ansiedade , em todos os casos,  inadequado para fins prticos e sua inadequao se torna 
evidente quando atinge um grau muito elevado. Em tais casos, interfere na ao, quer se trate de fuga, ou de defesa, ao que  a nica adequada e a nica que serve 
 causa da autopreservao. Portanto, se atribumos a parte afetiva da ansiedade realstica  libido do ego e a ao concomitante ao instinto de autopreservao, 
teremos eliminado a dificuldade terica. Enfim, no acreditam seriamente os senhores que algum foge, porque sente ansiedade? No. Sente-se ansiedade e foge-se por 
um motivo comum, que  decorrente da percepo do perigo. As pessoas que enfrentaram um grande perigo de morte, nos contam que no sentiram medo, absolutamente, 
mas simplesmente agiram - por exemplo, que apontaram o rifle para o animal feroz -, e que isso inquestionavelmente era o mais adequado.
         
         CONFERNCIA XXVII   
         TRANSFERNCIA
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         De vez que agora nos aproximamos do final de nossas palestra, h uma expectativa especial que estar na mente dos senhores, que no se permitiria frustrar-se. 
Sem dvida, os senhores supem que eu no lhes teria mostrado todos os detalhes do tema da psicanlise apenas para os abandonar, no fim, sem dizer uma palavra sobre 
terapia, na qual, em ltima anlise, se fundamenta a possibilidade de se exercer a psicanlise. Ademais, este  um assunto que no posso ocultar dos senhores, pois 
aquilo que aprenderem com relao a ele os capacitar a conhecer um fato novo, cuja ausncia faria com que a compreenso dos senhores acerca das doenas por ns 
investigadas permanecesse muito incompleta.
         Sei que no esperam eu inici-los na tcnica, com a qual a anlise, para fins teraputicos, haver de ser efetuada. Os senhores apenas desejam conhecer, 
de modo muito genrico, o mtodo com que opera o tratamento psicanaltico e, em linhas gerais, o que este realiza. E tm o inquestionvel direito de conhecer esse 
aspecto. Todavia, no o direi aos senhores, mas insistirei em que o descubram por si mesmos.
         Pensem nisto, senhores! Aprenderam tudo quanto  essencial a respeito dos fatores determinantes do adoecer, bem como todos os fatores que entram em jogo 
aps o paciente haver adoecido. Onde daro estes lugar a alguma influncia teraputica? Em primeiro lugar, existe a disposio hereditria. Desta no falamos com 
muita freqncia, de vez que  enfaticamente ressaltada a partir de outras direes, e no temos nada de novo a dizer a respeito. No suponham, porm, que a subestimamos; 
justamente como terapeutas, chegamos a perceber com muita nitidez a sua fora. De qualquer modo, nada podemos fazer para modific-la; tambm devemos consider-la 
algo estabelecido, que pe um limite aos nossos esforos. Depois, existe a influncia das experincias do incio da infncia, s quais costumamos conferir importncia 
na anlise: elas pertencem ao passado e no podemos anul-las. Vem, a seguir, tudo aquilo que resumimos como 'frustrao real' - os infortnios da vida dos quais 
se originam a falta de amor, pobreza, dissenses de famlia, escolha mal feita de um companheiro no casamento, circunstncias sociais desfavorveis , e a rigidez 
dos padres ticos a cuja presso o indivduo est sujeito. Aqui, para dizer a verdade, deveria haver mos bastante para uma terapia muito diferente, mas isso teria 
de pertencer ao tipo que o folclore vienense atribuiu ao imperador Jos - a interferncia benvola de um personagem poderoso diante do qual as pessoas se inclinassem 
e as dificuldades desaparecessem. Mas, quem somos ns, para adotar semelhante benevolncia como instrumento de nossa terapia? Pobres como somos, socialmente sem 
poderes, compelidos a ganhar a vida com nossa atividade mdica, no estamos sequer em condies de ampliar nossos esforos at as pessoas sem recursos, como podem 
faz-lo, afinal de contas, outros mdicos com outros mtodos de tratamento. Nosso tratamento consome tempo demasiado e  por demais trabalhoso para que isso se torne 
possvel. Entretanto, talvez os senhores estejam agarrando-se a um dos fatores que mencionei, e acreditam que ali encontram o ponto no qual nossa influncia possa 
ser exercida. Se as restries da tica, impostas pela sociedade, tm um papel na privao imposta ao paciente, o tratamento pode, afinal, dar-lhe a coragem, ou, 
quem sabe, a recomendao direta de desprezar essas barreiras e de conseguir sua satisfao e a recuperao de sua sade, embora, com isso, desista de cumprir um 
ideal que a sociedade exalta, mas ao qual ela to raramente adere. Assim, o paciente tornar-se- sadio por 'viver uma vida completa', sexualmente. Isso,  verdade, 
projeta uma sombra por sobre o tratamento analtico, porque esse no serviria  moralidade vigente. O que ele der ao indivduo, haver tirado da comunidade.Mas, 
senhoras e senhores, quem lhes forneceu informaes to errneas? Uma recomendao ao paciente para 'viver uma vida completa' sexualmente por certo no poderia desempenhar 
um papel no tratamento analtico - no mnimo porque ns prprios declaramos que um persistente conflito se realiza, no paciente, entre um impulso libidinal e a represso 
sexual, entre uma tendncia sensual e uma tendncia asctica. Esse conflito no seria solucionado com ajudarmos uma dessas tendncias a triunfar sobre sua opositora. 
Vemos, na realidade, que nos neurticos o ascetismo est no poder; e a conseqncia , justamente, a tendncia sexual suprimida encontrar uma vida atravs de sintomas. 
Se, ao contrrio, formos assegurar a vitria da sensualidade, ento a represso sexual, que foi posta de lado, necessariamente haver de ser substituda por sintomas. 
Nenhuma dessas duas decises alternativas poderia terminar com o conflito interno; em qualquer um dos casos, uma pare do conflito ficaria insatisfeita. H apenas 
poucos casos nos quais o conflito  to instvel, que um fator desse, com o de o mdico tomar partido, possa decidi-lo; e tais casos efetivamente no necessitam 
do tratamento analtico. Todo aquele em quem o mdico poderia exercer tamanha influncia, teria encontrado a mesma sada sem o mdico. Os senhores precisam estar 
conscientes de que, se um homem jovem e abstinente se decide em favor de relaes sexuais ilcitas, ou se uma esposa insatisfeita procura alvio com outro homem, 
essas pessoas, via de regra, no aguardaram a permisso de um mdico ou, mesmo, de seu analista.
         Nesse consenso, as pessoas geralmente negligenciam o ponto essencial - de que o conflito patognico nos neurticos no deve ser confundido com uma luta 
normal entre dois impulsos mentais, ambos em mesmo p de igualdade. Em primeiro lugar, a dissenso se faz entre dois poderes, um deles tendo irrompido at o estdio 
do que  pr-consciente ou consciente, ao passo que o outro foi mantido reprimido no estdio inconsciente. Por esse motivo, o conflito no pode ser conduzido a um 
desfecho; os contendores no podem engalfinhar-se mais do que o fariam, vamos comparar assim, um urso polar e uma baleia. Uma verdadeira deciso s pode ser obtida 
quando ambos se encontrarem no mesmo cho. Penso que a nica tarefa de nossa terapia consiste em tornar isso possvel.
         Ademais disso, posso asegurar-lhes que esto mal informados se supem que o conselho e a orientao nos assuntos da vida faam parte integral da influncia 
analtica. Pelo contrrio, na medida do possvel, evitando exercer o papel de menor desse tipo, e tudo o que procuramos levar a efeito , de preferncia, que o paciente 
venha a tomar as decises por si mesmo. Tambm com vistas a esse propsito, exigimos do paciente que adie para o trmino de seu tratamento quaisquer decises relativas 
 escola de uma profisso, encargos de negcios, casamento ou divrcio, e que s as ponha em prtica quando o tratamento estiver terminado. Devem admitir que tudo 
isso  diferente daquilo que imaginavam. Apenas, no caso de algumas pessoas muito jovens ou muito carentes de ajuda, ou instveis, no conseguimos pr em prtica 
a desejada limitao de nosso papel. Com elas, temos de combinar as funes de mdico e de educador; mas, sendo esta a situao, estamos muito cnscios de nossa 
responsabilidade e nos conduzimos com a devida cautela.Os senhores, no entanto, no devem, com base em minha veemncia em defender-me da acusao de que os neurticos 
so encorajados, no tratamento analtico, a viver uma vida plena - os senhores no devem concluir da que os influenciamos em favor da virtude convencional. Est 
muito longe de ser este o caso.  verdade que no somos reformadores, mas apenas observadores; no obstante, no podemos deixar de observar com olho crtico, e constatamos 
ser impossvel tomar o partido da moralidade sexual convencional ou ter em alto apreo a forma pela qual a sociedade procura regulamentar na prtica os problemas 
da vida sexual. Podemos apresentar  sociedade um clculo aproximado, segundo o qual aquilo que ela descreve como sua moralidade exige um sacrifcio que no vale 
a pena, e seus procedimentos no se baseiam na honestidade e no demonstram sabedoria. No livramos dessas crticas os ouvidos dos pacientes, habituamo-los a emitir 
pareceres isentos de preconceitos, tanto sobre assuntos sexuais como sobre outros assuntos; e se, havendo-se tornado independentes aps completado o tratamento, 
os pacientes, mediante seu prprio julgamento, decidem por alguma posio intermediria entre viver uma vida livre e uma vida de absoluto ascetismo, sentimos nossa 
conscincia tranqila, seja qual for sua escolha. Dizemos a ns prprios que todo aquele que conseguiu educar-se de modo a se conduzir de acordo com a verdade referente 
a si mesmo, est permanentemente protegido contra o perigo da imoralidade, conquanto seus padres de moralidade possam diferir, em determinados aspectos, daqueles 
vigentes na sociedade. Alm disso, devemos ter a cautela de no subestimar a importncia do papel que desempenha a questo da abstinncia na influncia que esta 
possa exercer nas neuroses. Apenas em uma minoria de casos a situao patognica da frustrao e o subseqente represamento da libido podem chegar a seu fim pelo 
tipo de relao sexual que se possa obter sem muita dificuldade.Assim, os senhores no podem explicar o efeito teraputico da psicanlise por meio da permisso para 
uma vida sexual completa. Busquem, pois, por algo diferente. Imagino que, enquanto rechaava essa sugesto dos senhores, um comentrio meu colocou-os no caminho 
certo. Aquilo que empregamos sem dvida deve ser a substituio do que est inconsciente pelo que  consciente, a traduo daquilo que  inconsciente para o que 
 consciente. Sim,  isso. Transformando a coisa inconsciente em consciente, suspendemos as represses, removemos as precondies para a formao dos sintomas, transformamos 
o conflito patognico em conflito normal, para o qual deve ser possvel, de algum modo, encontrar uma soluo. Tudo o que realizamos em um paciente  essa nica 
modificao psquica: a extenso em que ela se efetua  a medida da ajuda que proporcionamos. Ali onde as represses (ou os processos psquicos anlogos) no podem 
ser desfeitos, nossa terapia no tem nada a esperar.
         Podemos expressar o objetivo de nossos esforos em diversas frmulas: tornar consciente o que  inconsciente, remover as represses, preencher lacunas da 
memria - tudo isso corresponde  mesma coisa. Contudo, talvez os senhores fiquem insatisfeitos com essa formulao. Haviam formado um quadro diferente do retorno 
 sade de um paciente neurtico, o de que, aps submeter-se ao cansativo trabalho da psicanlise, eles se transformaria em outro homem; mas o resultado total, assim 
parece,  que ele, antes, tem menos coisas inconscientes e mais coisas conscientes do que tinha anteriormente. O fato  que os senhores provavelmente esto subestimando 
a importncia de uma modificao interna dessa ordem. O neurtico realmente curado tornou-se outro homem, embora, no fundo, naturalmente permaneceu o mesmo; ou seja, 
tornou-se o que se teria tornado na melhor das hipteses, sob as condies mais favorveis. Isso, porm, j  muita cosia. Se os senhores passarem a ouvir atentamente 
tudo que deve ser feito e que esforos so necessrios para levar a cabo essa mudana aparentemente banal na vida mental de um homem, sem dvida comearo a perceber 
a importncia dessa diferena em nveis psquicos.
         Farei uma pequena digresso, para perguntar-lhes se sabem o que significa uma terapia causal.  este o modo como descrevemos um procedimento, que no considera 
como ponto de ataque os sintomas de uma doena, mas se prope remover suas causas. Pois bem,  ento nosso mtodo analtico uma terapia causal, ou no? A resposta 
no  simples, mas pode, talvez, dar-nos a oportunidade de perceber a inutilidade de uma pergunta assim formulada. Na medida em que a terapia analtica no se prope 
como sua tarefa primeira remover os sintomas, ela se comporta como uma terapia causal. Em outro aspecto, os senhores podem dizer, ela no o .  que, h muito tempo 
atrs, situamos a origem da seqncia das causas da doena, das represses s disposies instintuais, suas intensidades relativas na constituio e aos desvios 
no curso de seu desenvolvimento. Supondo, agora, que fosse possvel, talvez, por algum meio qumico interferir nesse mecanismo, aumentar ou diminuir a quantidade 
de libido presente em determinada poca ou reforar um instinto  custa de outro - tal coisa seria, ento, uma terapia causal no verdadeiro sentido da palavra, para 
qual nossa anlise teria efetuado o indispensvel trabalho preliminar de reconhecimento. No momento atual, como sabem, no existe semelhante mtodo de influenciar 
os processos libidinais; com nossa terapia psquica, atacamos em conjunto diferentes pontos - no exatamente os pontos que sabemos serem as razes dos fenmenos, 
mas, ainda assim, bem distantes dos sintomas; os pontos que se nos tornaram acessveis devido a algumas circunstncias muito especiais.
         O que, pois, devemos fazer a fim de substituir o que  inconsciente, em nossos pacientes, por aquilo que  consciente? Houve uma poca em que pensvamos 
ser isto algo muito simples: tudo o que tnhamos de fazer era descobrir esse material inconsciente e comunic-lo ao paciente. J sabemos, porm, que este  um erro 
primrio [ver em [1] e [2]]. O nosso conhecimento acerca do material inconsciente no  equivalente ao conhecimento dele; se lhe comunicarmos nosso conhecimento, 
ele no o receber em lugar de seu material inconsciente, mas ao lado do mesmo; e isso causar bem pouca mudana no paciente. Devemos, de preferncia, situar esse 
material inconsciente topograficamente, devemos procurar, em sua memria, o lugar em que se tornou inconsciente devido a uma represso. A represso deve ser eliminada 
- e a seguir pode efetuar-se desimpedidamente a substituio do material consciente pelo inconsciente. Como, pois, removemos uma represso dessa espcie? A essa 
altura, nossa tarefa entra numa segunda fase. Primeiro, a busca da represso e, depois, a remoo da resistncia que mantm a represso.
         Como removemos a resistncia? Da mesma forma: descobrindo-a e mostrando-a ao paciente. Na realidade, tambm a resistncia deriva de uma represso - da mesma 
represso que nos esforamos por solucionar, ou de uma represso que se realizou anteriormente. Foi provocada pela anticatexia, que surgiu a fim de reprimir o impulso 
censurvel. Assim, fazemos o mesmo que tentamos fazer inicialmente: interpretar, descobrir, comunicar; mas, ento, estamos fazendo-o no lugar certo. A anticatexia 
ou a resistncia no fazem parte do inconsciente, e sim do ego, que  nosso colaborador, sendo-o, ainda que no consciente. Como sabemos, aqui a palavra 'inconsciente' 
est sendo usada em dois sentidos: por um lado, como fenmeno e, por outro, como sistema. Esse fato parece muito difcil e obscuro; mas, no estar apenas repetindo 
o que j dissemos em passagens precedentes? H muito nos preparamos para isso. Esperamos que essa resistncia seja abandonada, e retiradas as anticatexias quando 
nossa interpretao houver facultado o ego a reconhec-la. Quais as foras motrizes com que trabalhamos em um caso desses? Em primeiro lugar, com o desejo de recuperao, 
do paciente, o qual o induziu a compartilhar conosco de nosso trabalho em conjunto; e, em segundo lugar, com o auxlio de sua inteligncia,  qual fornecemos pontos 
de apoio atravs de nossa interpretao. Sem dvida  mais fcil a inteligncia do paciente reconhecer a resistncia e encontrar a traduo correspondente quilo 
que est reprimido se lhe tivermos fornecido previamente as idias orientadoras apropriadas. Se lhes digo: 'Olhem para o cu! L est um balo!', o descobriro com 
muito mais facilidade, do que se lhes digo simplesmente para olhar para cima e procurar ver algo. Do mesmo modo, um estudante que v atravs de um microscpio, pela 
primeira vez,  instrudo por seu professor a respeito daquilo que ir enxergar; do outro modo, ele no o ver, absolutamente, embora esteja ali e seja visvel.
         E agora, passemos aos fatos! Em numerosas doenas nervosas - na histeria, nos estados de ansiedade, na neurose obsessiva - nossa expectativa cumpre-se. 
Ao procurar assim a represso, ao revelar as resistncias, ao assinalar o que est reprimido, conseguimos, com efeito, cumprir nossa tarefa - isto , vencer as resistncias, 
remover a represso e transformar o material inconsciente em material consciente. Ao faz-lo, obtemos a mais vvida idia da forma como uma violenta luta se trava 
na mente do paciente ante cada resistncia a vencer - uma luta mental normal, no mesmo cho psicolgico, entre os motivos que procuram manter a anticatexia e os 
motivos que esto preparados para abandon-la. Os primeiros so os antigos motivos que, no passado, efetuaram a represso; entre os ltimos esto os motivos surgidos 
recentemente, que, assim podemos esperar, decidiro o conflito em nosso favor. Temos conseguido reviver o antigo conflito que levou  represso e submeter a reviso 
o processo que ento foi decidido. O novo material que ns aduzimos inclui, em primeiro lugar, o lembrete de que a deciso anterior levou  doena, e a promessa 
de que um caminho diferente levar  recuperao, inclui, em segundo lugar, a enorme modificao em todas a circunstncias, que se efetuou desde a poca da rejeio 
original. Naquela poca, o ego era frgil, infantil e, talvez, pode ter tido razes para proibir, por lhe parecerem um perigo as exigncias da libido. Atualmente, 
o ego tornou-se forte e experiente, e, sobretudo, tem  mo um aliado na figura revivido em direo a um resultado melhor do que aquele que redundou em represso; 
e, como disse, na histeria, nas neuroses de ansiedade e obsessiva, nosso xito prova, em geral, que temos razo.
         Existem, entretanto, outras formas de doena nas quais, malgrado as condies sejam as mesmas, nossa conduta teraputica jamais obtm xito. Nelas tambm 
tem-se verificado que houve um conflito bsico entre o ego e a libido, que acarretou a represso - embora esse fato possa necessitar de uma descrio topogrfica 
diferente; nelas, ademais,  possvel determinar os pontos de vista do paciente, nos quais ocorreram as represses; utilizamos o mesmo procedimento, estamos prontos 
a fazer as mesmas promessas e oferecer a mesma ajuda apresentando idias orientadoras; e, tambm nesse ponto, o tempo transcorrido entre as represses e a poca 
presente favorece um resultado diferente para o conflito. Ainda assim, no conseguimos remover uma nica resistncia ou suprimir uma nica represso. Esses pacientes, 
paranicos, melanclicos, sofredores de demncia precoce, permanecem, de um modo geral, intocados e impenetrveis ao tratamento psicanaltico. Qual seria a razo? 
No  falta de inteligncia. Determinado nvel de capacidade intelectual , naturalmente, exigido de nossos pacientes; e por certo no existe falta de inteligncia, 
por exemplo, nos extremamente sagazes portadores de parania combinatria [ver em [1] e seg.]. E alguns dos outros motivos no parecem estar ausentes. Assim o melanclicos 
possuem um grau muito elevado da conscincia, ausente nos paranicos, de estarem doentes e de isto constituir o motivo por sofrerem tanto; tal, contudo, no os torna 
mais acessveis. Deparamos, aqui, com um fato que no compreendemos, e que, portanto, nos faz duvidarmos de que realmente compreendemos todos os fatores determinantes 
de nosso possvel xito em outras neuroses.
         Se prosseguimos dedicando-nos apenas aos nossos neurticos histricos e obsessivos, logo deparamos com um segundo problema, para o qual absolutamente no 
estamos preparados. Isto porque, aps pequeno lapso de tempo, no podemos deixar de constatar que esses pacientes se comportam de maneira muito peculiar com relao 
a ns. Acreditvamos, para dizer a verdade, que havamos percebido todos os motivos envolvidos no tratamento, que havamos colocado em termos racionais, completamente, 
a situao existente entre ns e os pacientes, de modo que esta pudesse ser visualizada de imediato como se fora uma soma aritmtica; no obstante, a despeito de 
tudo isso, algo parece infiltrar-se furtivamente, algo que no foi levado em conta em nossa soma. Essa novidade inesperada assume muitas formas, e iniciarei descrevendo 
para os senhores as formas mais comuns e mais facilmente compreensveis sob as quais ela aparece.
         Constatamos, pois, que o paciente, que deveria no desejar outra coisa seno encontrar uma sada para seus penosos conflitos, desenvolve especial interesse 
pela pessoa do mdico. Tudo o que se relaciona ao mdico parece ser mais importante para ele, do que seus prprios assuntos, e parece desvi-lo de sua prpria doena. 
Durante algum tempo, por conseguinte, as relaes com ele se tornam muito agradveis; o paciente  especialmente amvel, procura, sempre que possvel, mostrar sua 
gratido, revela refinamento e mritos em seu modo de ser, que, talvez, no esperaramos encontrar nele. Ademais, a seguir o mdico forma uma opinio favorvel acerca 
do paciente e aprecia a boa sorte que lhe possibilitou dar sua assistncia a uma personalidade de tanto valor. Tendo o mdico oportunidade de conversar com os parentes 
do paciente, fica sabendo da satisfao dele e constata que a afeio  recproca. Em casa, o paciente jamais se cansa de elogiar o mdico e de descobrir nele qualidades 
sempre novas.'Ele est entusiasmado com o senhor', dizem os parentes, 'ele confia cegamente no senhor; tudo o que o senhor diz  como uma revelao para ele'. Aqui 
e ali, algum, dentro desse coro, tem viso mais arguta e diz: 'Est ficando maante o jeito como ele s fala no senhor, e tem nos lbios o nome do senhor o tempo 
todo.'
         Esperemos que o mdico seja suficientemente modesto e possa atribuir o alto conceito em que o tem seu paciente, s esperanas que possa causar neste e ao 
alargamento dos horizontes intelectuais mediante esclarecimentos surpreendentes e liberalizantes que o tratamento traz consigo. Nessas condies, a anlise tambm 
faz bons progressos. O paciente compreende aquilo que lhe  interpretado e se deixa absorver pelas tarefas que o tratamento lhe prope; o material mnmico e as associaes 
inundam-no em quantidade, a justeza e adequao de suas interpretaes so uma surpresa para o mdico, e este s pode observar com satisfao que este  um paciente 
que aceita, de pronto, todas as inovaes psicolgicas inclinadas a provocar a mais acerba contradio entre pessoas sadias no mundo externo. Ademais disso, as relaes 
cordiais que prevalecem durante o trabalho da anlise acompanham-se de uma melhora objetiva, que  reconhecida em todos os ngulos na doena do paciente.
         Entretanto, esse bom tempo no pode durar para sempre. Um dia, nuvens aparecem. Surgem dificuldades no tratamento; o paciente declara que nada mais lhe 
acode  mente. D a mais ntida impresso de no estar mais interessado no trabalho, de estar, despreocupadamente, no atribuindo mais importncia s instrues 
que lhe foram dadas, no sentido de dizer tudo o que lhe vem  cabea e de no permitir que obstculos crticos impeam de faz-lo. Comporta-se como se estivesse 
fora do tratamento e como se no tivesse feito esse acordo com o mdico. Est visivelmente ocupado com algo, mas pretende mant-lo consigo prprio. Esta  uma situao 
perigosa para o tratamento. Inequivocamente, estamos nos defrontando com uma formidvel resistncia. Todavia, que aconteceu, capaz de explicar isto?
         Ora, se pudermos esclarecer a situao, verificaremos que a causa da dificuldade  haver o paciente transferido para o mdico intensos sentimentos de afeio, 
que nem se justificam pela conduta do mdico, nem pela situao que se criou durante o tratamento. A forma pela qual essa afeio se expressa e os objetivos que 
ela tem em vista, dependem do curso da relao pessoal entre as duas pessoas em questo. Se aqueles que se encontram numa situao dessas, so uma jovem e um homem 
jovem, teremos a impresso de se tratar de um caso normal de enamoramento; julgaremos compreensvel que uma jovem se apaixone por um homem, com quem ela pode estar 
muito a ss e falar de coisas ntimas, e que tem a vantagem de ser para ela um superior prestimoso; e provavelmente no notaremos o fato de que, de uma jovem neurtica, 
deveramos esperar de preferncia um impedimento na sua capacidade para o amor. Quanto mais as relaes pessoais entre mdico e paciente divergirem desse caso hipottico, 
mais nos surpreenderemos ao encontrar, no obstante, o mesmo relacionamento emocional repetindo-se constantemente. Isto ainda  vivel quando se trata de uma mulher 
que, infeliz no casamento, parece estar tomada de violenta paixo por um mdico ainda no comprometido, se se dispe a obter divrcio para ser dele, ou se, no caso 
de haver obstculos sociais, no chegar a manifestar qualquer hesitao em iniciar uma secreta liaison com ele. Essas coisas acontecem tambm fora da psicanlise. 
Nessas circunstncias, contudo, ficamos atnitos ao ouvir de mulheres casadas e de jovens declaraes que conferem validade a uma atitude muito peculiar para com 
o problema teraputico: elas, dizem, sempre souberam que podiam curar-se somente atravs do amor; e, antes que comeasse o tratamento, haviam esperado que, atravs 
dessa relao, iriam, afinal, ter assegurado aquilo que at ento a vida lhes tinha negado; somente com essa esperana  que haviam enfrentado tantos problemas relativos 
ao tratamento e vencido todas as dificuldades de comunicar seus pensamentos - e ns por nosso lado, podemos acrescentar: e to facilmente tinham compreendido aquilo 
que, de outro modo  to difcil de acreditar. Tal tipo de confisso, porm, nos surpreende: pe por terra todos os nossos clculos. Ser que deixamos fora de nossas 
contas o item mais importante?
         Com efeito, quanto maior  nossa experincia, menor nossa capacidade de resistir contra e fazermos essa correo, embora a necessidade de faz-la envergonhe 
nossas pretenses cientficas. Nas primeiras vezes, talvez se possa pensar que o tratamento analtico esbarrou numa perturbao devido a um evento casual - isto 
, um evento no desejado e no provocado pelo tratamento. Quando, porm, semelhante vinculao amorosa por parte do paciente em relao ao mdico se repete com 
regularidade em cada novo caso, quando surge sempre novamente sob as condies mais desfavorveis e onde existem incongruncias positivamente esquisitas, at mesmo 
quando senhoras de idade madura se apaixonam por homens de barba grisalha, at mesmo onde, conforme julgamos, no h nada, de espcie alguma, capaz de atrair - ento 
devemos abandonar a idia de uma perturbao casual e reconhecer que estamos lidando com um fenmeno intimamente ligado  natureza da prpria doena.
         Esse novo fato que, portanto, admitimos com tanta relutncia, conhecemos como transferncia. Com isso queremos dizer uma transferncia de sentimentos  
pessoa do mdico, de vez que no acreditamos poder a situao no tratamento justificar o desenvolvimento de tais sentimentos. Pelo contrrio, suspeitamos que toda 
a presteza com que esses sentimentos se manifestam deriva de alguma outro lugar, que eles j estavam preparados no paciente e, com a oportunidade ensejada pelo tratamento 
analtico, so transferidos para a pessoa do mdico. A transferncia pode aparecer como uma apaixonada exigncia de amor, ou sob formas mais moderadas; em lugar 
de um desejo de ser amada, um jovem pode deixar emergir um desejo, em relao a um homem, idoso, de ser recebida como filha predileta; o desejo libidinal pode estar 
atenuado num propsito de amizade inseparvel, mas idealmente no-sensual. Algumas mulheres conseguem sublimar a transferncia e mold-la at que atinja essa espcie 
de viabilidade; outras ho de express-la em sua forma crua, original e, no geral, impossvel. Mas, no fundo,  sempre a mesma, e jamais permite que haja equvoco 
quanto  sua origem na mesma fonte.
         Antes de nos perguntarmos onde situar esse novo fato, completarei minha descrio desse quadro. Que acontece com os pacientes masculinos? Com eles poder-se-ia 
ao menos esperar uma fuga da problemtica interferncia causada pela diferena de sexo e pela atrao sexual. Entretanto, nossa resposta deve ser exatamente a mesma 
que para o caso de mulheres. Existe a mesma vinculao ao mdico, a mesma supervalorizao das qualidades deste, a mesma absoro dos seus interesses, o mesmo cime 
de qualquer pessoa mais chegada a ele na vida real. As formas sublimadas de transferncia so mais freqentes entre um homem e outro e as exigncias sexuais diretas 
so raras, na medida em que  incomum o homossexualismo manifesto, se comparado com as demais formas em que esses componentes instintuais so empregados. Com seus 
pacientes masculinos, mais amide do que com mulheres, o mdico encontra uma forma de expresso da transferncia que parece,  primeira vista, contradizer todas 
as nossas descries anteriores - uma transferncia hostil ou negativa.Devo comear por esclarecer que uma transferncia est presente no paciente desde o comeo 
do tratamento e, por algum tempo,  o mais poderoso mvel de seu progresso. Dela no vemos indcio algum, e com ela no temos por que nos preocupar enquanto age 
a favor do trabalho conjunto da anlise. Se, porm, se transforma em resistncia, devemos voltar-lhe nossa ateno e reconhecemos que ela modifica sua relao para 
com o tratamento sob duas condies diferentes e contrrias: primeira, se na forma de inclinao amorosa ela se torna to intensa e revela sinais de sua origem em 
uma necessidade sexual de modo to claro, que inevitavelmente provoca uma oposio interna a ela mesma; e, segundo, se consiste em impulsos hostis em vez de afetuosos. 
Os sentimentos hostis revelam-se, via de regra, mais tarde do que os sentimentos afetuosos, e se ocultam atrs destes; sua presena simultnea apresenta um bom quadro 
da ambivalncia emocional [pg. 426-8] dominante na maioria de nossas relaes ntimas com outras pessoas. Os sentimentos hostis indicam, tal qual os afetuosos, 
haver um vnculo afetivo, da mesma forma como o desafio, tanto como a obedincia, significa dependncia, embora tendo  sua frente um sinal 'menos' em lugar de 'mais'. 
No podemos ter dvidas de que os sentimentos hostis para com o mdico merecem ser chamados de 'transferncia', pois a situao, no tratamento, com muita razo no 
proporciona qualquer fundamento para sua origem; essa inevitvel viso da transferncia negativa nos assegura, portanto, que no estivemos equivocados em nosso julgamento 
acerca da transferncia positiva ou afetuosa.
         Onde surge a transferncia, que dificuldades nos causa, como as superamos e que vantagens finalmente dela auferimos - estas so questes que devem ser abordadas 
detalhadamente em um manual tcnico de anlise, e hoje me referirei a elas apenas levemente. Para ns  impossvel ceder s exigncias do paciente, decorrentes da 
transferncia; seria absurdo se as rejeitssemos de modo indelicado e, o que seria pior, indignados com elas. Superamos a transferncia mostrando ao paciente que 
seus sentimentos no se originam da situao atual e no se aplicam  pessoa do mdico, mas sim que eles esto repetindo algo que lhe aconteceu anteriormente. Desse 
modo, obrigamo-lo a transformar a repetio em lembrana. Por esse meio, a transferncia que, amorosa ou hostil, parecia de qualquer modo constituir a maior ameaa 
ao tratamento, torna-se seu melhor instrumento, com cujo auxlio os mais secretos compartimentos da vida mental podem ser abertos.Mas gostaria de dizer-lhes algumas 
palavras para aliviar-lhes a surpresa que tiveram com a emergncia desse inesperado fenmeno. Devemos no esquecer que a doena do paciente, que aceitamos para analisar, 
no  algo acabado e tornado rgido, mas algo que ainda est crescendo e evoluindo como um organismo vivo. O incio do tratamento no pe um fim a essa evoluo; 
quando, porm, o tratamento logra o domnio sobre o paciente, ocorre a totalidade da produo de sua doena concentrar-se em um nico ponto - sua relao com o mdico. 
Assim, a transferncia pode ser comparada  camada do cmbio de uma rvore, entre a madeira e a casca, a partir do qual deriva a nova formao de tecidos e o aumento 
da circunferncia do tronco. Quando a transferncia atingiu esse grau de importncia, o trabalho com as recordaes do paciente retira-se bem para o fundo da cena. 
Em conseqncia, no  incorreto dizer que j no mais nos ocupamos da doena anterior do paciente, e sim de uma neurose recentemente criada e transformada, que 
assumiu o lugar da anterior. Temos acompanhado essa nova edio do distrbio antigo desde seu incio, temos observado sua origem e seu crescimento e estamos especialmente 
aptos a nos situar dentro dele, de vez que, por sermos seu objeto, estamos colocados em seu prprio centro. Todos os sintomas de paciente abandonam seu significado 
original e assumem um novo sentido que se refere  transferncia; ou apenas tais sintomas persistem, por serem capazes de sofrer essa transformao. Mas dominar 
essa neurose nova, artificial, equivale a eliminar a doena inicialmente trazida ao tratamento - equivale a realizar nossa tarefa teraputica. Uma pessoa que se 
tornou normal e livre da ao de impulsos instintuais reprimidos em sua relao com o mdico, assim permanecer em sua prpria vida, aps o mdico haver-se retirado 
dela.
         A transferncia possui essa importncia extraordinria e, para o tratamento, importncia positivamente central, na histeria, na histeria de angstia e na 
neurose obsessiva, que so, por esse motivo, apropriadamente classificadas em conjunto sob o nome de 'neuroses de transferncia'. Ningum que tenha ganho uma impresso 
global do fato da transferncia, a partir de um trabalho analtico, poder ainda duvidar da natureza dos impulsos suprimidos que encontram expresso nos sintomas 
dessas neuroses, e tampouco exigir provas mais convincentes do carter libidinal dos mesmos. Pode-se dizer que nossa convico da importncia dos sintomas como 
satisfaes substitutivas da libido teve sua confirmao final s aps a incluso da transferncia.
         Existem, assim, todos os motivos para que aperfeioemos nossa descrio dinmica anterior do processo teraputico, e para que o faamos harmonizar-se com 
essa nova aquisio. A fim de que o paciente enfrente a luta do conflito normal com as resistncias que lhe mostramos na anlise [ver em [1] e [2]], ele tem necessidade 
de um poderoso estmulo que influenciar sua deciso no sentido que desejamos, levando  recuperao. De outro modo, poderia acontecer que ele venha a optar em favor 
da repetio do resultado anterior, e permitiria que aquilo que fora trazido  conscincia deslizasse novamente para a represso. Nesse ponto, o que  decisivo em 
sua luta no  sua compreenso interna (insight) intelectual - que nem  suficientemente forte, nem suficientemente livre para uma tal realizao -, mas simples 
e unicamente a sua relao com o mdico. Na medida em que sua transferncia leva um sinal 'mais', ela reveste seu mdico de autoridade e se transforma em crena 
nas suas comunicaes e explicaes. Na ausncia de tal transferncia, ou se a transferncia fosse negativa, o paciente jamais daria sequer ouvidos ao mdico e a 
seus argumentos. Aqui sua crena est repetindo a histria do seu prprio desenvolvimento;  um derivado do amor e, no princpio, no precisa de argumentos. Apenas 
mais tarde ele permite suficiente espao para submet-los a exame, desde que os argumentos sejam apresentados por quem ele ama. Sem esses apoios, os argumentos perdem 
sua validade; e na vida da maioria das pessoas esses argumentos jamais funcionam. Portanto, em geral um homem s  acessvel, tambm a partir do aspecto intelectual, 
desde que seja capaz de uma catexia libidinal de objetos; e temos boas razes para reconhecer e temer no montante de seu narcisismo uma barreira contra a possibilidade 
de ser influenciado at mesmo pela melhor tcnica analtica.Naturalmente, deve-se atribuir a todas pessoa normal uma capacidade de dirigir catexias libidinais s 
pessoas. A tendncia  transferncia nos neurticos, da qual falei,  apenas um aumento extraordinrio dessa caracterstica universal. Seria mesmo muito estranho 
se um trao humano to difundido e to importante nunca tivesse sido percebido nem valorizado. E de fato ele o foi. Bernheim, que tinha um olho infalvel, baseou 
sua teoria dos fenmenos hipnticos na tese segundo a qual toda pessoa, de alguma forma,  'sugestionvel'. Sua sugestionabilidade no era seno a tendncia  transferncia, 
concebida um tanto estreitamente, por no incluir a transferncia negativa. Mas Bernheim jamais pde dizer o que era realmente a sugesto e como ela surgia. Para 
ele, tratava-se de um fato fundamental, cuja origem no conseguia esclarecer. Ele no sabia que sua 'suggestibilit' dependia da sexualidade, da atividade da libido. 
E devemos dar-nos conta de que, em nossa tcnica, abandonamos a hipnose apenas para redescobrir as sugestes na forma de transferncia.Aqui fao uma pausa, e deixarei 
que tomem a palavra; pois vejo uma objeo agitando-se nos senhores com tanta veemncia, que os tornaria incapazes de ouvir se no a expressassem em palavras: 'Ah! 
ento, afinal, o senhor o admite! O senhor trabalha com auxlio da sugesto, igualzinho aos hipnotizadores!  o que estvamos pensando h muito tempo. Mas, ento, 
por que o caminho indireto das recordaes do passado, a descoberta do inconsciente, a interpretao e a traduo retrospectiva das distores - esse imenso dispndio 
de trabalho, de tempo e de dinheiro - quando a nica coisa eficaz, no final das contas,  apenas a sugesto? Por que o senhor no faz sugestes diretas contra os 
sintomas, como o fazem os outros - honestos hipnotizadores? Alm dos mais, se o senhor procura desculpar-se por seu longo rodeio usando por motivo o fato de o senhor 
ter realizado diversas descobertas psicolgicas importantes que so ocultas pela sugesto direta - qual a certeza, agora, dessas descobertas? No so elas resultado 
de sugesto, tambm, de sugesto no-intencional? No  possvel que o senhor esteja impondo ao paciente o que o senhor quer e o que parece correto para o senhor, 
tambm nessa rea?'O que os senhores me esto apresentando  extraordinariamente interessante e deve ser respondido. Contudo, no posso faz-lo hoje; falta-nos tempo. 
Portanto, at nosso prximo encontro. Responder-lhe-ei, os senhores vero. Hoje, porm, devo finalizar o que comecei. Prometi faz-los entender, mediante o auxlio 
do fato da transferncia, por que nossos esforos teraputicos no tm xito nas neuroses narcsicas.Posso explic-lo em poucas palavras, e os senhores vero com 
que simplicidade o enigma pode ser solucionado e como tudo se ajusta bem. A observao mostra que aqueles que sofrem de neuroses narcsicas no tm capacidade para 
a transferncia ou apenas possuem traos insuficientes da mesma. Eles rejeitam o mdico, no com hostilidade, mas com indiferena. Por esse motivo, tampouco podem 
ser influenciados pelo mdico; o que este lhes diz, deixa-os frios, no os impressiona; conseqentemente, o mecanismo de cura que efetuamos com outras pessoas - 
a revivescncia do conflito patognico e a superao da resistncia devido  regresso - neles no pode ser executado. Permanecem como so. Amide, j empreenderam 
tentativas de recuperao, por sua prpria conta, que conduziram a resultados patolgicos [ver em [1]]. Isto no podemos modificar de forma alguma.Com base em nossas 
impresses clnicas, temos sustentado que essa catexias objetais dos pacientes devem ter sido abandonadas, e que sua libido objetal deve ter-se transformado em libido 
do ego [ver em [1] e [2]]. Atravs dessa caracterstica ns os distinguimos do primeiro grupo de neurtico (os que sofrem de histeria, histeria de angstia e neurose 
obsessiva). Essa suspeita agora se confirma pelo seu comportamento frente aos nossos esforos de trat-los. No manifestam transferncia, e, por essa razo, so 
inacessveis aos nossos esforos e no podem ser curados por ns.
         
         CONFERNCIA XXVIII   
         TERAPIA  ANALTICA
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Os senhores sabem de que iremos falar, hoje. Os senhores perguntaram-me por que no utilizamos a sugesto direta na terapia psicanaltica, de vez que admitimos 
que nossa influncia se baseia essencialmente na transferncia - isto , na sugesto; e acrescentaram a dvida quanto a saber se, em vista dessa predominncia da 
sugesto, ainda temos o direito de declarar que nossas descobertas psicolgicas so objetivas. Prometi que lhes daria uma resposta detalhada.
         A sugesto direta  a sugesto dirigida contra a manifestao dos sintomas;  uma luta entre nossa autoridade e os motivos da doena. Nessa atuao, os 
senhores no se preocupam com esses motivos; simplesmente pedem ao paciente para que suprima a manifestao desses motivos nos sintomas. No faz qualquer diferena 
essencial se os senhores colocam, ou no, o paciente em hipnose. Bernheim, uma vez mais, com sua perspiccia caracterstica, afirmava que a sugesto era o elemento 
essencial nos fenmenos do hipnotismo, que a prpria hipnose j era um resultado da sugesto, um estado sugerido; e ele preferia praticar a sugesto em estado de 
viglia, que pode conseguir os mesmos efeitos da sugesto sob hipnose.Que prefeririam os senhores ouvir em primeiro lugar, no tocante a essa questo: o que nos diz 
a experincia ou o que nos dizem as formulaes tericas?Comecemos pela primeira. Fui discpulo de Bernheim, a quem visitei em Nancy, em 1889, e cujo livro sobre 
a sugesto traduzi para o alemo.
         Pratiquei tratamento hipntico por muito anos, a princpio usando a sugesto proibitria, depois, combinando-a com o mtodo de Breuer, de fazer perguntas 
ao paciente. Portanto, posso falar dos resultados da terapia hipntica ou sugestiva baseado em larga experincia. Se, de acordo com as palavras do antigo aforisma 
mdico, uma terapia ideal deve ser rpida, confivel e no desagradvel para o paciente ('cito, tuto, jucunde'), o mtodo de Bernheim preenchia pelo menos dois desses 
requisitos. Podia ser efetuado de modo muito mais rpido - ou, melhor, infinitamente mais rpido - do que o tratamento analtico, e no causava nem dificuldades, 
nem desagrado ao paciente. Para o mdico, ele se tornava, a longo prazo, montono: em cada caso, proceder da mesma maneira, com o mesmo ritual, proibindo aos mais 
variegados sintomas existirem, sem ser capaz de aprender nada de seu sentido e significado. Era um trabalho braal, no uma atividade cientfica, e lembrava magia, 
encantamento, truque de prestidigitador. Isto, entretanto, podia no pesar contra o interesse do paciente. Mas faltava a terceira qualidade: o procedimento no era 
confivel em nenhum aspecto. Podia ser usado com um paciente, mas no em outro; conseguia muita coisa com um e bem pouco, com outro; e jamais se sabia por qu. Pior 
do que essa incerteza do procedimento era a falta de permanncia dos seus xitos. Se, passado pouco tempo, recebiam-se notcias do paciente, a antiga doena havia 
retornado, ou seu lugar tomado por nova doena. Podia-se hipnotizar de novo o paciente. Nos bastidores, porm, estava a advertncia, dada por pessoas experientes, 
contra o risco de roubar ao paciente sua autoconfiana pela hipnose freqentes vezes repetida, e de, assim, torn-lo um viciado dessa espcie de terapia como se 
fosse um narctico.  preciso reconhecer que, vez e outra, as coisa corriam inteiramente segundo o que se desejava: aps algumas tentativas, o xito era completo 
e permanente. As condies que determinavam tal resultado favorvel, contudo, permaneciam desconhecidas. Em certa oportunidade, uma condio mrbida grave de uma 
mulher, que eu havia completamente eliminado por meio de determinado tratamento hipntico, retornou sem modificaes aps a paciente, sem qualquer ao de minha 
parte, haver ficado aborrecida comigo; depois de uma reconciliao, removi novamente o problema e com muito mais segurana; ainda assim, tornou a voltar a sintomatologia 
depois que se desaveio comigo uma segunda vez. Em outra ocasio, uma paciente, a quem eu havia ajudado repetidamente a sair de estados neurticos pela hipnose, subitamente, 
durante o tratamento de uma situao especialmente renitente, lanou seus braos em volta de meu pescoo, abraando-me. Passado isso, querendo ou no, dificilmente 
se poderia evitar investigar a questo referente  natureza e  origem da autoridade que se tinha no tratamento sugestivo.Estas as experincias. Elas nos mostram 
que, aos renunciarmos  sugesto direta, no estamos abandonando algo de valor insubstituvel. Acrescentemos, agora, a esse aspecto algumas reflexes. A prtica 
da terapia hipntica exige muito pouco, tanto do paciente como do mdico. Ajusta-se magnificamente bem  idia que a maioria dos mdicos tem a respeito das neuroses. 
O mdico diz ao paciente neurtico: 'No h problema com voc,  s uma questo de nervos; assim, posso acabar com esse problema em dois ou trs minutos, s com 
algumas palavras.' Mas nossa viso das leis da energia  insultada com a noo de que  possvel mover um grande peso com uma insignificante aplicao de fora, 
agindo diretamente, sem o auxlio externo de algum dispositivo apropriado. Na medida em que se possam comparar as situaes, a experincia mostra que tal faanha 
tampouco se realiza com xito nos casos de neurose. No entanto, estou consciente de que esse argumento no  impugnvel. Existe uma coisa chamada 'ao-gatilho'. 
luz do conhecimento que adquiririmos da psicanlise, podemos descrever a diferena entre tratamento hipntico e tratamento psicanaltico da seguinte maneira. O tratamento 
hipntico procura encobrir e dissimular algo existente na vida mental; o tratamento analtico visa a expor e eliminar algo. O primeiro age como cosmtico, o segundo, 
como cirurgia. O primeiro utiliza-se da sugesto, a fim de proibir os sintomas: fortalece as represses, mas afora isso, deixa inalterados todos os processos que 
levaram  formao dos sintomas. O tratamento analtico faz seu impacto mais retrospectivamente, em direo s razes, onde esto os conflitos que originaram os 
sintomas, e utiliza a sugesto a fim de modificar o resultado desses conflitos. O tratamento hipntico deixa o paciente inerte e imodificado, e, por esse motivo 
tambm, igualmente incapaz de resistir a alguma nova oportunidade de adoecer. Um tratamento analtico exige do mdico, assim como do paciente, a realizao de um 
trabalho srio, que  empregado para desfazer as resistncias internas. Atravs da superao dessas resistncias, a vida mental do paciente  modificada permanentemente, 
 elevada a um alto nvel de evoluo e fica protegida contra novas possibilidades de adoecer. Esse trabalho de superar as resistncias constitui a funo essencial 
do tratamento analtico; o paciente tem de realiz-lo e o mdico lhe possibilita faz-lo com a ajuda da sugesto, operando em um sentido educativo. Por esse motivo, 
o tratamento psicanaltico tem sido apropriadamente qualificado como um tipo de ps-educao.Espero ter-lhes esclarecido, agora, de que maneira nosso mtodo de empregar 
terapeuticamente a sugesto difere do nico mtodo possvel no tratamento hipntico. Os senhores, partindo do fato de que a sugesto pode ter sua origem na transferncia, 
compreendero, ademais, a incerteza que nos acometia na terapia hipntica, ao passo que o tratamento analtico se mantm previsvel dentro de seus limites. Ao utilizar 
a hipnose, dependemos do estado da capacidade de transferncia do paciente, sem sermos capazes de influenciar tal estado. A transferncia de uma pessoa a ser hipnotizada 
pode ser negativa, ou, mais freqentemente, ambivalente, ou a pessoa pode haver-se protegido contra sua transferncia adotando atitudes especiais; a esse respeito 
nada sabemos. Na psicanlise, agimos sobre a prpria transferncia, deslindamos o que nela se ope ao tratamento, ajustamos o instrumento com o qual desejamos causar 
nosso impacto. Assim, se nos torna possvel auferir uma vantagem inteiramente nova do poder da sugesto; ela passa para nossas mos. O paciente no sugere a si mesmo 
o que quer que seja que lhe agrade: guiamos sua sugesto na medida em que ele, de algum modo,  acessvel  sua influncia.Contudo, agora os senhores, no importa 
se denominamos a fora motriz de nossa anlise, de transferncia ou de sugesto, me diro que h o risco de que a influncia sobre o nosso paciente possa tornar 
duvidosa a certeza objetiva de nossas descobertas. O que  vantajoso para nossa terapia,  prejudicial s nossas pesquisas. Esta  a objeo mais freqentemente 
feita contra a psicanlise, e deve-se admitir que, embora carente de fundamento, no pode ser rejeitada como no-racional. Se essa objeo fosse justificada, a psicanlise 
no seria nada mais que uma forma de tratamento sugestivo especialmente bem disfarada e particularmente eficiente; e deveramos atribuir pouco peso a tudo o que 
ela nos diz sobre aquilo que influencia nossas vidas, sobre a dinmica da mente ou sobre o inconsciente.  nisso que acreditam os nossos adversrios; sobretudo, 
pensam que temos metido na cabea dos pacientes tudo a respeito da importncia das experincias sexuais - ou at mesmo essas mesmas experincias - depois que essas 
idias criaram corpo em nossa imaginao depravada. Tais acusaes so contraditas por meio de um apelo  experincia, com maior facilidade do que com a ajuda da 
teoria. Todo aquele que tiver efetuado psicanlises, ter sido capaz de convencer-se, vezes sem conta, de que  impossvel, dessa forma, fazer sugestes a um paciente. 
Naturalmente o mdico no tem dificuldade de torn-lo um adepto de uma determinada teoria, e ento faz-lo compartilhar de alguns erros seus. Nesse aspecto, o paciente 
se comporta como qualquer outra pessoa - como um aluno - mas tal coisa atinge apenas a sua inteligncia, no sua doena. Afinal, seus conflitos s se resolvero 
com xito e suas resistncias sero superadas, se as idias orientadoras que lhe dermos se coadunarem com o que nele  real. Tudo o que, nas conjecturas do mdico, 
 impreciso, vai sendo eliminado no decorrer da anlise;  preciso ser retirado e substitudo por algo mais correto. Atravs de uma tcnica cuidadosa, esforamo-nos 
por evitar a ocorrncia de sucessos prematuros devido  sugesto; mas, ainda que estes ocorram, no h prejuzo, pois no nos satisfazemos com um sucesso inicial. 
S consideramos que uma anlise esteja no seu trmino quando todas as obscuridades do caso tenham sido elucidadas, as lacunas da memria preenchidas, e descobertas 
as causas precipitantes das represses. Os xitos que assomam de imediato, consideramo-los mais obstculos do que auxlio ao trabalho da anlise; e pomos um fim 
a esses xitos, resolvendo constantemente a transferncia, na qual eles se baseiam.  essa ltima caracterstica que constitui a diferena fundamental entre terapia 
analtica e terapia meramente sugestiva, e que livra os resultados da anlise da suspeita de serem sucessos devido  sugesto. Em qualquer outro tipo de tratamento 
sugestivo, a transferncia  cuidadosamente preservada e mantida intocada; na anlise, a prpria transferencial  sujeita a tratamento, e  dissecada em todas as 
formas sob as quais aparece. Ao final de um tratamento analtico, a transferncia deve estar, ela mesma, totalmente resolvida; e se o sucesso ento  obtido ou continua, 
ele no repousa na sugesto, mas sim no fato de, mediante a sugesto, haver-se conseguido superar as resistncias internas e de haver-se efetuado uma modificao 
interna no paciente.
         A aceitao de sugestes, em determinados pontos, , sem dvida, desestimulada pelo fato de que, durante o tratamento, estamos lutando incessantemente contra 
resistncias capazes de transformar-se em transferncias negativas (hostis). E no devemos deixar de assinalar que grande nmero de descobertas na anlise, que de 
outro modo poderiam ser suspeitas de serem produtos da sugesto, confirmam-se, uma a uma, a partir de outra fonte irrepreensvel. Nossos fiadores nesse caso so 
aqueles que sofrem de demncia precoce e parania, os quais, naturalmente, esto acima de qualquer suspeita de serem influenciados pela sugesto. As tradues de 
smbolos e de fantasias, que esses pacientes nos apresentam, e que neles irromperam na conscincia, coincidem fielmente com os resultados de nossas investigaes 
acerca do inconsciente dos que apresentam neurose de transferncia; e, assim, confirmam a correo objetiva de nossas interpretaes, sobre a qual tantas vezes se 
lanam dvidas. Penso que os senhores no se desorientaro se, nesses pontos, confiarem na anlise.
         Passo a completar minha descrio do mecanismo de cura, revestindo-o com as frmulas da teoria da libido. Um neurtico  incapaz de aproveitar a vida e 
de ser eficiente - incapaz de aproveitar a vida porque sua libido no se dirige a nenhum objeto real, e incapaz de ser eficiente porque  obrigado a empregar grande 
quantidade de sua valiosa energia, a fim de manter sua libido sob represso e a fim de repelir seus assaltos. Ele se tornaria sadio se o conflito entre seu ego e 
sua libido chegasse ao fim, e se o ego mesmo tivesse novamente sua libido  sua disposio. A tarefa teraputica consiste, pois, em liberar a libido de suas ligaes 
atuais, subtradas ao ego, e em torn-la novamente utilizvel para o ego. Onde ento se situa a libido do neurtico?  fcil encontr-la: est ligada aos sintomas, 
o que a ela proporciona a nica satisfao substitutiva possvel, na poca. Portanto, devemos nos tornar senhores dos sintomas e solucion-los - o que  exatamente 
a mesma coisa que o paciente exige de ns. A fim de solucionar os sintomas, devemos remontar s suas origens, devemos reconstituir o conflito do qual eles surgiram 
e, com o auxlio das foras motrizes que, no passado, no estavam  disposio do paciente, devemos conduzir o conflito rumo a um resultado diferente. Essa reviso 
do processo de represso s pode ser realizado em parte, em relao aos traos mnmicos dos processos que conduziram  represso. A parte decisiva do trabalho se 
consegue criando na relao do paciente com o mdico - na transferncia - novas edies dos antigos conflitos; nestas, o paciente gostaria de se comportar do mesmo 
modo como o fez no passado, ao passo que ns, concentrando todas as foras mentais disponveis [do paciente], compelimo-lo a chegar a uma nova deciso. Assim, a 
transferncia torna-se o campo de batalha no qual todas as foras mutuamente em choque se enfrentam.
         Toda a libido, bem como tudo quanto a ela se ope, faz-se convergir unicamente para a relao com o mdico. Nesse processo, inevitavelmente os sintomas 
so despojados da libido. Em lugar da doena verdadeira do seu paciente, surge a doena transferencial artificialmente formada; em lugar dos diversos objetos irreais 
da libido, aparece um nico objeto e, mais uma vez, um objeto imaginrio, na pessoa do mdico. Com auxlio da sugesto do mdico, porm, a nova luta em torno desse 
objeto  guindada ao mais elevado nvel psquico: realiza-se na forma de um conflito mental normal. Como  evitada uma nova represso, termina a desunio entre ego 
e libido e a unidade mental da pessoa restaura-se. Quando a libido fica novamente liberada do seu objeto temporrio, representado pela pessoa do mdico, no pode 
retornar aos seus objetos anteriores, mas resta  disposio do ego. As foras contra as quais estivemos lutando durante nosso trabalho de terapia so, por um lado, 
a averso do ego a determinadas inclinaes da libido - uma averso expressa na tendncia  represso - e, por outro lado, a tenacidade ou adesividade da libido 
[ver em [1]],  qual desagrada abandonar objetos que ela uma vez catexizou.
         Assim, nosso trabalho teraputico incide em duas fases. Na primeira, toda a libido  retirada dos sintomas e colocada na transferncia, sendo a concentrada; 
na segunda, trava-se a luta por esse novo objeto e a libido  liberada dele. A modificao decisiva para um resultado favorvel  a eliminao da represso nesse 
conflito reconstitudo, de modo que a libido no possa ser retirada do ego, novamente, pela fuga para o inconsciente. Isto se torna possvel pela mudana do ego 
realizada sob a influncia da sugesto do mdico. Mediante o trabalho da interpretao, que transforma o que  inconsciente em consciente, o ego se amplia  custa 
desse inconsciente; por meio do conhecimento, ele se torna conciliador para com a libido e disposto a conceder-lhe alguma satisfao, e sua recusa s exigncias 
da libido diminui mediante a possibilidade de derivar uma parte da mesma atravs da sublimao. No tratamento, quanto mais os eventos coincidirem com esta descrio 
ideal, maior ser o sucesso da terapia psicanaltica. Seus parmetros so determinados pela falta de mobilidade da libido, que pode recusar-se a abandonar seus objetos, 
e pela rigidez do narcisismo, a qual no permitir que a transferncia para os objetos aumente alm de determinados limites. Talvez possamos tornar ainda mais clara 
a dinmica do processo de cura, se eu lhes disser que retemos a totalidade da libido que foi retirada do domnio do ego, atraindo uma parte dela sobre ns prprios, 
mediante a transferncia.
         No seria fora de propsito manifestar a advertncia de que, partindo da distribuio da libido durante o tratamento e em conseqncia desta, no podemos 
tirar nenhuma concluso acerca do modo como a libido se distribua durante a doena. Suponhamos que conseguimos conduzir um caso a um desfecho favorvel, restabelecendo 
e, depois, solucionando uma intensa transferncia paterna para o mdico. No seria correto concluir que o paciente passara previamente por uma ligao semelhante 
de sua libido em relao ao seu pai. Sua transferncia paterna foi simplesmente o campo de batalha no qual adquirimos o controle de sua libido; a libido do paciente 
se dirigia para essa transferncia a partir de outras posies. Um campo de batalha no precisa necessariamente coincidir com uma das fortalezas-chave do inimigo. 
A defesa de uma capital inimiga no precisa situar-se justamente em frente de suas portas. Somente depois de novamente resolvida a transferncia, podemos reconstruir 
em nosso pensamento a distribuio de libido que prevalecera durante a doena.
         Do ponto de vista da teoria da libido, tambm, podemos dizer uma ltima palavra sobre os sonhos. Os sonhos de um neurtico, bem como suas parapraxias e 
suas associaes livres referentes aos mesmos, nos auxiliam a descobrir o sentido de seus sintomas e a revelar a maneira como sua libido se distribui. Eles no mostram, 
na forma de uma realizao de desejo, quais impulsos plenos de desejos foram sujeitos  represso e a quais objetos a libido retirada do ego foi ligada. Por esse 
motivo, a interpretao dos sonhos desempenha um papel importante em um tratamento psicanaltico, e, em alguns casos, ela , por longos perodos, o mais importante 
instrumento de nosso trabalho. J sabemos [ver em [1]] que o estado de sono, por si mesmo, leva a um determinado afrouxamento das represses. Um impulso reprimido, 
devido a essa reduo da presso que pesa sobre ela, torna-se capaz de expressar-se muito mais claramente num sonho, do que lhe  permitido expressar-se por um sintoma, 
durante o dia. Portanto, o estudo dos sonhos torna-se o meio mais conveniente de se obter acesso ao conhecimento do inconsciente reprimido, do qual faz parte a libido 
retirada do ego.
         Os sonhos dos neurticos, contudo, no diferem, em nenhum aspecto importante, dos sonhos de pessoas normais;  possvel, de fato, que estes no possam absolutamente 
ser diferenciados daqueles. Seria absurdo fazer uma descrio dos sonhos de neurticos que no pudesse tambm aplicar-se aos sonhos de pessoas normais. Logo, podemos 
dizer que a diferena entre neurose e sade vigora apenas durante o dia; no se estende  vida onrica. Somos obrigados a extrapolar para pessoas sadias diversas 
hipteses relativas aos neurticos, em conseqncia do elo ente os sonhos destes e seus sintomas. No podemos negar que tambm as pessoas sadias possuem, em sua 
vida mental, aquilo que, por si s, possibilita a formao tanto dos sonhos como dos sintomas; e devemos concluir que tambm eles efetuaram represses, que dispendem 
determinada quantidade de energia a fim de mant-las, que seu sistema inconsciente oculta impulsos reprimidos ainda catexizados com energia, e que uma parte de sua 
libido  retirada e deixa de estar  disposio do ego. Assim, tambm uma pessoa sadia  virtualmente um neurtico; mas os sonhos parecem ser os nicos sintomas 
que ela  capaz de formar.  verdade que, se algum submete a um exame mais atento sua vida desperta, descobre algo que contradiz essa aparncia - ou seja, que essa 
vida pretensamente sadia est marcada aqui e ali por grande nmero de sintomas banais e destitudos de importncia prtica.
         A distino entre sade nervosa e neurose reduz-se, por conseguinte, a uma questo prtica e  decidida pelo resultado, isto , a pessoa ter ou no ter 
um nvel suficiente de capacidade para aproveitar a vida e ser eficiente. Tal distino provavelmente se atribui s dimenses relativas das quantidades de energia 
que permanece livre e que  ligada pela represso;  de natureza quantitativa, no qualitativa. No preciso dizer-lhes que essa descoberta  a justificao terica 
de nossa convico de que as neuroses so, em princpio, curveis, apesar de se basearem na disposio constitucional.A identidade dos sonhos de pessoas sadias e 
neurticas capacita-nos a inferir, pois, muita coisa referente  definio das caractersticas de sade. Mas, com relao aos sonhos propriamente ditos, podemos 
fazer uma inferncia adicional: no devemos desvincul-los de sua relao com os sintomas neurticos, no devemos supor que sua natureza essencial se esgota com 
a frmula que os descreve como uma traduo de pensamentos em uma forma arcaica de expresso [ver em [1]]; porm, devemos supor que eles nos mostram distribuies 
da libido e catexias objetais que realmente esto presentes.Em breve, chegaremos ao fim. Talvez os senhores estejam desapontados porque, no tpico referente ao mtodo 
psicanaltico de tratamento, apenas lhes falei acerca da teoria e no a respeito das condies que determinam se um tratamento deve ser empreendido, ou dos resultados 
que ele produz. No irei discorrer sobre nenhum dos dois: sobre o primeiro, porque no  minha inteno dar-lhes instrues prticas acerca de como efetuar uma psicanlise, 
e sobre o segundo, porque diversas razes me dissuadem de faz-lo. No incio de nossas palestras [desse ano, ver em [1]], salientei o fato de que, sob condies 
favorveis; obtemos xitos que nada ficam a dever aos mais extraordinrios xitos da medicina interna; e, agora, posso acrescentar algo mais: que eles no poderiam 
ter sido alcanados com nenhum outro mtodo. Se lhes fosse dizer mais do que isto, eu seria suspeito de tentar salientar as altas vozes dos detratores por meio de 
autopromoo. Repetidamente tem sido feita contra a psicanlise, por nossos 'colegas' mdicos - at mesmo em congressos pblicos -, a ameaa de publicar uma coleo 
de fracassos e resultados prejudiciais da anlise e de abrir os olhos do pblico sofredor para a falta de valor desse mtodo de tratamento. Afora o carter maldoso 
e difamante de tal medida, ela, porm, no seria destinada a possibilitar de todas as formas um julgamento correto sobre a eficcia teraputica da anlise. A terapia 
analtica, conforme sabem, est em sua adolescncia; levou longo tempo para estabelecer sua tcnica, e isto s pode ser feito no decorrer do trabalho e sob a influncia 
de crescente experincia. Em conseqncia das dificuldades de ministrar ensino, o mdico que  um iniciante na psicanlise apia-se, em escola maior que outros especialistas, 
em sua prpria capacidade de ulterior desenvolvimento, e os resultados desses primeiros anos jamais tornaro possvel julgar a eficcia da terapia analtica.Muitas 
tentativas de tratamento malograram durante o perodo inicial da anlise, porque foram empreendidas em casos completamente inadequados ao mtodo, casos que, hoje 
em dia, excluiramos com base em nossa atual viso das indicaes para tratamento. Ademais, a essas indicaes, contudo, s se podia chegar pela experimentao. 
Naquela poca, no sabamos a priori que a parania e a demncia precoce, em suas formas fortemente marcadas, eram inacessveis, e tnhamos o direito de ensaiar 
o mtodo em todas as espcies de distrbios. A maior parte dos insucessos daqueles primeiros anos, porm, foi devida no  falha do mdico ou  escolha inadequada 
de pacientes, mas sim a condies externas desfavorveis. Aqui temos tratado apenas das resistncias internas, as do paciente, que so inevitveis e podem ser superadas. 
As resistncias externas emergentes das circunstncias do paciente, de seu ambiente, so de pouco interesse terico, mas de maior importncia prtica. O tratamento 
psicanaltico pode ser comparado a uma operao cirrgica e exigir, de modo similar, que seja efetuado sob condies que sero as mais favorveis para seu xito. 
Os senhores conhecem as medidas de precauo adotadas por um cirurgio: sala adequada, boa iluminao, auxiliares, excluso dos parentes do paciente, e assim por 
diante. Os senhores bem podem imaginar, agora, quantas dessas operaes teriam xito se fossem realizadas na presena de todos os membros da famlia do paciente, 
a enfiarem o nariz no campo operatrio e a clamarem em altos brados a cada inciso. Nos tratamentos psicanalticos, a interveno dos parentes  perigo real e um 
perigo que no se sabe como enfrentar. Est-se precavido contra as resistncias internas do paciente, que se sabe inevitveis; mas como defender-se dessas resistncias 
externas? Nenhum tipo de explicao produz qualquer impresso nos parentes do paciente; eles no podem ser induzidos a manter-se  distncia de todo o assunto, e 
no se pode fazer causa comum com eles, devido ao risco de perder a confiana do paciente, o qual - com toda razo, naturalmente - espera que a pessoa em quem depositou 
toda a sua confiana, fique do seu lado. Ningum que tenha alguma experincia das discrdias que to seguidamente dividem uma famlia, haver de se surpreender, 
sendo um analista, ao constatar que os parentes mais chegados ao paciente s vezes revelam menos interesse em sua recuperao do que na permanncia da doena. Quando, 
como tantas vezes acontece, a neurose tem relao com os conflitos entre membros de uma famlia, os membros sadios no hesitam muito tempo em escolher entre seus 
prprios interesses e a recuperao daquele que est doente. No ser de admirar, realmente, se um marido encara com desaprovao um tratamento no qual, conforme 
ele acertadamente suspeita, ser trazido  luz o catlogo interno de suas mazelas. E nem haveremos de nos admirar em face disso; mas, nesse caso, no podemos acusar-nos, 
se nosso esforos no obtm xito e o tratamento  interrompido prematuramente, porque  resistncia do marido se adiciona a de sua esposa doente. Com efeito, havamos, 
ento, empreendido algo que, nas circunstncias vigentes, era irrealizvel. 
         Em vez de relatar muitos casos, contar-lhe-ei a histria de apenas um deles, no qual, por motivos de sigilo mdico, fui condenado a desempenhar um papel 
sofrido. Empreendi o tratamento analtico - isto j faz muitos anos - de uma jovem que por algum tempo tinha, devido  ansiedade, sido incapaz de sair  rua ou de 
ficar s em casa. Aos poucos, a paciente foi revelando que sua imaginao fora dominada por observaes casuais do relacionamento amoroso entre sua me e um endinheirado 
amigo da famlia. Ela, porm, era to desajeitada - ou to sutil -, que deu  sua me uma pista daquilo de que se estava falando nas sesses analticas. Ela o fez, 
modificando sua conduta para com a me, insistindo em ser protegida, unicamente por sua me, de sua ansiedade de ficar s, e trancando a porta de sada  sua me, 
se esta tentasse sair de casa. Sua me tambm tinha sido muito neurtica, no passado, mas se havia curado, anos antes, em uma estao de guas. Para ser mais preciso, 
ela havia travado conhecimento com o homem com o qual foi capaz de iniciar uma relao que, de todos os modos, lhe agradava. As violentas exigncias da moa surpreenderam-na, 
e ela rapidamente compreendeu o significado da ansiedade de sua filha: a jovem havia adoecido a fim de tornar sua me prisioneira e roubar-lhe a liberdade de movimentos 
necessrios s relaes com seu amante. A me prontamente tomou a deciso e ps fim ao detestvel tratamento. A jovem foi levada a um sanatrio para doenas nervosas 
e, por muitos anos, era mostrada como 'uma pobre vtima da psicanlise'. Todo esse tempo, tambm, fui perseguido pela calnia de responsabilidade pelo infeliz fim 
do tratamento. Mantive-me em silncio, pois julguei-me preso  obrigao do sigilo mdico. Muito tempo depois, soube, por um de meus colegas que tinha visitado o 
sanatrio e ali vira a jovem agorafbica, que a liaison entre sua me e o prprio amigo da famlia era um caso pblico e notrio na cidade, e que, nisto, provavelmente, 
era conivente o marido e pai. Assim, a esse 'segredo'  que o tratamento tinha sido sacrificado.Nos anos anteriores  guerra, quando pessoas chegadas de muitos pases 
estrangeiros me fizeram independente da simpatia ou antipatia de minha prpria cidade, segui a regra de no tomar um paciente em tratamento a menos que ele fosse 
sui juris, no-dependente de quem quer que fosse, nas relaes essenciais de sua vida. No entanto, isto no  possvel para todos os analistas. Talvez os senhores 
possam concluir, de minha advertncia contra os parentes, que os pacientes destinados  psicanlise devam ser segregados de suas famlias, e que essa espcie de 
tratamento deveria, por conseguinte, restringir-se a pessoas internadas em hospitais para doenas nervosas. Nisto eu no poderia acompanh-los, porm.  muito mais 
vantajoso para os pacientes (na medida em que no estejam em uma fase de grave exausto) permanecerem, durante o tratamento, naquelas condies em que tm de lutar 
contra as tarefas que os desafiam. Os parentes dos pacientes, contudo, no devem anular essa vantagem, como sua conduta, e no deveriam oferecer qualquer oposio 
hostil aos esforos do mdico. Entretanto, como se propem os senhores influenciar, nesse sentido, fatores como estes que nos so inacessveis? E os senhores compreendero, 
naturalmente, o quanto as perspectivas de um tratamento so determinadas pelo milieu social do paciente e pelo nvel cultural de sua famlia.
         Esse aspecto apresenta uma sombria perspectiva para a eficincia da psicanlise como forma de terapia, no  mesmo? Ainda que sejamos capazes de explicar 
a grande maioria de nossos fracassos, atribuindo-os  interferncia de fatores externos. Amigos da anlise tm-nos aconselhado a arrostar a ameaa de publicao 
de nossos insucessos com estatsticas de nossos xitos, alinhadas por ns prprios. No concordo com isto. Assinalei que as estatsticas so carentes de valor se 
os itens nelas agrupados so por demais heterogneos; e os casos de doena neurtica que tomamos em tratamento eram, de fato, impossveis de comparar, em uma grande 
variedade de aspectos. Alm do mais, o perodo de tempo que podia ser coberto era excessivamente curto para possibilitar uma avaliao da durabilidade das curas. 
E era totalmente impossvel relatar muitos desses casos: referiam-se a pessoas que haviam mantido em segredo tanto sua doena, como seu tratamento, e sua recuperao 
igualmente devia ser mantida em segredo. O motivo mais forte para silenciar est, contudo, na percepo de que, em matria de terapia, as pessoas se conduzem muito 
irracionalmente, de forma que no se tem a perspectiva de realizar, junto delas, nada por meios racionais. Uma inovao teraputica, ou  recebida com entusiasmo 
delirante - como, por exemplo, quando Koch apresentou ao pblico sua primeira tuberculina contra a tuberculose -, ou  tratada com desconfiana profunda - como a 
vacina de Jenner, que foi realmente uma beno e ainda hoje encontra opositores irreconciliveis. Houve, evidentemente, um preconceito contra a psicanlise. Se algum 
tivesse curado um caso grave, podia-se ouvir as pessoas dizerem: 'Isso no prova nada. Ele podia ter-se recuperado por si mesmo, nesse perodo.' E quando uma paciente, 
que j havia passado por quatro ciclos de depresso e mania, veio a ser tratada por mim durante um intervalo subseqente a um ataque de melancolia, entrando, trs 
semanas depois, numa fase de mania, todos os membros de sua famlia - e tambm uma alta autoridade mdica que foi solicitada para consulta - se convenceram de que 
o novo ataque s podia ser o resultado de minha tentativa de anlise. Nada pode ser feito contra os preconceitos. Isto os senhores podem constatar novamente, hoje 
em dia, nos preconceitos que cada grupo de naes em guerra desenvolveu contra o outro. A coisa mais sensata a fazer  esperar e deixar tais preconceitos aos efeitos 
da eroso do tempo. Um dia, as mesmas pessoas comeam a pensar acerca das mesmas coisas de uma maneira bem diferente de antes; e a razo por que no pensavam dessa 
maneira, anteriormente, continua sendo profundo mistrio.
          possvel que o preconceito contra o tratamento analtico j esteja diminuindo. A constante difuso dos ensinamentos analticos, o crescente nmero de 
mdicos exercendo a anlise em diversos pases, parecem corroborar esse fato. Quando eu era um jovem mdico, encontrei-me em meio a uma tormenta de indignao semelhante, 
por parte dos mdicos, contra o tratamento pela sugesto hipntica, que agora  apoiada, em comparao com a anlise, por pessoas de opinies moderadas. O hipnotismo, 
no entanto, no cumpriu sua promessa inicial como agente teraputico. Ns, psicanalistas, podemos declarar-nos seus legtimos herdeiros, e no esquecemos quanto 
encorajamento e esclarecimento terico lhe devemos. Os efeitos nocivos atribudos  psicanlise restringem-se essencialmente a passageiras manifestaes de um conflito 
exacerbado, se a anlise  efetuada de modo inbil, ou se  interrompida pelo meio. Os senhores ouviram uma exposio daquilo que realizamos com nossos pacientes, 
e podem formar seu prprio juzo quanto a saber se nossos esforos so destinados a produzir qualquer prejuzo duradouro. O mau uso da anlise  possvel, em diversos 
sentidos; em especial, a transferncia  um instrumento perigoso nas mos de um mdico inescrupuloso. No h instrumento ou mtodo mdico que esteja garantido contra 
mau uso; se um bisturi no corta, tampouco pode ser usado para curar.Terminei, senhoras e senhores.  mais do que uma frmula convencional das palavras o fato de 
eu admitir que eu prprio estou profundamente consciente dos vrios defeitos existentes nas conferncias que lhes proferi. Lamento, sobretudo, haver-lhes tantas 
vezes prometido retornar posteriormente a tpicos que apenas mencionara e, depois, no ter encontrado oportunidade de cumprir minha promessa. Assumi o compromisso 
de dar-lhes uma descrio do assunto que ainda est incompleto e em processo de evoluo; e meu resumo condensado veio a mostrar-se incompleto. Em alguns pontos, 
apresentei o material sobre o qual tirar uma concluso, e depois eu mesmo no cheguei  concluso. No poderia, contudo, pretender torn-los peritos; apenas procurei 
dar-lhes estmulo e esclarecimento. 
         
         
         
         



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Conferncias Introdutrias sobre psicanlise (Parte III) - Sigmund Freud
